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domingo, 13 de novembro de 2022

O que é a Janela de Overton?

O que é a Janela de Overton? 
Entenda esta estratégia de manipulação da opinião pública

11 de novembro de 2022



Redação Brasil Paralelo


Muitas pessoas pensam que têm opinião formada sobre um assunto. Na verdade, não é difícil que elas tenham sido induzidas a pensar de uma certa maneira. Estudar o que é a Janela de Overton revelará uma estratégia de manipulação da opinião pública.

Se uma pessoa está na mesma posição contemplando a paisagem através de uma janela, tudo o que ela vê está delimitado pelas esquadrias e pelo batente. À medida que se levanta e se aproxima da janela, o horizonte se amplia.

A Janela de Overton muda paisagens ou amplia limites no campo das ideias, mas com consequências na sociedade.


O que você vai encontrar neste artigo?

O que é a Janela de Overton?
Origem e conceito da Janela de Overton
É possível deslocar a Janela de Overton?
Think tanks – Os influenciadores que deslocam a Janela de Overton
Quais são as etapas da Janela de Overton? Como mudar a opinião pública?
O perigo da manipulação invisível
As consequências da Janela de Overton e os cuidados necessários
Exemplos da Janela de Overton
Teoria da conspiração


O que é a Janela de Overton?
A Janela de Overton, ou Janela do Discurso, descreve o conjunto de ideias que a população tolera. É o grau de aceitabilidade de uma opinião na sociedade.

Ela registra como a maioria das pessoas pensa em um certo momento, sobre um determinado assunto.

Os assuntos podem se deslocar entre um extremo, absolutamente contrário, para outro, absolutamente favorável. A janela é a faixa que concentra o que a maioria aceita.

“A aceitabilidade da opinião pública determina a viabilidade política de um fato”.
Emitir opiniões fora da janela social considerada aceitável pode significar ser rejeitado. Opinar sobre o que está além do pensamento da janela pode ser um desastre para a popularidade de um candidato político.

As etapas da Janela de Overton são:

Inaceitável;
Verossímil (talvez pense nisso);
Neutralidade (sem opinião formada);
Provável (é possível concordar);
Inevitável (ou aceitável).




Origem e conceito da Janela de Overton

A expressão deriva do nome de seu criador, Joseph P. Overton, ex-vice-presidente do Centro de Políticas Públicas de Mackinac, Michigan, EUA. Ele criou este termo para a segurança pública.

Em seus estudos ele explicou que diversos atores sociais podem escolher não apenas o que as pessoas pensam, mas também como elas pensam.

Para descrever o fenômeno que mais tarde seria conhecido como Janela de Overton, ele afirmou que para uma ideia ter viabilidade na sociedade, precisa passar pela “janela” social, não bastando serem apenas preferências individuais dos políticos.

Segundo Overton, a janela inclui um conjunto de políticas consideradas aceitáveis no momento em que a opinião pública as recebe. Um candidato político poderá recomendar este conjunto de ideias sem ser considerado excessivamente extremo.

O conceito demonstra o que a sociedade considera aceitável ou não em um dado momento. Se alguma figura pública quiser aceitação social, deve emitir opiniões que variem dentro da janela considerada aceitável.

Outra característica da Janela de Overton é que ela não é estática.

É possível deslocar a Janela de Overton?

A Janela de Overton não é fixa. O conceito não engloba apenas a definição, ou seja, a determinação do que a maioria aceita. Saber isto é apenas uma etapa. É possível mudar a aceitação das pessoas. É possível manipular a opinião pública.

Para que a Janela de Overton se desloque, é preciso que a população mude sua opinião sobre um tema. Isto acontecerá se as pessoas forem convencidas de novas ideias, ou pelo menos persuadidas a pensarem contra o que normalmente era aceito.

Muitas pessoas manipulam a opinião pública para aceitar o que antes era inaceitável.

As mudanças realizadas na Janela de Overton podem mudar a opinião de “inaceitável” para “verossímil”, “neutralidade” e progredir para “inevitável”. Ou vice-versa, levando as pessoas da aprovação à desaprovação de algo.

Em geral, os governos gastam dinheiro para vender “ideias” e conquistar a opinião pública. Os sentimentos sociais são detectados e começa-se um trabalho para neutralizá-los e, em seguida, mudá-los.

Os deslocamentos, por exemplo, vão desde a mudança da aceitação do cigarro em lugares públicos e fechados, por causa da propaganda antitabagista recorrendo a cientistas, até temas de cidadania, aborto, sexualidade e criminalização de drogas.

Em vários casos, é utilizada a estratégia do Cavalo de Troia. Leia mais sobre esta tática, que faz parte da estratégia de deslocamento da janela.


Think tanks – Os influenciadores que deslocam a Janela de Overton

A Janela de Overton é deslocada principalmente por políticos, assessores de imprensa, institutos de pesquisa, relações públicas, agências de lobby e demais influenciadores. Por esta razão, professores, youtubers, instagramers e similares são mobilizados.

Overton chamou esses agentes, líderes carismáticos, de think tanks, pois colaboram na formação de opinião de seu público, deslocando a janela de aceitação de uma ideia.

Um exemplo enfático que retrata como a opinião pública pode mudar, é a escravidão. Há 150 anos, as pessoas consideravam isto algo natural, normal. A mudança de opinião pode acontecer de uma forma natural ou forçada.

Os think tanks muitas vezes desviam o foco de um tema principal e começam a pautar assuntos adjacentes. Desta forma, o discurso torna-se mais aceitável até que a percepção das pessoas tenha mudado.

Considerando a escravidão, antes de ser completamente abolida, primeiro foi abolido o tráfico negreiro. A mudança aconteceu gradualmente. Foram necessários anos para aprovar leis que dificultavam cada vez mais a escravidão até que a Lei Áurea fosse assinada.

Em 40 anos, a janela da escravidão mudou no Brasil de absolutamente favorável para absolutamente inaceitável.

O jogo de influências que se profissionalizou

A influência pode ser negativa ou positiva, como no exemplo abolicionista.

Ainda assim, o jogo de influências se profissionalizou. Atualmente, foi formada uma indústria especializada em moldar a opinião pública. São assessores de imprensa, publicitários, cientistas políticos, pesquisadores, cientistas, youtubers, políticos e qualquer formador de opinião.

Por estas razões, e por causa destas estratégias, entender o que é Janela de Overton e como ela é usada, torna-se fundamental para entender a complexidade da sociedade.

Gerações podem ser envolvidas no processo de mudança de pensamento. Se não for possível mudar a concepção dos pais, as escolas tornam-se o alvo e prepara-se uma geração que aceita o que os think tanks querem desde o momento em que entram na escola ou acessam a Internet.

Em tempos pacíficos, as discussões sociais são conduzidas lenta e gradualmente. Afinal, a Janela de Overton pode ser definida como a zona de conforto da opinião pública.


Quais são as etapas da Janela de Overton? Como mudar a opinião pública?

1 – O estudo das circunstâncias

A Janela de Overton desloca-se a partir das circunstâncias. Grandes acontecimentos favorecem discursos que podem levar as pessoas a aceitarem o que não haviam pensado em aceitar.

A janela está fechada ou não se move para algum tema, extremamente rejeitado pela sociedade. Entretanto, alguns eventos de impacto podem abrir o espaço para discussão, tais como atentados, crises e doenças.

Por exemplo, após o atentado às torres gêmeas em 2001, os americanos aceitaram mais facilmente que o governo Bush ampliasse o acesso do Estado a informações privadas, novas regras em aeroportos e a guerra no Iraque.

Em 2009 e 2010, a crise econômica também levou os americanos a aceitar que o governo Obama interviesse em bancos, montadoras e seguradoras.

É possível tirar proveito do desespero, do medo, da insegurança, da ignorância e da fala de especialistas.

Por exemplo, as pessoas não estavam dispostas a usar máscaras quando não estavam doentes. Mas independentemente da lei obrigando o uso, elas aceitaram o uso por causa das falas dos especialistas e do foco midiático.

Por estas realidades, uma reflexão deve ser feita. Grandes eventos podem levar as pessoas a abrir mão de seus direitos.

Uma vez feito isto, não é tão fácil recuperá-los. Regras circunstanciais podem ser o pretexto para o estabelecimento de um novo comportamento, que pode até se tornar compulsório.

2 – A opinião se torna aceitável

O que era impensável começou a ser discutido. O próximo passo é conseguir a aceitação. O que antes era repudiado começa a se tornar normal e aqueles que discordam começam a ser mal vistos.

As percepções negativas da ideia em questão começam a deixar de ser negativas. Com o apoio da mídia, começa-se a ver como respeitável o que antes não era. A ideia se torna sensata.

3 – A popularidade da ideia aumenta




A opinião introduzida de acordo com os passos descritos, torna-se popular sendo veiculada em propagandas, filmes, novelas, séries e nos demais meios de entretenimento. Os artistas a apoiam e o novo fenômeno se torna mais presente no imaginário social.

A propagandas, por todos os meios possíveis, é uma das formas mais eficazes de atingir a opinião pública e criar um senso de unanimidade de pensamento. Antes que leis sejam compostas, os anúncios são criados.

4 – A ideia é politizada

Tal se torna a aceitação, que o legislativo propõe leis que regulamentam o que está sendo debatido.

O que começou como impensável, pela descrição da Janela de Overton, pode vir a tornar-se uma lei. A percepção pública pode ser mudada, por mais absurda que seja uma ideia.

O nazismo é um exemplo extremo desta realidade.

O perigo da manipulação invisível

A opinião pública recebe constantemente as pautas da imprensa, dos políticos e dos ativistas em geral. Muitas propagandas, discursos e apelações. As pesquisas também são comuns, sejam elas verdadeiras ou falsas.

As ideias são apresentadas como se já tivessem aceitação da sociedade, quando isto é apenas uma roupagem para que, criando a sensação de popularidade, as pessoas não se ocupem em ser contrárias.

Em 1928, no livro Propaganda, Edwards Bernays explicou que as pessoas tendem a se comportar de forma irracional ou impulsiva, especialmente quando estão inseguras. Nesta situação, discursos fortes e emotivos podem manipular suas decisões.

“Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados, nossas ideias são sugeridas, em grande parte por homens dos quais nunca ouvimos falar… Somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas… que entendem os processos mentais e os padrões sociais das massas. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público, que aproveitam as velhas forças sociais e criam novas maneiras de ligar e guiar o mundo”.

O controle da sociedade através do discurso

Indústrias, empresários, governos, grupos com interesses definidos costumam ser os principais agentes que movimentam o dinheiro utilizado em propaganda para manipular a sociedade.

São feitos esforços para que seja natural para as pessoas aceitarem o que nem sequer seria uma opção.

O discurso é o principal meio. A partir dos estudos de Freud, Psicologia do Grupo e A Análise do Ego, Bernays também disse:

“Se entendemos o mecanismo e os motivos da mente grupal, não é possível controlar e regimentar as massas de acordo com nossa vontade sem que elas saibam disso?”

As consequências da Janela de Overton e os cuidados necessários

O deslocamento de opinião pode ser louvável ou condenável. Nem tudo é manipulação e a Janela de Overton não precisa ser considerada negativa em sua essência. Entretanto, é preciso ter cuidado com as ideias que os agentes sociais apresentam.

É natural que mudanças e deslocamentos aconteçam impulsionados por apelos aos fatos e à lógica, à moral e às emoções. Os casos imorais são movidos por campanhas de desinformação.

Casos notórios são:

Ideologia de Gênero;
Black Lives Matter;
Antifa.

Buscar as reais motivações por trás dos discursos é fundamental. É mais seguro não acreditar apenas no que é dito, mas procurar saber por que é dito e se não há intenção oculta por trás.

O principal esforço deve ser o de descobrir se as estratégias utilizadas para mobilizar a opinião pública envolvem mentiras.

A atenção nos debates deve estar voltada para os termos associados a algum tema, ou o foco principal. Qualquer um que queira deslocar a Janela de Overton, não irá contrariar um tema de frente, mas buscará maneiras suaves de fazê-lo.

A percepção da manipulação da opinião pública pode girar em torno de um desvio do assunto principal.

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”
Esta frase é de Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha Nazista. Os nazistas sabiam que, para mudar a aceitação das pessoas, seria necessário lutar no campo das ideologias.

Por esta razão, foi criado o ministério da propaganda. Os alemães eram constantemente alvejados com a ideia de que pertenciam a uma raça superior, a raça ariana.

Quando a concepção de superioridade se consolidou, a sociedade estava naturalmente menos distante da ideia de que aqueles que não eram arianos não tinham a mesma importância. Consequentemente, era mais fácil conseguir que o povo alemão concordasse com o extermínio dos judeus.

As batalhas começam no campo do discurso, mas chegam à realidade e impactam a vida de todos.

Exemplos da Janela de Overton

A seguinte sequência de exemplos é atual e reflete os acontecimentos que a maioria das pessoas experimenta no dia a dia. São a melhor forma para entender de forma aplicada o que é a Janela de Overton.

1 – Aborto




A população brasileira, em geral, é contrária ao aborto. Para que a ideia de descriminalizar o aborto seja aprovada, é necessário deslocar a janela, indo de “inaceitável” a “inevitável”. Antes, é preciso passar pela neutralidade.

Por esta razão, iniciam-se campanhas que tratam dos “direitos da mulher” e a palavra aborto começa a não ser usada. O primeiro passo é fazer a opinião pública pensar que o feto é parte do corpo da mulher e não outro ser humano.

Outra etapa consiste em conquistar os afetos das pessoas falando do número de mortes clandestinas causadas por abortos não autorizados. A tática aceita a mentira para mobilizar os sentimentos e são usados números exorbitantes.

Fala-se de crianças abandonadas por suas mães, que seriam violentadas e acabariam ameaçando a sociedade ao crescerem em uma vida de traumas e crimes.

Se os pró-vidas são silenciados e não podem alertar a sociedade sobre as mentiras usadas, a janela muda e o aborto, antes reprovado, passa a ser aprovado.

2 – Natureza

Exemplos menores também ilustram bem o que é a Janela de Overton. Basta considerar a sacola plástica no supermercado. Não se muda a ideia do consumidor dizendo-lhe que as compras serão levadas para casa em caixas de papelão.

É preciso falar da preservação da natureza.

3 – Privatizações

Em 2005, se a privatização da Petrobrás fosse discutida, a ideia seria inaceitável. Com todos os escândalos de corrupção que chegaram ao conhecimento público, a ideia de privatização saiu do inaceitável e começou a migrar para o provável nos dias de hoje.

Os Correios já se encontram no nível considerado inevitável.

Teoria da conspiração

Qualquer um que entenda o que é Janela de Overton corre o risco de se preocupar de forma exagerada. Alguns começam a considerar que tudo o que acontece na sociedade é parte de um plano estrategicamente pensado para moldar a opinião pública.

Nem tudo o que acontece é arquitetado e planejado. Muitas mudanças acontecem por causa do desenvolvimento humano natural. O conhecimento também leva a mudanças graduais.

Para saber se há ou não manipulação, é recomendável analisar os argumentos, quem está propondo as ideias e quais serão as consequências.



A Brasil Paralelo é uma produtora independente. Conheça as produções foram feitas para resgatar os bons valores, ideias e sentimentos no coração de todos os brasileiros.






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sábado, 16 de abril de 2016

A religião chamada ideologia: da Cruz e coroa à foice e o martelo (por Pedro Henrique)



Assim como a religião tradicional forjou extremistas, não poderíamos esperar menos da religião ideológica

Postado dia 13/04/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

Foto: Reprodução/Internet
São inúmeros os autores contemporâneos que já constataram um problema corrente de nossa época, problema este que está engolindo mentes e almas: o fideísmo ideológico. Eric Voeglin, Mario Ferreira dos Santos, Michael Oakeshott, Roger Scruton entre outros filósofos que também já haviam falado sobre uma nova religião secular com base nas ideologias do século XX. Entretanto, quem melhor sintetizou isto foi Russell Kirk em seu livro: A política da prudência[1], onde Kirk compara as ideologias modernas com os grandes sistemas religiosos tradicionais. Todavia, há uma diferença basal entre elas: as religiões tradicionais (Budismo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo) têm o objetivo claro de preparar uma realidade pessoal em vista de um transcendente que há de chegar num plano pós-morte (escatológico). Fazendo uma analogia ao cristianismo, Cristo disse: “Meu reino não é deste mundo” (São João 18, 36); a ideologia inverte este grande paradigma, ela prepara grupos de fiéis discípulos para a insurreição política, não para buscar a liberdade espiritual numa realidade pós-morte, mas para caçar, por vias revolucionárias, os imediatismos ilusórios dos seus fins idealizados. Eles, os ideólogos e seus seguidores, ultrapassam quaisquer obstáculos éticos e morais para alcançar em seu grande plano político-utópico. Marx diria, em contraste a Cristo: “Meu reino é deste mundo, busque-o a qualquer preço”.
Assim como a religião tradicional forjou extremistas, não poderíamos esperar menos da religião ideológica. Para um estudioso social acostumado a opiniões filosóficas que exaltam o sadio debate e o sadio contestar argumentativo, deparar-se com tamanha cegueira moral e filosófica em que jazem alguns grupos na sociedade brasileira é uma verdadeira tormenta; a cegueira moral sempre foi prelúdio de totalitarismo em toda a história humana. Para estes a lógica não faz sentido, simplesmente porque a lógica contraria a cartilha de seu partido, e contrariar a cartilha partidária (o livro sagrado) já é um argumento mais que suficiente para inferirem falsidade a um fato.
As universidades foram incumbidas de serem o centro catequético e de recrutamento de cruzados para esta religião. Os professores pouco se importam em formar intelectos capazes de olhar os dois polos de um debate, capazes de expor uma crítica plausível, usar deste aparato democrático do: “contestar” para findar no sumo sensato do pensamento; talvez nunca ouviram falar daquela velha fórmula: tese > antítese = síntese. Hoje se não fores militantes não são dignos, simples assim. Me parece que não lembram que os grandes homens da nossa linhagem racional construíram a sociedade e delinearam a história humana com escritos, estudos, retóricas e grandes escolas de pensamento, não com gritos histéricos e nudismos sem porquês.
Nesta saudosa era dos extremos, permita-me divagar entre possíveis devires em tal época de irracionalidade política. Não é difícil imaginar que exista — e verdadeiramente não duvido que exista — um pedreiro crente que a construção de uma casa inicia-se pelo telhado; ao propô-lo uma outra via, uma via mais sensata baseada nos milhões de construções que iniciaram pelo alicerce, ele provavelmente lhe chamará de reacionário, conservador e fascista. Afinal, o que lhe impede de construir a casa pelo telhado senão as claras e intolerantes opiniões conservadoras e o reacionarismo histórico arquitetônico?
Histericamente diria ele: “por que não quebrar este tradicionalismo fútil de construir uma casa a partir do chão”? Gritaria, entre soluços raivosos: “não vai ter golpe”, mesmo que isto nada signifique no momento, mas ele ouviu em algum lugar e tão logo deduziu que devia ser algo inteligente para ser dito naquele distinto instante. Tudo isto por se propor a sensatez ao invés do fanatismo, por se propor a lucidez ao invés das irrefletidas opiniões militantes.
Acham que isto é loucura minha, que esta analogia é algo sem relevância factual? Ora, há pessoas que creem que o sítio de Atibia é de um “amigo” do Lula, creem que por amor a ele o seu “amigo” decorou a escadaria principal do hall de entrada com a foto do ex-presidente. Acreditam piamente que o “amigo” de Lula colocou os nomes de seus netos nos pedalinhos do sítio somente por camaradagem. A lógica não faz falta para alguns meus caros. Creiam, há coisas mais ilógicas sendo defendidas por grupos sociais do que o leve devaneio de se construir um edifício sem bases.
A grande verdade que salta perante os nossos olhos estupefatos é que a estupidez filosófica e o discurso ilógico tornaram-se algo a ser seguido e propagado; quando estas opiniões são contestadas elas ganham o belo e vazio slogan da “intolerância”. Slogan que eu aceito, afinal, nunca neguei flâmula de intolerante à burrice, principalmente a burrice assumida como sapiência.
Os debates vazios de argumentos e as defesas sem qualquer base na realidade são apenas alguns aspectos secundários destas ideologias plantadas em terrenos que flutuam em utopias teratológicas. “Antigamente” era preciso estudar, labutar dias em apenas um parágrafo da Crítica da razão pura, para finalmente poder dizer algo com certa propriedade sobre ela; era necessário engajar-se horas e mais horas mentalmente cansativas para opinar sobre política e todo seu desenrolar em mil matérias subsequentes. Hoje, entretanto, basta ler uma imagem bem construída no photoshop, postá-la no Facebook com supostas credenciais de verdade irrefutável, e pronto, eis seu doutorado sobre as mais altíssimas ideias, resumidas, é claro, em uma dúzia de caracteres.
A ideologia, por fim, ensina a repetir, ensina a estudar a partir de um estatuto promulgado que não deve ser contestado pelo bem do partido, partido, aliás, estatuto que sempre está com a razão — qualquer semelhança com os dogmas cristãos não são meras coincidências. Já diria o grande Chesterton: “Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas”[2]. Caso não acredite, vá num congresso feminista e erga um cartaz: “sou feminista, mas não socialista”. Depois venha aqui nos contar o que achou da amabilidade democrática daquelas distintas socialistas. Isto lembra-me muito o saudoso socialista Osvaldo Peralva, ele dizia ser a máquina comunista a maior e mais fétida máquina de doutrinação que existiu[3].
Possuímos milhares de homens defendendo o indefensável, lutando lutas perdidas, pisoteando a lógica mais basal para não correrem o risco de negar as sagradas palavras do de Marx e seus apóstolos.

Referência:

[1] KIRK, Russell. A política da prudência, 1ª Ed, É realizações: São Paulo, 2014
[2] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, 1ª Ed. Ecclesiae: Campinas, 2013, p. 46
[3] PERALVA, Osvaldo. O retrato, 1ª Ed, São Paulo: Três Estrelas, 2015, p.257

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Fonte - http://sociedadepublica.com.br/religiao-chamada-ideologia-da-cruz-e-coroa-foice-e-o-martelo/




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