sábado, 21 de agosto de 2010

Entrevista com Ivo Patarra, autor de "O Chefe"

capa03Após anos de investigação, Ivo Patarra afirma: "Lula é o chefe. A rede de esquemas é enorme, complexa e, se houver inteligência, Lula não deve saber dos detalhes, até para não ser envolvido. Mas, como mais alto mandatário da nação e beneficiário dos métodos constituídos para dar governabilidade à sua administração, dá o devido suporte e apoio. É o protetor de tudo."

O jornalista Ivo Patarra, 52 anos, é autor do memorável livro "O Chefe", obra recentemente ampliada e atualizada, em que retrata e analisa todos os escândalos de corrupção envolvendo o Presidente Luís Inácio da Silva e o PT, e em especial, o mensalão. Possui larga experiência em jornalismo político, trabalhou nos jornais Folha de S.Paulo, Folha da Tarde, Diário Popular e Jornal da Tarde, bem como exerceu cargos de assessoria em comunicação nos municípios de São Paulo, Guarulhos, Osasco e São Bernardo do Campo. Além de "O Chefe", que promete ser um clássico para a literatura da ciência política no futuro, é também autor de "Nova York - São Paulo de motocicleta: 73 dias de aventura e emoção", "Fome no Nordeste Brasileiro" e "Morte de Juscelino Kubitschek: acidente ou atentado?".

"O Chefe" pode ser adquirido em versão impressa ou baixado gratuitamente a partir do site O Chefe (http://www.escandalodomensalao.com.br) ou da Livraria Virtual do blog LIBERTATUM (http://libertatumlivros.blogspot.com).

Apresentamos a seguir a entrevista, realizada no dia 24 de março de 2010, por Klauber Cristofen Pires:

MSM: O que lhe motivou a escrever "O Chefe"?

Ivo Patarra:
A eclosão do escândalo do mensalão, pela gravidade e a envergadura do maior esquema de corrupção governamental de que se tem notícias no Brasil, em todos os tempos.

MSM:
Quando surgiram as primeiras evidências de corrupção no governo de Luís Inácio Lula da Silva?

Ivo Patarra: Houve o caso grave em 2004 envolvendo Waldomiro Diniz, o braço direito do então ministro José Dirceu, que apareceu em vídeo pedindo propina a um empresário do jogo.

MSM: O Sr acredita que sua obra jornalística compõe um dossiê mais ou menos representativo dos fatos ou que apenas aponta para a "ponta do iceberg"?

Ivo Patarra: "O Chefe" é resultado de uma pesquisa de cinco anos. Ouso dizer que é bastante completo em relação à corrupção que veio à tona nos governos Lula, mas certamente é a ponta do icebeg do que aconteceu.

MSM: Por qual motivo Lula decidiu tão avidamente incluir Roberto Mangabeira Unger no seu governo?

Ivo Patarra: Faço essa pergunta no primeiro capítulo. Ao longo das 457 páginas de "O Chefe" há muitos indícios e evidências sobre o motivo. Respondo a questão no último capítulo.

MSM: Qual o nível de envolvimento do advogado Roberto Teixeira? Os acidentes aéreos acontecidos e o caos no sistema aéreo foram conseqüências diretas da corrupção na Anac e Infraero?

Ivo Patarra: Roberto Teixeira ganhou milhões advogando para o setor aéreo. É fato que a reforma da pista principal do aeroporto de Congonhas foi protelada, aparentemente sem justificativa. Ou, melhor dizendo, a justificativa parece ter sido autorizar depois uma obra de emergência, sem licitação, supostamente mais cara. Inaugurada às pressas, sem as ranhuras do pavimento, a pista pode ter contribuído decisivamente para o maior desastre da história aviação civil no Brasil, em julho de 2007.

MSM: Para o Ministério Público, o esquema em Santo André começou a implodir quando Celso Daniel descobriu que a propina não vinha irrigando os cofres do PT, como o prefeito desejava, mas morria nas mãos de Sombra, Klinger e Ronan. O Sr concorda com esta suposição? Não teria sido mais conveniente ao PT proteger a imagem do prefeito?

Ivo Patarra: Celso Daniel montou o esquema de corrupção em Santo André e o estimulou, mas pessoas no seu entorno teriam ido com muita sede ao pote, o que diminuía o volume de dinheiro que ele desejava irrigando os cofres do PT. Celso Daniel tentou reverter o quadro e pagou com a própria vida. O PT tentou proteger ao máximo a imagem do prefeito, sem abrir mão da proteção do próprio partido. Nesse sentido, insistiu que havia sido um "crime comum" e não um "crime político". De fato, foi crime comum, motivado pelo destino da roubalheira em Santo André.

MSM: Houve outras mortes, além do caso de Santo André, que possam ser atribuíveis aos esquemas de corrupção apontados em seu livro?

Ivo Patarra: Talvez o prefeito de Campinas, Toninho do PT, possivelmente vinculada a interesses de empresários do bingo, que contribuíram com milhões para a campanha de Lula e se revoltaram com o suposto combate ao jogo desencadeado pelo prefeito do partido do presidente.

MSM: Ainda é assídua a participação de José Dirceu nos diversos esquemas apontados? Como ele tem atuado nos bastidores?

Ivo Patarra: É só abrir os jornais para ver as digitais de José Dirceu em assuntos ligados ao PT e ao governo Lula. O caso mais recente é o da Telebrás e a "consultoria" prestada por Dirceu a uma empresa interessada em milhões que viriam com a reativação da estatal. Com a eficiência costumeira, o entorno do presidente da República trata de abafar o caso. Não tenho dúvida de que o ex-ministro ocupará papel importante nos destinos do País, caso a candidata do presidente seja vitoriosa nas urnas.

MSM: De conhecimento de todos os casos apontados no seu livro, qual a sua conclusão sobre a estrutura de corrupção construída pelo PT? Ela forma uma pirâmide hierárquica ou constitui-se de uma rede de responsabilidades paralelas?

Ivo Patarra: Não acredito que haja uma organização entrelançando os diversos esquemas nas várias áreas de atuação do Governo Federal. Cada setor da administração, controlado por gente do PT e dos partidos da base aliada, cuida da sua fatia do bolo, embora, obviamente, haja uma "inteligência" na divisão dos cargos, proporcional ao peso dos aliados, e na suposta arrecadação de propina, que, fundamentalmente, enriquece agentes políticos, funcionários públicos, empresários e irrigada os caixas 2 dos partidos envolvidos.

MSM: Qual o papel protagonizado por Lula? Ele tem participação como mentor dos esquemas apontados, delibera sobre eles e os gerencia ou apenas atua como executor e protetor?

Ivo Patarra: Lula é o chefe. A rede de esquemas é enorme, complexa e, se houver inteligência, Lula não deve saber dos detalhes, até para não ser envolvido. Mas, como mais alto mandatário da nação e beneficiário dos métodos constituídos para dar governabilidade à sua administração, dá o devido suporte e apoio. É o protetor de tudo. Não tenho dúvida de que os esquemas corruptos continuaram no segundo mandato, até porque a base de apoio continuou a mesma, e até foi ampliada com a entrada em peso do PMDB.

MSM: O Senhor é ou foi militante do PT? Em que período? Em caso positivo, como o Senhor enxerga a imensa rede de corrupção promovida de alto a baixo nesta entidade partidária?

Ivo Patarra: Jamais fui militante do PT ou de qualquer partido. A corrupção, infelizmente, não é limitada ao PT e está difundida por praticamente todo o País e todas as agremiações partidárias. A aliança espúria entre corrupção e impunidade é o maior desafio da sociedade brasileira.

MSM: Não obstante a queda dos principais protagonistas das denúncias de corrupção, até o momento nenhum deles está preso e nem sequer foi julgado. A que deve tamanha mora por parte da justiça?

Ivo Patarra: O Brasil é o País da corrupção e da impunidade. Já é tempo da sociedade exigir a punição dos responsáveis. Só assim venceremos a desigualdade social, nosso maior problema. Notícia recente, por exemplo, mostra que o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, poderá ser preso pela Interpol se deixar o Brasil, por causa de supostos desvios de dinheiro público em obra na capital paulista. O único lugar em que ele aparentemente está seguro é no Brasil, justamente o País cujos cofres públicos teriam sido lesados por ele. Absurdo! Está preso apenas o governador do DF, mas porque foi flagrado num caso simplesmente espetacular de corrupção, todo muito bem documentado.

MSM: O seu livro vem a esclarecer alguma relação do PT com o Foro de São Paulo e/ou com as FARC?

Ivo Patarra: Não.

MSM: Diante de tantas evidências de corrupção, a que o Sr atribui o fato de Sr Luiz Inácio Lula da Silva continuar com a popularidade tão elevada, depois de quase ter sofrido um "impedimento?"

Ivo Patarra: Lula "conversa" muito bem com o povo. É um mestre nisso. Tem à disposição uma máquina fantástica de comunicação e propaganda. Não sofreu o devido processo por crime de responsabilidade pelos fatos ligados ao mensalão graças à leniência da sociedade brasileira de modo geral. Podemos dizer que o Congresso e a Justiça prevaricaram, e que os brasileiros foram medrosos e negligentes. Lula deveria ter sofrido o impeachment. Esse processo todo foi um péssimo exemplo para a população brasileira. Venceu a transgressão, a malandragem.

MSM: Em sua opinião, onde se encontram as falhas institucionais que propiciaram tamanho gigantismo de corrupção e de blindagem?

Ivo Patarra: Sem uma reforma política que tenha meios de desvincular o Poder Legislativo, ou seja, o Congresso Nacional, do Poder Executivo, o Governo Federal, continuaremos a ter o presidente nas mãos de deputados e senadores, que cobram caro por isso, e que, por sua vez, não dispõem de autonomia para fazer valer os verdadeiros interesses nacionais. Por outro lado, temos de dar mais força ao Ministério Público, autonomia à Polícia Federal, exigir eficiência e transparência da Justiça e, finalmente, propiciar mecanismos - e a internet é essencial para isso - a fim de que a sociedade possa fiscalizar e cobrar os poderes constituídos.

MSM: O livro aponta para alguma participação direta de Dilma Roussef nos esquemas apontados?

Ivo Patarra: Dilma tem um envolvimento discreto ao, por exemplo, receber em seu gabinete, fora da agenda, os advogados Luiz Eduardo Greenhalgh e Roberto Teixeira, interessados, respectivamente, nos casos do banqueiro Daniel Dantas e na venda da Varig. Ela também aparece, segundo a diretora da Receita Federal afastada, como tendo pressionado a favor de abafar as investigações que envolviam o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado e aliado de Lula, José Sarney, e por ter colocado, pelo menos indiretamente, a máquina do Ministério da Casa Civil para produzir um dossiê contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o que aliviaria a pressão da oposição que procurava apurar gastos irregulares com cartões de crédito fornecidos pelo governo a ministros e funcionários graduados.

MSM: Como o Sr interpreta recentes notícias de que Lula pretende atuar como presidente da Petrobras ao fim de seu mandato?

Ivo Patarra: Acho que o "plano A" dele é ser secretário-geral da ONU.

MSM: O senhor pretende publicar a sua obra em língua estrangeira?

Ivo Patarra: Estou aberto para isso.

MSM: O Sr recebeu algum apoio para realizar este trabalho?

Ivo Patarra: Não.

MSM: O Senhor tem recebido alguma forma de perseguição pessoal ou profissional pelo trabalho realizado?

Ivo Patarra: Não.


Fonte - http://www.midiasemmascara.org/artigos/entrevistas/10942-entrevista-com-ivo-patarra-autor-de-qo-chefeq.html

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O PT e o pó

O PT está indignado com a acusação de que tem ligações com as Farc e o narcotráfico. A explicação é simples: o partido pensava que aquele pó branco que os companheiros colombianos vendem era açúcar.

O PT não tem nada a ver com a cocaína. Adriano Imperador e Vagner Love também não. Todos eles só gostam de passear ao lado de traficantes armados até os dentes, conversar com eles por telefone, unir forças contra os agentes do mal.

Essa doce revolução do oprimido levou, por acaso, o líder narcoguerrilheiro Raul Reyes a escrever várias cartas a Lula. Todas devidamente recebidas pelo presidente brasileiro, porque trazidas em segurança por parlamentares do PT. Não há notícia de qualquer palavra de Lula de repúdio, crítica ou mesmo desconforto com essa situação.

Ninguém jamais ouviu o presidente brasileiro esclarecer, em alto e bom som: não mantenho e não manterei diálogo com terroristas financiados pelo narcotráfico.

Não. Os companheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são interlocutores do PT, já até tomaram assento juntos em colóquios formais, à luz do dia. Nessas ocasiões, possivelmente os bravos correligionários de Lula ainda pensavam que cocaína é açúcar.

O mais novo indignado com as acusações de ligação com as Farc é Hugo Chávez. O presidente venezuelano criou mais uma crise internacional para sua coleção, rompendo relações com a Colômbia. Ficou zangado porque disseram que há gente das Farc abrigada na Venezuela.

Deu a louca nos bolivarianos de butique. Tendo a seu lado o grande Diego Armando Maradona – que também não sabe diferenciar açúcar de cocaína –, Chávez protestou contra a afirmação de que há narcoguerrilheiros colombianos instalados em seu território. O que terá ele feito com seus hóspedes das Farc? Terá exportado a turma para algum acampamento seguro do MST?

Não está dando para entender a esquerda sul-americana. No Brasil, depois de anos e anos de flerte com os revolucionários do pó branco, o PT fica chateado com uma frase de Indio da Costa sobre a poética narcótica da relação. Esses amantes são mesmo suscetíveis.

Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco o partido de Lula vai dizer que não conhece Dilma Rousseff. Ou que só a conhece socialmente, assim como os fuzis e o açúcar que passarinho não cheira.

http://colunas.epoca.globo.com/guilhermefiuza/2010/07/23/o-pt-e-o-po/

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O terrorista de 1968, remunera-se em 2008

Artigo de Élio Gaspari.


Daqui a oito dias (foi escrito em março de 2008) completam-se 40 anos de um episódio pouco lembrado e injustamente inconcluso. À primeira hora de 20 de março de 1968, o jovem Orlando Lovecchio Filho, 22 anos, deixou seu carro numa garagem da Avenida Paulista e tomou o caminho de casa. Uma explosão arrebentou-lhe a perna esquerda. Pegara a sobra de um atentado contra o consulado americano, praticado por terroristas da Vanguarda Popular Revolucionária. (Nem todos os militantes da VPR podem ser chamados de terroristas, mas quem punha bomba em lugar público, terrorista era). Lovecchio teve a perna amputada abaixo do joelho e a carreira de piloto comercial destruída.

O atentado foi conduzido por Diógenes Carvalho Oliveira e pelos hoje arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefevre e uma pessoa que não foi identificada. A bomba do consulado americano explodiu oito dias antes do assassinato de Edson Lima Souto no restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro, e nove meses antes da imposição ao país do Ato Institucional nº 5. Essas referências cronológicas desamparam a teoria segundo a qual o AI-5 provocou o surgimento da esquerda armada.

Até onde é possível fazer afirmações desse tipo, pode-se dizer que sem o AI-5 certamente continuaria a haver terrorismo e sem terrorismo certamente não teria havido o AI-5. O caso de Lovecchio tem outra dimensão.

Passados 40 anos, ele recebe da 'viúva' uma pensão especial de R$ 571,00 mensais. Nada a ver com o Bolsa Ditadura. Para não estimular o gênero coitadinho, é bom registrar que ele reorganizou sua vida, caminha com uma prótese, é corretor de imóveis e mora em Santos com a mãe e um filho. A vítima da bomba não teve direito ao Bolsa Ditadura, mas o bombista Diógenes teve. No dia 24 de janeiro passado, o governo concedeu-lhe uma aposentadoria de R$1.627,00 mensais, reconhecendo ainda uma dívida de R$400.000,00 de pagamentos atrasados.

Em 1968, com mestrado cubano em explosivos, Diógenes atacou dois quartéis participou de quatro assaltos, três atentados à bomba e uma execução. Em menos de um ano, esteve na cena de três mortes, entre as quais a do capitão americano Charles Chandler, abatido quando saía de casa.

Tudo isso antes do AI-5. Diógenes foi preso em março de 1969 e um ano depois foi trocado pelo cônsul japonês, seqüestrado em São Paulo.

Durante o tempo em que esteve preso, ele disse que foi torturado pelos militares que comandavam a repressão política. Por isso, foi uma vítima da ditadura, com direito a ser indenizado pelo que sofreu. Daí a atribuir suas malfeitorias a uma luta pela democracia, iria enorme distância.

O que ele queria era outra ditadura. Andou por Cuba, Chile, China e Coréia. Voltou ao Brasil com a anistia e tornou-se o 'Diógenes do PT'. Apanhado num contubérnio do grão-petismo gaúcho com o jogo do bicho, deixou o partido em 2002.

Lovecchio, que ficou sem a perna, recebe um terço do que é pago ao cidadão que organizou a explosão que o mutilou. (Um projeto que revê o valor de sua pensão, de iniciativa da ex-deputada petista Mariângela Duarte está adormecido na Câmara.)

Em 1968, antes do AI-5, morreram sete pessoas pela mão do terrorismo de esquerda. Há algo de errado na aritmética das indenizações e na álgebra que faz de Diógenes uma vítima e de Lovecchio um estorvo.


ELIO GASPARI [Wikipédia] – Nápolis – Itália (1944 - ), é um jornalista e escritor ítalo-brasileiro.

Chegou ao Brasil ainda na infância. Começou a carreira jornalística num semanário chamado Novos Rumos, e depois foi auxiliar do colunista social Ibrahim Sued, passando a seguir por publicações de destaque, como o Diário de São Paulo, a revista Veja e o Jornal do Brasil.

É comentarista do jornal Folha de São Paulo, jornal diário de São Paulo, onde está radicado, tendo seus artigos difundidos para outros jornais, dentre os quais O Globo do Rio de Janeiro, Correio do Povo de Porto Alegre e O POVO de Fortaleza.

Em seus artigos, trata com ironia as personalidades. Para tanto, lança mão de personagens como Madame Natasha, professora de português que "condena a tortura do idioma" e vive concedendo "bolsas de estudo" àqueles que se expressam de modo empolado. Já Eremildo, o idiota, é uma sátira aos que usam indevidamente o dinheiro público.

Dono de consagrada carreira no mundo jornalístico, publicou uma série de quatro livros sobre a ditadura militar brasileira, dividida em duas partes, as Ilusões Armadas e O Sacerdote e o Feiticeiro.

Importante documento deste período histórico do Brasil, Gaspari havia em 1984 iniciado suas pesquisas a partir de uma bolsa de estudos no Wilson Center for International Scholars, cuja temática seria centrada nas principais figuras do período ditatorial: os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva. Embasado em documentos pessoais de ambos, a obra deslinda os bastidores do regime militar que por duas décadas mergulhou o Brasil no regime de exceção.


http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=959&Itemid=34


terça-feira, 13 de julho de 2010

A falta que a miliância faz

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 5 de julho de 2010

Às vezes me pergunto se ainda resta quem, na “oposição” brasileira, tenha alguma idéia mesmo aproximada do que é política. Todos parecem imaginar que é marketing, que é relações-públicas, que é economia, que é administração de empresas, que é disputa de cargos, que é “ética” (seja isto lá o que for) ou, na mais louca das hipóteses, que é “luta de idéias”. Na elite esquerdista, todo mundo já entendeu há quarenta anos que política é conquista e exercício do poder, e que poder não é outra coisa senão determinar o curso das ações alheias. Poder é fazer-se obedecer.

Nunca encontrei um político de “direita” que entendesse isso. Todos usam a palavra “poder” como sinônimo de “governo” e imaginam que terão o poder quando chegarem ao governo. Por isso mesmo não chegam nunca. Se chegam, não ficam lá senão o tempo necessário para que alguém os remova ou os exponha ao ridículo. Se governo fosse poder, não haveria nunca revoluções e golpes de Estado, que fazem o governo em frangalhos porque têm o poder de fazer isso e ele não tem o poder de impedi-lo. Ninguém chega ao governo se não tem o poder antes disso – o poder consolidado numa massa militante disciplinada, organizada e adestrada para seguir, com o mínimo de atrito, uma linha de comando. Há três décadas digo aos políticos de direita que eleitorado não é militância, eleitorado é uma massa dispersa e amorfa que só entra em ação de quatro em quatro anos. Militância é luta diária, é consagração da vida aos objetivos apontados pela liderança. Quem descobriu isso foi João Calvino, na Suíça reformada, e desde então a fórmula se consagrou como o mecanismo essencial, senão único, da política moderna. Mas não adianta explicar: todos continuam investindo tudo no empenho de conquistar votos, nada na formação e adestramento da militância. Não aprendem nem provavelmente aprenderão nunca a lição do PT, que em suas primeiras décadas soube adiar e sacrificar a política eleitoral ao interesse maior de criar e manter unida a militância. A liderança esquerdista compreendeu a verdadeira natureza do poder porque estava excluída da vida oficial. Sabia que sua única chance era criar um poder fora dos cargos públicos, um poder capaz de atemorizar o esquema oficial e vergá-lo aos seus interesses, mesmo contra a letra e o espírito das leis vigentes. A tática dos “movimentos sociais”, que inventam direitos inexistentes e os impõem a toda a sociedade antes mesmo de consagrá-los em lei, demonstra isso da maneira mais óbvia: mais vale o poder substantivo do que o poder oficial.

Na “direita”, o mito e o sex appeal do oficialismo conservam toda a sua força de sedução: vencer eleições, ocupar altos cargos, assinar decretos mesmo sem saber se serão obedecidos parece ali ser a essência da política, como se todo o poder consistisse na estrutura nominal da administração do Estado. De que adianta eleger um governador, ou presidente, se a massa militante do outro lado está infiltrada em toda parte e num estalar de dedos transformará a administração pública numa máquina de boicote e desobediência? Mais vale comandar a administração desde fora do que brilhar dentro do governo sem poder de comando.

Militância, por seu lado, não se cria da noite para o dia. Ela começa com círculos muito pequenos de intelectuais que, por anos, nada fazem senão discutir e discutir, analisando diariamente, com minúcia obsessiva, uma conjuntura política na qual não têm o mínimo poder de interferir. É do seu debate interminável que emergem, aos poucos, certas maneiras de pensar e falar que, consolidadas e simplificadas em esquemas repetitivos, se tornam espontaneamente a linguagem dos insatisfeitos em geral. Quando estes aceitam a linguagem do núcleo intelectual como expressão de suas queixas (por mais inadequada que essa linguagem seja objetivamente), é então que começa o adestramento da militância propriamente dita. De início suas iniciativas podem parecer deslocadas e pueris, mas elas não visam a alcançar nenhum resultado objetivo: são apenas ação imanente, destinada a consolidar a militância. Isto é tão importante, tão vital, que todo movimento político sério tem de começar sacrificando eleições e cargos ao ídolo da solidariedade militante.

A direita não tem militância, desde logo, porque não entende a função dos intelectuais. Quer usá-los apenas como adornos, como redatores de publicidade ou como revisores de estilo do discurso empresarial. Não compreende que a análise de conjuntura, a revisão de estratégias, o auto-exame e a busca constante das chaves da unidade do movimento têm de ser atividades diuturnas, incansáveis, obstinadas. Essa é a função por excelência dos “intelectuais orgânicos”. Sem isso não há militância, e sem militância não adianta nem mesmo vencer eleições. Perguntem ao Fernando Collor.

Fonte - http://www.olavodecarvalho.org/semana/100705dc.html

terça-feira, 15 de junho de 2010

Diplomacia de sonâmbulos

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 31 de maio de 2010

Pergunto-me se alguém, no nosso governo, tem alguma compreensão do pano-de-fundo religioso, místico e esotérico das manobras do presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. A resposta é evidentemente “Não”. A simples idéia de que em política a religião possa ser algo mais que um adorno – ou disfarce – publicitário é absolutamente inalcançável para os brucutus do Palácio do Planalto e para os galináceos engomados do Itamaraty. Toda vez que essa gente toma decisões em assuntos que pairam infinitamente acima de seus neurônios e arrastam o povo na direção de um destino que este compreende menos ainda, a liderança intelectual, política, empresarial e militar deste país deveria bater no peito e, genuflexa, recitar: Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. O Brasil está se transformando no instrumento mais passivo, bocó e inconseqüente de políticas internacionais desastrosas que, nas presentes condições, não podem sequer ser objeto de um debate público sério por absoluta falta de debatedores informados.

A ideologia dominante no mundo moderno apregoa que a sociedade política é uma realidade auto-subsistente, dentro da qual, e como parte subordinada da qual, existe um fenômeno chamado “crenças”, cujo exercício o Estado, conforme lhe dê na telha, protege ou reprime.

Essa visão das coisas, hoje tida como dogma do senso comum, é diretamente contraditada pela realidade histórica. Não existe no universo um só Estado ou nação que não tenha surgido desde dentro das religiões, como capítulo fugaz da história dos seus antagonismos internos e externos. O elemento durável e decisivo na História são as religiões: o Estado, a nação e, no fim das contas, tudo o que hoje se denomina “política” são apenas a espuma na superfície de uma corrente que se constitui, em essência, da história das religiões, tomado o termo num sentido amplo que abrange os movimentos ocultistas e esotéricos, incluindo os que se travestem de materialistas e agnósticos (o marxismo é o exemplo mais nítido: leiam Marx and Satan, do pastor Richard Wurmbrand, e To Eliminate the Opiate, do rabino Marvin Antelman, e entenderão do que estou falando).

Obscurecido pela ilusão da “política”, o predomínio absoluto do fator religioso na História mostrou uma vez mais sua força no instante em que o projeto de governo global, muito antes de se traduzir em medidas políticas concretas, teve de se constituir, já desde os anos 50, numa engenhoca espiritual que acabaria por tomar o nome de United Religions Initiative (cito uma vez mais Lee Penn, False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World Religion, leitura obrigatória para quem quer que deseje entender o mundo de hoje).

Mas, se as lideranças globalistas estão bem cientes desse fator, ele continua ignorado pela massa dos analistas políticos, comentaristas de mídia e “formadores de opinião” em geral, apegados, por força da sua formação universitária, ao mito do “Estado leigo”, como se a razão de ser deste último não fosse, precisamente, o advento final de algo como a United Religions Initiative.

O único lugar do planeta onde a consciência do poder da religião como força modeladora da História está viva não só entre os intelectuais como até entre a população em geral, é o Islam. Por isso é que milhões e milhões de muçulmanos têm um senso de participação consciente em planos estratégicos de longuíssima escala – em escala de séculos – para a instauração do império islâmico mundial. Esse senso, aliado à completa invisibilidade dessa escala no horizonte histórico estreito dos políticos ocidentais, basta para explicar que o Islam tenha hoje a maior militância organizada que já se viu no mundo – um poder avassalador a cuja marcha triunfante os países mais ricos e supostamente mais fortes não sabem nem podem oferecer senão uma resistência verbal perfeitamente inútil.

Habituados a raciocinar em termos de poderes estatais, militares, econômicos e burocráticos, os estrategistas do Ocidente perdem freqüentemente de vista a unidade profunda do projeto islâmico ao longo do tempo, nublada, a seus olhos, por divergências momentâneas de interesses nacionais que, para eles, constituem a única realidade efetiva. E nisso refiro-me aos estrategistas das grandes potências, não a seus macaqueadores de segunda mão que hoje constituem a “zé-lite” da diplomacia luliana. Estes não têm sequer a noção de que exista, para além dos lances do momento, um projeto islâmico de longo prazo, ao qual servem sem atinar com o sentido daquilo que fazem ou dizem. Movem-se na cena do mundo como sonâmbulos errando entre sombras, imitando o soneto célebre de Fernando Pessoa:

“Emissário de um rei desconhecido,

Eu cumpro informes instruções de além,

E as bruscas frases que aos meus lábios vêm

Soam-me a um outro e anômalo sentido.”


fonte - http://www.olavodecarvalho.org/semana/100531dc.html


QUADRO POLÍTICO

por Jorge Roberto Pereira - Presidente FDR*
em 15 de Junho de 2010
 
O cidadão brasileiro, já há tempos, está reduzido a ter que escolher entre partidos socialistas ou comunistas, revolucionários ou reformistas. Devemos sim, a estes senhores, todo o mal generalizado que enfrentamos, e a nenhum outro regime de governo além deste que começou a se implantar no país desde a anistia, de 28 de agosto de 1979 e a governar desde o fim do ciclo militar. Sem mencionar as décadas anteriores, quando a “intelligentsia” esquerdista já fazia a cabeça dos universitários, dos meios acadêmicos e da mídia.
 
Precisamos analisar a situação política não sob a ótica da normalidade democrática, mas sob a lógica revolucionária, pois é exatamente o que está em curso no país. A democracia verga sob o fogo de uma revolução silenciosa, empreendida de forma a não levantar suspeitas das liberdades que nos estão sendo subtraídas. Façamos uma breve análise do processo político revolucionário, pois não surpreende a dificuldade da sociedade de entendê-lo.
 
 
Na disputa eleitoral, alinham-se como partidos socialistas revolucionários, o PT e o PV. Como movimentos revolucionários o MST, o MR8 (que muitos julgam extinto) e outros, incluindo aí a igreja progressista, da teologia da libertação. Como partidos comunistas marxistas-leninistas o PC do B e o PCB (dito “pcbinho”). Marxistas-trotskistas o PSOL, o PSTU e PCO. Marxistas-gramscistas o PPS e o PSB. Temos ainda os movimentos comunistas anarquistas, que podem ser ou revolucionários ou pacifistas, orientados pelo Fórum Social Mundial, compostos por ONGs e OGPs, extremamente ativas na desconstrução da sociedade tradicional. Finalmente, apresentando-se como a panacéia dos sofrimentos desta mesma sociedade, os dois partidos sociais-democratas, o PSDB, do socialismo fabiano, e o PDT, da Internacional Socialista, ambos reformistas. Ou seja, o cardápio completo do esquerdismo.

Essa confusão deliberada respeita o conselho do diabo velho ao diabo novo, quando o enviou para a Terra: “não se preocupe em esclarecer as coisas, pois o caos favorece o inferno”.
 
O trabalho em rede de todas as tendências de esquerda, num vetor somatório único, estabelece condições que passam à sociedade a impressão enganadora de estar vivendo uma democracia, pois lhe parece que a disputa eleitoral permite todos participarem democraticamente com suas idéias – todas rigorosamente antidemocráticas.
 
Defendendo teses ontem repudiadas, hoje instrumentais aos seus interesses, o “neo-marxismo” segue as “tarefas” recomendadas por Gramsci, de reformismo revolucionário, aparelhamento do estado e continuísmo no poder e adotou as seguintes “categorias”:
1. a democracia como instrumento de tomada do poder;
2. o pluralismo das esquerdas;
3. o capitalismo como instrumento de formação de prosperidade (e controlado pelos meios do “socialismo de mercado”); e
4. a revolução cultural como forma de luta de classes.
 
Por justiça, devemos todos assumir a responsabilidade de não termos conseguido, no Brasil, formar uma elite pensante a tempo e capaz de enfrentar este lado doente da condição humana, que é o pensamento esquerdista.
 




* FDR - Farol da Democracia Representativa http://www.faroldademocracia.org/index.asp
 

O anúncio de Olavo Bilac

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