Shakespeare e o impeachment
Gustavo Franco
O Globo, 24 de abril de 2016
As semelhanças entre a obra do dramaturgo e a crise política
Por todo o mundo, registram-se comemorações pelos 400 anos da morte de William Shakespeare, completados ontem, 23 de abril, e não pode haver outro tema nesses eventos que a atualidade dessa obra, uma espécie de “escritura secular”, particularmente completa quando se trata de intrigas, maquinações, virtudes e desatinos dos homens públicos.
Nesta empolgação, diz-se que os enredos políticos do noticiário não passam de variações empobrecidas sobre um vernáculo catalogado há séculos. Será mesmo? Vamos, então, a um teste bem difícil: o que há sobre impeachment nas 38 peças de Shakespeare?
Pois bem, há uma peça que Antonio Cândido designou como a “tragédia do destronamento”, e que parece feita para nós. “Ricardo II”, escrita em 1595, oferece um retrato inacreditavelmente fiel da nossa crise e da ruína da presidência Dilma Rousseff, acredite se quiser.
“Ricardo II” foi a primeira de uma série de quatro peças históricas em sequência que cobriam o reinado do verdadeiro Ricardo II até o de Henrique V (1377 até 1422). Shakespeare escrevia dois séculos depois, numa época difícil, face às tensões em torno da rainha Elizabeth I, sempre muito questionada, e às voltas com conspirações. O regime era absolutista e seu fundamento era o Direito Divino, sob o qual não cabia nenhum questionamento sobre as ações do rei, ainda que manifestamente idiota ou mesmo quando violavam a lei. Quem haveria de julgar um rei ungido por Deus?
A tragédia de Ricardo II começa com um escândalo, não em uma empresa de petróleo, mas um assassinato, e uma controvérsia sobre os culpados. Logo ficamos sabendo que o próprio rei foi o mandante, e a discussão se dava entre dois nobres: o assassino de fato e o primo do rei, de nome Henrique de Bolingbroke, um sucessor natural do rei.
A gestão política desta crise foi uma coleção de erros e vacilações, quase um almanaque sobre o que não deve fazer um rei nessas situações, conforme o figurino de Maquiavel, cuja obra Shakespeare havia acabado de conhecer e abraçar.
O rei primeiro determinou que a controvérsia se resolvesse num duelo, mas depois mudou de ideia e determinou o banimento dos dois, sendo que Bolingbroke apenas por seis anos. O mundo político ficou sobressaltado com esta solução. Instaurou-se a incerteza. Sabia-se que o rei havia violado a lei, e ordenado o assassinato.
Tudo é muito fácil, do ponto de vista dramático, quando o rei é acintosamente maligno, como Macbeth, Ricardo III, Claudio e tanto outros extraordinários vilões da galeria shakespeariana. O problema aqui era que Ricardo II era “um homem honrado”, no exato sentido em que esta linguagem foi utilizada por Marco Antonio, para se referir a Brutus, em seu elogio fúnebre a Júlio Cesar, do que resultou atiçar o povo contra os conspiradores. Foi com essas mesmas palavras que FHC se referiu a Dilma Rousseff, no exterior, quando perguntado sobre ela.
Como se dá o destronamento de um “homem honrado” como Ricardo, culpado de assassinato, mas que apenas se expressa em poesia?
Os críticos identificam três eixos para o fenômeno que se designa como “perda de realeza” pelo qual, no universo de Shakespeare, e nessa peça em particular, o homem se separa da função e o rei se autodestrói.
Em primeiro lugar, o rei era um esbanjador irresponsável e havia levado a Inglaterra à bancarrota com guerras caras e tolas, e com impostos excessivos. Numa cena que se tornou clássica, os jardineiros do palácio são os que melhor definem as "pedaladas" reais, comparando a Inglaterra a um jardim malcuidado, repleto de excessos e ervas daninhas.
Em segundo lugar, há uma impressionante sucessão de pequenos ridículos, imaturidades e hesitações do rei, todas revelando um temperamento muito difícil, não explosivo e com dificuldades com o idioma, como Dilma, mas evasivo, ausente, lírico, excessivamente auto referenciado. O rei só ouve bajuladores, vive isento das exigências da realidade, aprisionado em sua própria poesia, “incapaz de distinguir a manipulação de coisas e palavras”, como explica Harold Bloom.
E, para culminar, o rei perpetra um outro desrespeito à lei, considerado mais petulante e inaceitável que o escândalo que inicia o drama: o rei determina o confisco das terras e bens da família de Bolingbroke. A interpretação do mundo político foi a de que o rei estava subvertendo a ordem, pois estava atacando as mesmas leis que estabeleciam o seu direito ao trono.
O drama se sucede de forma linear a partir desses três eixos, e Ricardo parece sucumbir sozinho à realidade de sua inadequação à posição de rei, mas estranhamente seduzido pela ideia que seu Direito Divino estava sendo golpeado e que um exército de anjos ia descer dos céus para salvar sua coroa. Barbara Heliodora o descreve como “um egocêntrico incapaz de se concentrar objetivamente nos problemas que lhe são apresentados” e enxerga uma “alta dose de prazer masoquista” no “gozo que o personagem sente em se ver no papel de vítima”.
Enquanto o rei ia murchando, Bolingbroke apenas insiste que lhe sejam devolvidas as terras confiscadas, o que Ricardo interpreta como “golpe”. Os nobres reconhecem a legitimidade do pleito de Bolingbroke, pois queriam evitar a insegurança jurídica, e, habilmente, Bolingbroke não revela sua pretensão ao trono. Emerge muita clara a tensão da época entre o governante ungido e flagrantemente inepto e o pretendente bem preparado, porém, tecnicamente, usurpador.
Bolingbroke não avança sobre o trono, ou se o faz é com imenso comedimento, apenas comparável ao estranho conforto que o rei encontra em dramatizar o seu próprio fracasso. Barbara Heliodora observa que Henrique de Bolingbroke “chega ao trono sem que Shakespeare lhe dê um só monólogo”. Esse personagem é apenas ação, embora tudo lhe venha por gravidade.
O destronamento se torna praticamente uma renúncia, e o rei nem mesmo se opõe a uma cerimônia de abdicação que fazia a transição um ato voluntário. O rei cresce como personagem, e como poeta, embora de forma inútil e centrada unicamente nas indignidades que diz sofrer. Quanto mais lírico, mais clara sua inaptidão para o cargo, ainda mais diante de seu sucessor, um político profissional. Bolingbroke se torna Henrique IV, manda matar Ricardo, e promete uma Cruzada na Terra Santa para expiar o delito, promessa jamais cumprida.
Qual a lição?
Ricardo morreu afirmando que foi golpe, estranhamente confortado com esta versão de seu fracasso. No conceito absolutista, não há dúvida de que Bolingbroke era usurpador, mesmo contando com apoio de todos. O poder não emanava do povo nesses tempos.
Hoje não temos mais um rei, mas três poderes, tudo diferente, exceto pelo fato de que Dilma Rousseff reedita Ricardo II de tantas maneiras que sua agonia parece ainda mais falsificada e infinitamente mais tosca.
Fonte http://oglobo.globo.com/economia/shakespeare-o-impeachment-19153689
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domingo, 24 de abril de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
O mundo inteiro está cheio de todo mundo (Por: Felipe Moura Brasil)
O mundo inteiro está cheio de todo mundo
Por: Felipe Moura Brasil 31/01/2014
A pedidos de uma leitora e também porque o mencionarei mais uma vez no próximo post, trago para este blog na VEJA meu artigo de 11 de julho de 2013 sobre o ódio brasileiro à inteligência, o culto à ignorância, a incultura dos nossos especialistas e a cultura do coitadismo, em contraste com a história inspiradora do dr. Ben Carson.
1.
Dois irmãos negros comem pipoca assistindo à televisão. A mãe chega, atravessa a sala e desliga o aparelho. Eles protestam.
MÃE: Vocês assistem demais à TV.
FILHO 1: Não tanto assim.
FILHO 2: Não mais do que todo mundo.
MÃE: Não se preocupe com todo mundo. O mundo inteiro está cheio de todo mundo.
Para desespero dos filhos, ela diz que, de agora em diante, eles terão de escolher dois programas por semana e só poderão vê-los depois de terminar o dever de casa, sendo que, no tempo livre, terão de ir à biblioteca escolher dois livros e entregar a ela, no fim de cada semana, relatórios escritos sobre ambos.
O desespero dos filhos aumenta e a mãe se sai com mais um discurso memorável:
— Por que vocês perdem tanto tempo assistindo à TV? Se vocês usassem esse tempo para desenvolver os talentos que Deus lhes deu, não demoraria muito tempo para que as pessoas assistissem a vocês na TV.
2.
A cena acima é de “Mãos talentosas” (“Gifted hands”), o filme — disponível dublado ou com legendas em espanhol no Youtube — sobre a história real do dr. Benjamin Carson, o filho 1 interpretado, quando adulto, por Cuba Gooding Jr.. Assista. O dr. Ben Carson, como é chamado nos EUA, veio de uma família negra e pobre, era o pior aluno da turma no ensino fundamental e sofria gozações dos colegas por sua suposta burrice. Hoje é o melhor neurocirurgião pediátrico do mundo, o primeiro médico a separar com sucesso gêmeos siameses unidos pela cabeça.
Em uma de suas muitas aparições reais na TV, multiplicadas principalmente após ter tido a coragem de propor uma alternativa aos princípios do governo Obama em um discurso [legendado aqui e no fim do post] contra o patrulhamento “politicamente correto” dado a dois passos do presidente — para o desespero de seus assessores e também da mídia esquerdista, incumbida por natureza de abafar o carisma de qualquer negro que venceu na vida por seus próprios méritos e se opõe ao coitadismo racial —, ele lembrou a frase da mãe, Sonya, sobre um dia ser visto exatamente ali e disse sorrindo [aos 7 minutos] como quem cumpre a profecia no ato: “Hi, everybody.”
3.
Sonya Carson, diria eu, foi para Benjamin uma Dostoiévski analfabeta. Em carta a Mlle. Gerassímova de março de 1877, o escritor russo recomendava que ela adiasse a entrada na Escola Normal de Medicina Para Mulheres para se ocupar primeiro de sua educação geral, sem a qual acabaria se juntando àqueles que só fazem mal à própria profissão: “É que simplesmente a maioria de nossos especialistas são pessoas de educação chocantemente precária. Em outras terras é bastante diferente: lá encontramos um Humboldt ou um Claude Bernard, pessoas com grandes ideias, grande cultura e conhecimento para além de seu campo de atuação. Mas, entre nós, mesmo pessoas de talento são incrivelmente pouco educadas.”
Com uma autoridade materna cada vez mais rara nesses tempos em que os pais acreditam educar os filhos à base do “vamos combinar”, a sra. Carson, ao mesmo tempo que salvou Benjamin da palermice absoluta e da zombaria dos colegas, também antecipou boa parte da educação geral do futuro médico, evitando que ele se tornasse um especialista inculto como os da Rússia do fim do século XIX descritos por Dostoiévski, ou também presunçoso, como os do Brasil do início do século XX satirizados por Lima Barreto — sempre atualíssimo.
No conto “Harakashy e as escolas de Java” (lê-se: do Brasil), o escritor mulato explicava que os nossos sábios eram aqueles que fugiam dos laboratórios e dos livros: “Basta que um sujeito tenha aprendido um pouco de álgebra ou folheado um compêndio de anatomia, para se julgar cientista e se encher de um profundo desdém por toda a gente, sobretudo pelos literatos ou poetas. Contudo todos desse gênero querem sê-lo e, em geral, são péssimos.” A mentalidade geral brasileira, tão bem descrita por Lima Barreto, como já apontou Olavo de Carvalho, segue a das vizinhas fofoqueiras diante da biblioteca do major Quaresma: “Para quê tanto livro, se não é nem bacharel?” “Que, em contrapartida”, diria o filósofo, “faltem livros nas estantes dos bacharéis e doutores, onde abundam garrafas de uísque e fotos de viagens internacionais, é coisa que não ofende nem choca a alma nacional.”
[Meu trecho favorito daquele conto, no entanto, é mesmo sobre a nossa medicina: “O tratamento geralmente empregado é o do vestuário médico. Consiste ele em usar o doutor certo traje para curar certa moléstia. Para sarar bexigas, o médico vai em ceroulas; para congestão de fígado, sobrecasaca e cartola; para tuberculose, tanga e chapéu de palha de coco; antraz, de casaca, etc., etc.”]
Uma prova aliás de que a literatura barretiana continua atualíssima, em sua sátira do ódio à inteligência neuroticamente compensado pelo culto devoto a títulos, honrarias e demais aparências, é o artigo recente de Fernando Reinach, “Darwin e a prática da ‘Salami Science’”, no qual o autor lamenta que o objetivo da ciência nacional seja agora publicar artigos fatiados como salame no maior número possível de revistas especializadas: “No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. (…) Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu… Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). (…) Hoje, nas melhores universidades do Brasil, (…) a maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano — e onde.”
A “descoberta” do dr. Carson talvez não possa ser, analogamente, resumida em uma ou duas palavras, mas creio que as doze que utilizei lá em cima para apresentá-lo — “o primeiro médico a separar com sucesso gêmeos siameses unidos pela cabeça” — dizem alguma coisa sobre o seu rigor intelectual e o grupo em que ele está.
Se nem sequer a literatura de Lima Barreto escapou de certo vitimismo, não necessariamente o de raça, mas aquele “no qual as personagens às vezes até conseguem captar a medida de responsabilidade que tiveram em seus destinos, mas sem jamais lograr verdadeiras mudanças”, como escreveu o crítico literário Rodrigo Gurgel, a mãe do neurocirurgião pediátrico jamais permitiu que ele seguisse nesse caminho, à medida que desenvolveu no filho o hábito e até a obrigação moral de encontrar a solução para os seus próprios problemas, sem descontá-lo em mais ninguém, nem exigir compensações descabidas; o que, somado não apenas ao conhecimento adquirido, mas à imaginação e à criatividade desenvolvidas pela leitura, bem como ao senso cristão de responsabilidade pessoal, impulsiona qualquer cérebro ao menos na direção das grandes mudanças e realizações.
Hoje, ninguém precisa desenvolver os talentos que Deus lhe deu para aparecer na TV, principalmente a brasileira; e se o talento do sujeito ainda for intelectual, a TV será mesmo o último lugar onde ele vai aparecer, o que, no fim das contas, é apenas mais um motivo para desligá-la. A TV brasileira é a mãe marxista que manda até seus filhos burgueses irem às ruas exigir tudo do Estado, menos uma biblioteca não marxista para a qual mandá-los, a fim de que não sejam tão incultos e presunçosos.
O tamanho da falta que uma figura como o dr. Ben Carson faz no ambiente cultural brasileiro — e uma mãe como a sua nas famílias pobres e ricas do país — é tão imenso e imensurável que nada mais me resta senão expor o seu exemplo, bem como algumas daquelas suas opiniões que, vindo de quem vem e da maneira simples, respeitosa e inspiradora com que pregam uma mudança de atitude das pessoas em relação à vida, estimulando a confiança em seus potenciais, ao invés da “esperança” de que alguém as trate como coitadinhas, causam um verdadeiro curto-circuito na esquerda americana, que não pode simplesmente demonizá-lo como racista ou elitista sem cair no ridículo ululante.
Como disse o radialista Rush Limbaugh: “O dr. Carson tem uma história de sucesso vindo do nada, que o Partido Democrata diz não ser possível nos EUA. Essa história os amedronta porque se impõe como contraste gritante à mensagem deles não só aos afroamericanos, mas a todas as pessoas. O Partido Democrata não quer que as pessoas pensem que se tornar Ben Carson é possível nos EUA. É injusto demais. É imoral demais. Não há maneira alguma pela qual um sujeito negro poderia se tornar tão bom e tão poderoso; não por si só. Ele é uma ameaça a tudo isto.”
Uma ameaça a todo um modo de encarar as coisas que também se tornou natural aqui no país do fingimento eterno e da educação chocantemente precária.
Cientistas, médicos, empresários, professores, negros, gays, pobres, mulheres, universitários, índios, parece que ainda estão todos na mesma sala, comendo pipoca, assistindo à TV. O Brasil inteiro está cheio de todo mundo. E num país onde todo mundo se deixa rebaixar ao nível de todo mundo, todo mundo — por mais dinheiro que ganhe — acaba não sendo, nem ajudando ninguém.
Felipe Moura Brasil – http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil
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sábado, 16 de abril de 2016
A religião chamada ideologia: da Cruz e coroa à foice e o martelo (por Pedro Henrique)
Assim como a religião tradicional forjou extremistas, não poderíamos esperar menos da religião ideológica
Postado dia 13/04/2016 às 09:00 por Pedro Henrique
Foto: Reprodução/Internet
São inúmeros os autores contemporâneos que já constataram um problema corrente de nossa época, problema este que está engolindo mentes e almas: o fideísmo ideológico. Eric Voeglin, Mario Ferreira dos Santos, Michael Oakeshott, Roger Scruton entre outros filósofos que também já haviam falado sobre uma nova religião secular com base nas ideologias do século XX. Entretanto, quem melhor sintetizou isto foi Russell Kirk em seu livro: A política da prudência[1], onde Kirk compara as ideologias modernas com os grandes sistemas religiosos tradicionais. Todavia, há uma diferença basal entre elas: as religiões tradicionais (Budismo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo) têm o objetivo claro de preparar uma realidade pessoal em vista de um transcendente que há de chegar num plano pós-morte (escatológico). Fazendo uma analogia ao cristianismo, Cristo disse: “Meu reino não é deste mundo” (São João 18, 36); a ideologia inverte este grande paradigma, ela prepara grupos de fiéis discípulos para a insurreição política, não para buscar a liberdade espiritual numa realidade pós-morte, mas para caçar, por vias revolucionárias, os imediatismos ilusórios dos seus fins idealizados. Eles, os ideólogos e seus seguidores, ultrapassam quaisquer obstáculos éticos e morais para alcançar em seu grande plano político-utópico. Marx diria, em contraste a Cristo: “Meu reino é deste mundo, busque-o a qualquer preço”.
Assim como a religião tradicional forjou extremistas, não poderíamos esperar menos da religião ideológica. Para um estudioso social acostumado a opiniões filosóficas que exaltam o sadio debate e o sadio contestar argumentativo, deparar-se com tamanha cegueira moral e filosófica em que jazem alguns grupos na sociedade brasileira é uma verdadeira tormenta; a cegueira moral sempre foi prelúdio de totalitarismo em toda a história humana. Para estes a lógica não faz sentido, simplesmente porque a lógica contraria a cartilha de seu partido, e contrariar a cartilha partidária (o livro sagrado) já é um argumento mais que suficiente para inferirem falsidade a um fato.
As universidades foram incumbidas de serem o centro catequético e de recrutamento de cruzados para esta religião. Os professores pouco se importam em formar intelectos capazes de olhar os dois polos de um debate, capazes de expor uma crítica plausível, usar deste aparato democrático do: “contestar” para findar no sumo sensato do pensamento; talvez nunca ouviram falar daquela velha fórmula: tese > antítese = síntese. Hoje se não fores militantes não são dignos, simples assim. Me parece que não lembram que os grandes homens da nossa linhagem racional construíram a sociedade e delinearam a história humana com escritos, estudos, retóricas e grandes escolas de pensamento, não com gritos histéricos e nudismos sem porquês.
Nesta saudosa era dos extremos, permita-me divagar entre possíveis devires em tal época de irracionalidade política. Não é difícil imaginar que exista — e verdadeiramente não duvido que exista — um pedreiro crente que a construção de uma casa inicia-se pelo telhado; ao propô-lo uma outra via, uma via mais sensata baseada nos milhões de construções que iniciaram pelo alicerce, ele provavelmente lhe chamará de reacionário, conservador e fascista. Afinal, o que lhe impede de construir a casa pelo telhado senão as claras e intolerantes opiniões conservadoras e o reacionarismo histórico arquitetônico?
Histericamente diria ele: “por que não quebrar este tradicionalismo fútil de construir uma casa a partir do chão”? Gritaria, entre soluços raivosos: “não vai ter golpe”, mesmo que isto nada signifique no momento, mas ele ouviu em algum lugar e tão logo deduziu que devia ser algo inteligente para ser dito naquele distinto instante. Tudo isto por se propor a sensatez ao invés do fanatismo, por se propor a lucidez ao invés das irrefletidas opiniões militantes.
Acham que isto é loucura minha, que esta analogia é algo sem relevância factual? Ora, há pessoas que creem que o sítio de Atibia é de um “amigo” do Lula, creem que por amor a ele o seu “amigo” decorou a escadaria principal do hall de entrada com a foto do ex-presidente. Acreditam piamente que o “amigo” de Lula colocou os nomes de seus netos nos pedalinhos do sítio somente por camaradagem. A lógica não faz falta para alguns meus caros. Creiam, há coisas mais ilógicas sendo defendidas por grupos sociais do que o leve devaneio de se construir um edifício sem bases.
A grande verdade que salta perante os nossos olhos estupefatos é que a estupidez filosófica e o discurso ilógico tornaram-se algo a ser seguido e propagado; quando estas opiniões são contestadas elas ganham o belo e vazio slogan da “intolerância”. Slogan que eu aceito, afinal, nunca neguei flâmula de intolerante à burrice, principalmente a burrice assumida como sapiência.
Os debates vazios de argumentos e as defesas sem qualquer base na realidade são apenas alguns aspectos secundários destas ideologias plantadas em terrenos que flutuam em utopias teratológicas. “Antigamente” era preciso estudar, labutar dias em apenas um parágrafo da Crítica da razão pura, para finalmente poder dizer algo com certa propriedade sobre ela; era necessário engajar-se horas e mais horas mentalmente cansativas para opinar sobre política e todo seu desenrolar em mil matérias subsequentes. Hoje, entretanto, basta ler uma imagem bem construída no photoshop, postá-la no Facebook com supostas credenciais de verdade irrefutável, e pronto, eis seu doutorado sobre as mais altíssimas ideias, resumidas, é claro, em uma dúzia de caracteres.
A ideologia, por fim, ensina a repetir, ensina a estudar a partir de um estatuto promulgado que não deve ser contestado pelo bem do partido, partido, aliás, estatuto que sempre está com a razão — qualquer semelhança com os dogmas cristãos não são meras coincidências. Já diria o grande Chesterton: “Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas”[2]. Caso não acredite, vá num congresso feminista e erga um cartaz: “sou feminista, mas não socialista”. Depois venha aqui nos contar o que achou da amabilidade democrática daquelas distintas socialistas. Isto lembra-me muito o saudoso socialista Osvaldo Peralva, ele dizia ser a máquina comunista a maior e mais fétida máquina de doutrinação que existiu[3].
Possuímos milhares de homens defendendo o indefensável, lutando lutas perdidas, pisoteando a lógica mais basal para não correrem o risco de negar as sagradas palavras do de Marx e seus apóstolos.
Referência:
[1] KIRK, Russell. A política da prudência, 1ª Ed, É realizações: São Paulo, 2014
[2] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, 1ª Ed. Ecclesiae: Campinas, 2013, p. 46
[3] PERALVA, Osvaldo. O retrato, 1ª Ed, São Paulo: Três Estrelas, 2015, p.257
#: extremistas • ideologia • militantes • política • religião • sociedade
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quarta-feira, 6 de abril de 2016
José Nêumanne dá lição de moral no STF
José Nêumanne dá lição de moral no STF e no ministro Marco Aurélio Mello no Programa Roda Viva, da TV Cultura, que foi ao ar no último Domingo (03/04).
"Sérgio Moro Condenou 67 réus e vocês enrolando"
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"Sérgio Moro Condenou 67 réus e vocês enrolando"
STF, uma das maiores vergonhas desse pais, se todo cidadão e igual perante a lei, por que a existência de foro privilegiado, uma suprema corte que é indicada por políticos nunca vai contra quem os indicou, isto é um fato.
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sábado, 2 de abril de 2016
O que é o politicamente correto? (Por Orlando Braga)
Por Orlando Braga (2007)
Karl Marx
Muitos de
nós fazemos uma idéia do que é o politicamente correto (PC), pela repetição de
informações transmitidas pela mídia.
O PC não teve origem recente; remonta a sua utilização como instrumento ideológico, ao tempo da I Guerra Mundial. Quando Karl Marx escreveu o “Manifesto Comunista” (séc. 19), ficou bem claro que ideologia que nascia assentava em duas vertentes básicas: O Marxismo Econômico, que defende a idéia de que a História é determinada pela propriedade dos meios de produção, e o Marxismo Cultural, que defende a idéia de que a História é determinada pelo Poder através do qual, grupos sociais (para além das classes sociais) definidos pela raça, sexo, etc., assumem o poder sobre outros grupos. Até a I Guerra Mundial, o Marxismo Cultural não mereceu muita atenção, que se concentrou praticamente toda no Marxismo Econômico, que deu origem à revolução bolchevista (URSS).
O PC não teve origem recente; remonta a sua utilização como instrumento ideológico, ao tempo da I Guerra Mundial. Quando Karl Marx escreveu o “Manifesto Comunista” (séc. 19), ficou bem claro que ideologia que nascia assentava em duas vertentes básicas: O Marxismo Econômico, que defende a idéia de que a História é determinada pela propriedade dos meios de produção, e o Marxismo Cultural, que defende a idéia de que a História é determinada pelo Poder através do qual, grupos sociais (para além das classes sociais) definidos pela raça, sexo, etc., assumem o poder sobre outros grupos. Até a I Guerra Mundial, o Marxismo Cultural não mereceu muita atenção, que se concentrou praticamente toda no Marxismo Econômico, que deu origem à revolução bolchevista (URSS).
O Marxismo
Cultural é uma sub-ideologia do Marxismo (a “outra face da moeda” é o marxismo econômico),
e como todas as ideologias, tende inexoravelmente para a implantação de uma
ditadura, isto é, para o totalitarismo.
À semelhança
do Marxismo Econômico, o Marxismo Cultural (ou Politicamente Correto) considera
que os trabalhadores e os camponeses são, à partida, “bons”, e que a burguesia
e os capitalistas são, a priori, “maus”. Dentro das classes
sociais assim definidas, os marxistas culturais entendem que existem grupos
sociais “bons” (como as mulheres feministas — porque as mulheres não-feministas
são “más” ou “ignorantes”), os negros e os homossexuais – para além dos
muçulmanos, dos animistas, dos índios, dos primatas superiores, etc.. Estes
“grupos sociais” (que incluem os primatas superiores — chimpanzés, gorilas,
etc.) são classificados pelos marxistas culturais como sendo “vítimas” e por
isso, são considerados como “bons”, independentemente do que os seus membros
façam ou deixem de fazer. Um crime de sangue perpetrado por um homossexual é
visto como “uma atitude de revolta contra a sociedade opressora”; o mesmo crime
perpetrado por um heterossexual de raça branca é classificado como um “ato
hediondo de um opressor”. Segundo o Marxismo Cultural, o “macho branco” é o
equivalente ideológico da “burguesia” no Marxismo Econômico.
Enquanto que
o Marxismo Econômico baseia a sua ação no ato de expropriação (retirada de
direitos à propriedade), o Marxismo Cultural (ou PC) expropria direitos de
cidadania, isto é, retira direitos básicos a uns cidadãos para, alegadamente,
dar direitos acrescidos e extraordinários a outros cidadãos, baseados na cor da
pele, sexo ou aquilo a que chamam de “orientação sexual”. Nesta linha está a
concessão de quotas de admissão, seja para o parlamento, seja no acesso a
universidades ou outro tipo de instituições, independentemente de critérios de
competência e de capacidade.
Enquanto que
o método de análise utilizado pelo Marxismo Econômico é baseado no Das
Kapital de Marx (economia coletivista marxista), o Marxismo Cultural
utiliza o desconstrucionismo filosófico e epistemológico explanado por
ideólogos marxistas como Jacques Derrida, que seguiu Martin Heidegger, que
bebeu muita coisa em Friederich Nietzsche.
O Desconstrucionismo, em termos que toda a gente entenda, é um método através do qual se retira o significado de um texto para se colocar a seguir o sentido que se pretende para esse texto. Este método é aplicado não só em textos, mas também na retórica política e ideológica em geral. A desconstrução de um texto (ou de uma realidade histórica) permite que se elimine o seu significado, substituindo-o por aquilo que se pretende. Por exemplo, a análise desconstrucionista da Bíblia pode levar um marxista cultural a inferir que se trata de um livro dedicado à superioridade de uma raça e de um sexo sobre o outro sexo; ou a análise desconstrucionista das obras de Shakespeare, por parte de um marxista cultural, pode concluir que se tratam de obras misóginas que defendem a supressão da mulher; ou a análise politicamente correta dos Lusíadas de Luís Vaz de Camões, levaria à conclusão de que se trata de uma obra colonialista, supremacista, machista e imperialista. Para o marxista cultural, a análise histórica resume-se tão só à análise da relação de poder entre grupos sociais.
O Desconstrucionismo é a chave do politicamente correto (ou marxismo cultural), porque é através dele que surge o relativismo moral como teoria filosófica, que defende a supressão da hierarquia de valores, constituindo-se assim, a antítese da Ética civilizacional européia.
O Desconstrucionismo, em termos que toda a gente entenda, é um método através do qual se retira o significado de um texto para se colocar a seguir o sentido que se pretende para esse texto. Este método é aplicado não só em textos, mas também na retórica política e ideológica em geral. A desconstrução de um texto (ou de uma realidade histórica) permite que se elimine o seu significado, substituindo-o por aquilo que se pretende. Por exemplo, a análise desconstrucionista da Bíblia pode levar um marxista cultural a inferir que se trata de um livro dedicado à superioridade de uma raça e de um sexo sobre o outro sexo; ou a análise desconstrucionista das obras de Shakespeare, por parte de um marxista cultural, pode concluir que se tratam de obras misóginas que defendem a supressão da mulher; ou a análise politicamente correta dos Lusíadas de Luís Vaz de Camões, levaria à conclusão de que se trata de uma obra colonialista, supremacista, machista e imperialista. Para o marxista cultural, a análise histórica resume-se tão só à análise da relação de poder entre grupos sociais.
O Desconstrucionismo é a chave do politicamente correto (ou marxismo cultural), porque é através dele que surge o relativismo moral como teoria filosófica, que defende a supressão da hierarquia de valores, constituindo-se assim, a antítese da Ética civilizacional européia.
António
Gramsci
Com a
revolução marxista russa, as expectativas dos marxistas europeus atingiram um
ponto alto. Esperava-se o mesmo tipo de revolução nos restantes países da
Europa. À medida que o tempo passava, os teóricos marxistas verificaram que a
expansão marxista não estava a ocorrer. Foi então que dois ideólogos marxistas
se dedicaram ao estudo do fenômeno da falha da expansão do comunismo marxista:
António Gramsci (Itália) e George Lukacs (Hungria).
Gramsci concluiu que os trabalhadores europeus nunca seriam servidos nos seus interesses de classe se não se libertassem da cultura européia – e particularmente da religião cristã. Para Gramsci, a razão do fracasso da expansão comunista marxista estava na cultura e na religião. O mesmo conclui Lukacs.
Gramsci concluiu que os trabalhadores europeus nunca seriam servidos nos seus interesses de classe se não se libertassem da cultura européia – e particularmente da religião cristã. Para Gramsci, a razão do fracasso da expansão comunista marxista estava na cultura e na religião. O mesmo conclui Lukacs.
Em 1923, por
iniciativa de um filho de um homem de negócios riquíssimo de nacionalidade
alemã (Félix Veil), que disponibilizou rios de dinheiro para o efeito, criou-se
um grupo permanente (“think tank”) de estudos marxistas na Universidade de
Frankfurt. Foi aqui que se oficializou o nascimento do Politicamente Correto
(Marxismo Cultural), conhecido como “Instituto de Pesquisas Sociais” ou
simplesmente, Escola de Frankfurt – um núcleo de marxistas renegados e
desalinhados com o marxismo-leninismo.
Max Horkheimer
Em 1930,
passou a dirigir a Escola de Frankfurt um tal Max Horkheimer, outro marxista
ideologicamente desalinhado com Moscou e com o partido comunista alemão.
Horkheimer teve a idéia de se aproveitar das idéias de Freud, introduzindo-as
na agenda ideológica da Escola de Frankfurt; Horkheimer coloca assim a
tradicional estrutura socioeconômica marxista em segundo plano, e elege a
estrutura cultural como instrumento privilegiado de luta política. E foi aqui
que se consolidou o Politicamente Correto, tal como o conhecemos hoje, com
pequenas variações de adaptação aos tempos que se seguiram. Surgiu a Teoria
Crítica.
O que é a
Teoria Crítica? As associações financiadas pelo nosso Estado e com o nosso
dinheiro, em apoio ao ativismo gay, em apoio a organizações feministas
camufladas de “proteção à mulher”, e por aí fora – tudo isso faz parte da
Teoria Crítica do marxismo cultural, surgida da Escola de Frankfurt do tempo de
Max Horkheimer. A Teoria Crítica faz o sincretismo entre Marx e Freud, tenta a
síntese entre os dois (“a repressão de uma sociedade capitalista cria uma
condição freudiana generalizada de repressão individual”, e coisas do gênero).
No fundo, o que faz a Teoria Crítica? Critica. Só. Faz críticas. Critica a cultura européia; critica a religião; critica o homem; critica tudo. Só não fazem auto-crítica (nem convém). Não se tratam de críticas construtivas; destroem tudo, criticam de forma a demolir tudo e todos.
No fundo, o que faz a Teoria Crítica? Critica. Só. Faz críticas. Critica a cultura européia; critica a religião; critica o homem; critica tudo. Só não fazem auto-crítica (nem convém). Não se tratam de críticas construtivas; destroem tudo, criticam de forma a demolir tudo e todos.
Marcuse
Por essa
altura, aderiram ao bando de Frankfurt dois senhores: Theodore Adorno e Herbert
Marcuse. Este último emigrou para os Estados Unidos com o advento do nazismo.
Foi Marcuse que introduziu no Politicamente Correto (ou marxismo cultural) um elemento importante: a sexualidade. Foi Marcuse que criou a frase “Make Love, Not War”. Marcuse defendeu o futuro da Humanidade como sendo uma sociedade da “perversidade polimórfica”, na linha das profecias de Nietzsche.
Marcuse defendeu também, já nos anos trinta do século passado, que a masculinidade e a feminilidade não eram diferenças sexuais essenciais, mas derivados de diferentes funções e papéis sociais; segundo Marcuse, não existem diferenças sexuais, senão como “diferenças construídas”.
Marcuse criou o conceito de “tolerância repressiva” – tudo o que viesse da Direita tinha que ser intolerado e reprimido pela violência, e tudo o que viesse da Esquerda tinha que ser tolerado e apoiado pelo Estado. Marcuse é o pai do Politicamente Correto moderno.
Foi Marcuse que introduziu no Politicamente Correto (ou marxismo cultural) um elemento importante: a sexualidade. Foi Marcuse que criou a frase “Make Love, Not War”. Marcuse defendeu o futuro da Humanidade como sendo uma sociedade da “perversidade polimórfica”, na linha das profecias de Nietzsche.
Marcuse defendeu também, já nos anos trinta do século passado, que a masculinidade e a feminilidade não eram diferenças sexuais essenciais, mas derivados de diferentes funções e papéis sociais; segundo Marcuse, não existem diferenças sexuais, senão como “diferenças construídas”.
Marcuse criou o conceito de “tolerância repressiva” – tudo o que viesse da Direita tinha que ser intolerado e reprimido pela violência, e tudo o que viesse da Esquerda tinha que ser tolerado e apoiado pelo Estado. Marcuse é o pai do Politicamente Correto moderno.
O sucesso de
expansão do Marxismo Cultural na opinião pública, em detrimento do Marxismo Econômico,
deve-se três razões simples: a primeira é que as teorias econômicas marxistas
são complicadas de entender pelo cidadão comum, enquanto que o tipo de dedução
primária do raciocínio PC, aliado à fantasia de um mundo ideal e sem defeitos,
é digno de se fazer entender pelo mentecapto mais empedernido. A segunda razão
é porque o Politicamente Correto critica por criticar, pratica a crítica
destrutiva até a exaustão – e sabemos que a adesão popular (da juventude, em
particular) a este tipo de escrutínio crítico é enorme. A terceira razão é que
o antropocentrismo do marxismo econômico falhou, como sistema social e econômico,
em todo o mundo; resta ao Marxismo a guerrilha cultural.
O que se
está a passar hoje na sociedade ocidental, não é muito diferente do que se
passou na União Soviética e na China, num passado recente. Assistimos ao
policiamento do pensamento, à censura das idéias, rumo a uma sociedade
totalitária.
sábado, 19 de março de 2016
Marilena Chaui e o grito primordial: “Eu ODEIO a classe média!” - Por Flávio Morgenstern
16 DE MAIO DE 2013
Marilena Chaui e o grito primordial: “Eu ODEIO a classe média!”
A filósofa petista incita o ódio de classe pois sabe que a classe média se ofende ao ser associada com fascismo e outras coisas que repugna profundamente.
Por Flávio Morgenstern | Tópicos Ben Shapiro, Classe Média, Classe Social, Emir Sader, Filosofia Política, Lobão, Luta De Classes, Mano Brown,Marilena Chaui, Marx, Reacionários

Talvez a maior dificuldade da filosofia seja encontrar termos precisos, que ao menos com alguma acuidade tratem de espelhar a realidade com certa precisão e limites discerníveis. É muito comum um filósofo competente perder-se em seu próprio vocabulário abstrato, abandonando qualquer compromisso com a dureza dos fatos concretos.
É o caso do grande mestre da lógica Bertrand Russell e de seu mais famoso discípulo, Ludwig Wittgenstein. Ambos eram artífices da mais pura lógica matemática. Suas contribuições ao pensamento factual, entretanto, são tão platiformes que o último inicia seu magnum opus encontrando dificuldade em aceitar o fato de haver mais palavras do que coisas no mundo, crendo então ser um paradoxo o fato de todas as palavras estarem fazerem parte do mundo feito de coisas.
A professora de filosofia petista da USP Marilena Chaui, que possui alguma competência na exegese de filósofos há muito observadores do sol de outros mundos, é conhecida por sua visão marxista de conceitos, palavras e categorias. É uma manipuladora competente de termos com grande carga psicológica para sua platéia.
Sabendo animar seu auditório, a professora, no lançamento do livro “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”, organizado pelo sociólogo Emir Sader (seja lá o que for “pós-neoliberal”, se nem o termo “neoliberal” possui qualquer conteúdo dentro da forma além de um xingamento), resolveu, corretamente, explicar que o conceito de “classe social”, para os adeptos da logorréia marxista, nada tem a ver com o quanto alguém possui materialmente. É possível até fazer um corolário não-dito pela professora: tampouco tem a ver com a ocupação de alguém, como no caso da palavra “burguês” (comerciante), como antes se fazia. Sem usar termos declaradamente marxistas no mesmo palco em que o ex-presidente Lula logo falaria, Marilena explicou o conceito de “consciência de classe” (Klassenbewusstsein) do pregador comunista.
À guisa de “conclusão” ou justificativa de sua exposição, como se vê em vídeo divulgado por uma tal “Fundação Maurício Grabois”, com logotipo do PCdoB, Marilena, sem qualquer argumentação, disse finalmente o que a platéia estava ali para ouvir, ao invés dessa chateação filosófica na qual ninguém presta atenção:
“E porque é que eu defendo esse ponto de vista? Não é só por razões teóricas e políticas. É PORQUE EU ODEIO A CLASSE MÉDIA. (colérica, sob, finalmente, aplausos entusiasmados) A classe média é o atraso de vida. a classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante… [perde-se procurando mais outro adjetivo ofensivo gratuito] terrorista. (risos da platéia)“
A classe média é a uma abominação política (risos da platéia), porque ela é fascista. Ela é uma abominação ética porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva porque ela´é ignorante. Fim.”
Marx gastou milhares de páginas em seu cartapácio O Capital e tornou famosa a idéia de que a sociedade se divide em “classes” estanques (necessariamente estanques), e de que o motor da história seria a “luta de classes” (conceito que gerou um falhanço mortuário ao se instigar uma luta mortal anteriormente inexistente, bobagem destroçada impiedosamente por Eric Voegelin). Tal conceitualização de “classe” não é explicada senão apressadamente, em um parágrafo e meio, no fim do terceiro capítulo d’O Capital, que se encerra abruptamente sem qualquer substancialidade sobre o assunto (vide a formidável análise de Gary North em The Marx Nobody Knows, no livro Requiem for Marx, editado por Yuri Maltsev).
Ora, pela taxonomia filosófica e científica, uma “classe” é uma categoria mais abrangente do que “espécie”, “gênero” e “família”. Marx, por pura retórica para arrebanhar fiéis despreparados, usa o termo “classe social” com o fito de fazer crer que é mais fácil fazer parte de outro gênero ou trocar de família do que ascender a outra classe social. Uma óbvia picaretagem. O historiador marxista E. P. Thompson demonstrou com precisão que é impossível distinguir se uma pessoa faz parte do tal “proletariado” ou da “burguesia” – vide o Brasil, onde a classe média econômica preocupa-se mais em conseguir um bom concurso e trabalhar sossegada para o Estado do que se exprobar no comércio (“burgo”) e ter um percentual altíssimo de seus rendimentos avacalhadamente tungados pelo Estado.
Sobra, então, apenas a tal “consciência de classe” (cada vez mais importante para marxistas), que vira aqui, na verdade, inconsciência – incapacidade completa de perceber a realidade a que seus termos juram que fazem alusão. Perdidos no reino abstrato de palavras que apenas sentimentalmente parecem ter alguma semântica científica, como “classe trabalhadora”, as ovelhas seduzidas pelo discurso marxista colocam um cabresto lingüístico sobre seus olhos. Se um analfabeto é capaz de ver e se admirar com o quanto uma pessoa trabalha, se sacrifica e se esforça para prover sustento aos seus e ascender socialmente, um crente lobotomizado por discursos como o da ideóloga do PT apenas enxerga alguém que, paradoxalmente, deixa de fazer parte da “classe trabalhadora” após tanto trabalhar. O “estudante” acaba aprendendo a enxergar sua realidade invertida através de condicionamento lingüístico cada vez mais abstrato, incapaz de notar paradoxos chocantes em sua nova religião.
Não é por outra razão que o filósofo marxista argentino Ernesto Laclau, à guisa de exemplo, inverte o tal motor da história, e diz que é o próprio discurso de classe que gera a classe social, sob estulticocos como afirmar que a “democracia” é um “significante vazio”, ao qual o partido revolucionário pode atribuir o sentido que bem lhe convenha. O que, afinal, é exatamente o que acontece.
Primeiro como farsa
Marilena Chaui não terminou abruptamente a sua verdolenga exposição ideária trocando uma conclusão derivada de premissas por um histérico berro de ódio pessoal apenas porque a continuação de sua verborréia iria jogar para sua platéia a raiz de suas crenças – o que a sua própria platéia, ignorante de cirúrgicas discussões filosóficas em minúcias, iria repudiar com nojo. Ela o faz como uma tática que a esquerda no mundo inteiro, dominante na cultura, na academia e na psicologia, sabe fazer como ninguém.
Não há o menor sentido em tentar ofender um membro da KKK o chamando de “racista”, tentar menosprezar um oficial da Waffen SS orgulhoso de ter assassinado judeus às mancheias tachando-o publicamente de “nazista”. Os intelectuais, os atores (de Hollywood ou o bom-mocismo global tupiniquim), os músicos e as celebridades usam desse expediente justamente para ofender quem odeia ser associado a racistas, nazistas e demais pessoas retrógradas e preconceituosas, porque têm um desprezo tão profundo por racismo, nazismo e outros obscurantismos que se calam de choque se alguém os associa com tais abominações. Em outras palavras, a esquerda ofende usando sempre as mesmas palavras porque sabe que está proferindo uma mentira.
E funciona. O analista político Ben Shapiro (palestra must-see), autor do recém-lançado Bullies: How the Left’s Culture of Fear and Intimidation Silences America, explica a tática ofensiva que a esquerda americana utilizou para ocupar todo o espaço público, justamente dizendo que todo o espaço público é dominado pelo inimigo (“a classe média é reacionária, a mídia é golpista, a oposição é direitista” e até – horresco referens – que essa classe média que não vota em partidos amigos das FARC é “terrorista”):
O objetivo da esquerda é encerrar o debate político, depreciando seus adversários como algozes. Eles rotulam os seus adversários como racistas, sexistas, homofóbicos, intolerantes, ignorantes, teimosos amargos. Eles os comparam aos nazistas, membros da KKK, terroristas (!). Em seguida, eles os expulsam como leprosos do debate político. Porque quem se importaria em debater com um nazista, ou com um membro da KKK, ou com um terrorista?
É assim que a esquerda ganha argumentos. Eles polarizam os americanos uns dos outros. Eles nos separam por grupos. Eles nos dividem e eles nos conquistam. Eles nos convencem de que somos ou vítimas que merecem recompensa, ou opressores que devem se curvar ao jugo.
Ao debatedor com razão, mas desconhecedor de técnicas de retórica e lavagem cerebral apregoadas desabridamente em literatura ideológica, resta o tempo todo ter de se explicar para a platéia que não é um fascista, ou racista, ou apoiador de ditaduras, um espancador de mulheres. Por mais que o outro lado, justamente, seja exatamente isso – a platéia não entenderia que alguém gaguejando amuado no canto após uma chuva de impropérios, ou então apelando para xingamentos desprovidos de carga ideológica após perder a paciência, esteja com mais razão do que um agradável odiador de seres humanos.
Desprovido o adversário de uma posição inicial confortável para expor argumentos, sem gastar tempo tendo de se justificar perante os preconceitos de que está sendo alvo, resta tão somente o teste de sentimentos, em que a platéia apenas julga se aquela pessoa faz parte do seu grupo ou é inimiga. É a animalização da linguagem (não confundir com a zoomorfização) que René Girard encontrou como ato inicial da sociedade humana: encontrar um inimigo como bode expiatório e, através da inculcação de um ódio completo a este “inimigo” como causador de todos os nossos males, iniciar um grupinho, embora não tenhamos nada a compartilhar, a não ser ódio pelo adversário.
É exatamente por esta razão que a esquerda atingiu o patamar de dominação integral que está quase alcançando no mundo, hoje.
Basta ver como mesmo a imprensa mais aguerrida contra sumidades do porte de Lula, Obama, Chávez, Dirceu, Genoino et caterva usa de uma linguagem educada, polida, cuidadosa (não exatamente com seus cargos, mas sim com o apreço do populacho por suas figuras públicas). Não são chamados de comunistas (mesmo discursando para o PCdoB), terroristas, seqüestradores, marxistas, caudilhos, ditadores, totalitários, agentes cubanos – mesmo que um deles ele próprio se jacte afirmando ser “ex” (?!) membro da inteligência cubana.
Eles mesmos, todavia, assim que tomam presença de uma câmera ligada, associam seus adversários a todos os descalabros que nos fariam, comuns mortais, ser processados se falássemos do mesmo modo. Vale chamar repórter de “torturador moderno” (!), afirmar que paulistas são racistas sendo um negro eleito por paulistas (!!), dizer que a imprensa livre pode levar ao nazismo (!!!), pregar uma estatização completa e chamar todos os seus inimigos de “fascista”, fechar o Congresso (ou cogitar se refugiar da prisão indo morar ali dentro), dizer que seus adversários odeiam pobres (a classe média, óbvio, continua liberada para ser odiada, vilipendiada e espezinhada, a ponto de se rir até quando é roubada e assassinada), imputar que seu adversário odeia gays e mulheres e negros etc, etc, etc. Bilinguis maledictus.
A tal “mídia hegemônica burguesa”, quando divulga tais fatos, o faz como uma notinha curiosa na página 84 do caderno D, ao invés de corretamente escancarar o fato repetidamente na capa por meses seguidos. Basta pensar na diferença de virulência e, vale dizer, educação, nos debates entre Lula e Dilma e seus opositores recentes, Serra e Alckmin.
Por óbvio que não se deve imputar à pura mândria maquiavélica a declaração de ódio e o típico discurso com 80 adjetivos para cada substantivo de Marilena Chaui, tão comum à esquerda (que nunca consegue escrever nada sobre seus adversários sem um chorrilho de apelidos depreciativos e difamações).
Urge notar que Chaui chama a classe média de “reacionária”, provavelmente sem saber o que isso significa, ao mesmo tempo em que a xinga de “fascista”. Ora, um reacionário, justamente ao contrário de alguém perdido na verborréia abstrata de “classes” da professora, é aquele que, por experiência, descobriu como as coisas reagem, independentemente de nossas boas intenções. Não é portanto o ideal que os reacionários possuem de diferente da esquerda – é conhecer melhor o real. O socialismo ideal, o capitalismo ideal, talvez até o fascismo ideal são maravilhosos – a encrenca é viver sob o jugo de tais sistemas consubstanciados na realidade, dura e por vezes pontiaguda.
É na realidade que os reacionários vêem as reações que no ideal vivido, sonhado e verbalizado pela esquerda elas são ainda são desconhecidas –.é a reação a uma mentalidade ainda juvenil. Como bem definido pelo filósofo colombiano Nicolás Gómez Dávila, não se parte de idéias reacionárias – chega-se a elas. O reacionário não tira suas conclusões políticas pensando na “classe média”, mas vivendo com o João, a Ana, o Paulinho, a Clara. Essas pessoas que a professora Chaui odeia mortalmente sem indigitá-las formalmente.
Exatamente por desconfiarem de ideais de “reforma” ou “revolução” social que os reacionários foram os inimigos mortais dos dois totalitarismos “revolucionários” e “reformistas” que mais mataram no séc. XX. Eram jurados de extermínio tanto na Internacional Comunista quanto eram lembrados como aqueles inimigos que impediram os nazistas de subirem ao poder no hino do 3.º Reich, a Canção de Horst-Wessel, com uma promessa de vingança pouco velada. Não é sem razão que, enquanto um reacionário como Winston Churchill prometia, diante de uma platéia cristã ao ponto da carolice, se aliar a Satanás contra Hitler, o próprio Hitler se aliava ao socialista Stalin para enfrentar os “reacionários”, enquanto jornais socialistas franceses culpavam a “imperialista Inglaterra” pela Segunda Guerra. Seus próprios hinos já anteviam esse inimigo comum. (e serem o supremo inimigo dos dois maiores totalitarismos da História mundial, que elogio aos reacionários!)
Para Marilena Chaui, que provavelmente desconhece de todo o pensamento “reacionário” (do contrário, não seria uma esquerdista) que julga odiar sob uma saraivada de adjetivos que contradizem uns aos outros, não há nada estranho em afirmar que a “classe média” (o João, a Ana, o Paulinho, a Clara) são fascistas e reacionários ao mesmo tempo. Para sua platéia abduzida, que desconhece conteúdo semântico e fica apenas com o teor apocalíptico de tais termos, é tudo a mesma coisa. Os grandes reacionários se opuseram à concentração do poder em poucas mãos com “grandes intenções”. São pessoas como Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, G. K. Chesterton, Jorge Luís Borges, H. L. Mencken, Jonathan Swift e outras pessoas que nunca feriram ninguém. São seus supremos inimigos a cepa de Pol-Pot, Hitler, Stalin, Mao, Castro e camaradas agremiados.
Entretanto, nem tudo pode ser atribuído à malevolência de um formador de opinião, quando há tanto espaço para a ignorância. Que também importa o fato de alguém justificar uma exposição “filosófica” tão somente com um urro primata de ódio vulcânico? Tais pessoas, que vivem sob o cabresto da ideologia sem substância real, apenas conhecem abstrações. Sua virgindade de conhecimento sobre o que pensam seus adversários permanece hagiográfica, seus conceitos não se sujam no contato com a realidade, permanecendo no puro reino das idéias platônicas. Contraditoriamente, chamam sua fantasia idealizada de “o socialismo real”.
Ao se divorciar da realidade para adentrar sem retorno ao reino das abstrações, generalizações e coletivizações de contornos imprecisos, o ser humano deixa até mesmo de enxergar pessoas. Diante dos seus olhos estão apenas peças de xadrez. Ou melhor, votos.
…e depois como tragédia
O longo discurso de Marilena repetiu pela biliardésima vez que sua platéia pode se acalmar: eles são uma classe, legal e bacana, e seus adversários não são seus semelhantes e pessoas dignas da mais remota consideração, fazendo todos parte de outra classe de seres humanos. Também foi útil para reafirmar que a turba enfurecida pode, afinal, se enfurecer à vontade – sob auspícios do que acredita ser uma profunda racionalidade filosófica.
Ao tratar pessoas como “classes” é mais fácil odiá-las. É por isso que o nazismo e o comunismo puderam existir, é por isso que a violência brasileira, sob uma roupagem retórica de “reparação” ou “causa social” imprecisa, está matando mais do que qualquer guerra. Por uma luta de “classes” ou “raças”. É difícil odiar o Michael Jackson, o Eric Hobsbawm, o João, a Ana, o Paulinho, a Clara: é fácil berrar: “Eu ODEIO a classe média!”, como Saturno devorando os próprios rebentos.
Marilena Chaui fez o que os analistas políticos americanos chamam de dog whistle, ou apito de cachorro: inculcou em seus comparsas as palavras de ódio que são condicionados a repetir servil, mecânica e inconscientemente como ratinhos de laboratório falantes. Apenas a cachorrada de sua “classe” assim o ouve o que deve ser definido como o discurso oficial daquela turma, que a opõe a outra – basta ver como o assunto foi solenemente desprezado pela imprensa, que deveria escarafunchar até a medula cada oportunidade de encontrar um grande furo que os galgue à promoção e reconhecimento profissional.
A partir do momento em que tais palavras abstratas e incertas adentram no vocabulário corrente é praticamente impossível reverter o processo. O melhor meio de condicionar o comportamento da patuléia ignara docilmente´e aproveitar um tema sensível, que pode ser observado na realidade, e, com tal termo, conduzir uma nova postura. É o que se faz com palavras como “homofobia” e “racismo” hoje. Ambas as coisas existem às pencas (basta tentar encontrar algum homossexual ou negro que nunca tenha sofrido discriminação injustificada). Entretanto, são utilizadas para criar uma apreciação sentimental automática e irrefletida com quem defenda as bandeiras contrárias à homofobia e ao racismo, ao mesmo tempo em que libera um poder cada vez mais irrestrito para grupos de pressão selecionados a dedo.
Coteje-se na realidade factual como boa parte das passeatas e manifestações do chamado “movimento gay” (que pouco ou nada tem a ver com os gays que conhecemos, o João, a Ana, o Paulinho, a Clara e esses outros que você desconfia aí) estão muito mais interessadas em escolher “o melhor Jesus gay do ano” ou, como já se fez, chegar ao cúmulo de “obras artísticas” em que alguém retira um rosário com crucifixo do furingo. São não coisas que façam os gays terem qualquer apreço e tolerância em uma sociedade majoritariamente religiosa – bem pelo contrário – e sim meros ataques à religião, usando milhares de pessoas lobotomizadas como massa de manobra. Todavia, como a palavra “homofobia” conseguiu inserir-se no vocabulário corrente, fala-se em homofobia sempre que se critica tais manifestações. Quem, por outra parte, poderia falar em “cristãofobia” ou algum outro termo ainda sequer existente para falar dos ataques completamente gratuitos à religião a olhos vistos?
Vide como a religião é tratada nos jornais (qual jornalista você conhece que defende a religião, se não um ou dois solitaríssimos “reacionários” de nome conhecido e não lidos por seus inimigos?). Todavia, só se fala do menos visto, a tal “homofobia”, e aquilo que é fato dado e observado com fotos (como as manifestações do FEMEN, o discurso da imprensa e dos blogs etc), enquanto não tem nome, “não existe”. No dizer de Nelson Rodrigues, Napoleão havia de ter um destino napoleônico. O nome faz o homem (aprendeu, sr. Wittgenstein?). Sejamos rodriguesanos.
Agora que um ou outro “reacionário” está descobrindo as idéias reacionárias justamente por desencanto com a esquerda (o contrário, obviamente, nunca acontecerá em toda a história: é impossível alguém se esfainar estudando as obras de Voegelin, Mises, Chesterton, Sowell, Ortega ou Kolakowski para chegar à conclusão de que bom mesmo é ser de esquerda – todo esquerdista, portanto, os ignora), o “ódio de classe” apregoado por Marilena precisa de uma certa urgência.
Ou seja, o fato é que os Racionais MC’s são um braço armado do PT com discurso de ódio a ponto de chamar seus adversários sem pouco disfarce para uma agressão física gratuita. Mas, no discurso, fica-se só com os termos já assoviados pelos intelectuais que amestram os ânimos da farândola: racismo, ódio de classe, direita saudosista da ditadura, “violenta”, “preconceituosa”, “terrorista” etc etc. Fora do discurso “oficializado” e debaixo dos olhos de todo mundo, o que se vê é o exato oposto – mas sem que a educação “burguesa” ainda tenha inventado xingamentos iconoclastas para criticar a atitude violenta de Mano Brown. Sem termos concretos para descrever o fato de que um rapper petista pode até ameaçar alguém em público de porrada, as pessoas que se esforçam estudando o abstracionismo de uma Marilena Chaui sequer conseguem enxergar o fato, descrevê-lo e chamá-lo por um nome reconhecível.
Felizmente, ninguém que escapou da gaiola epistemológica da esquerda sai por aí a proferir: “Eu odeio pobres! Pobres são atraso de vida, são a estupidez, a ignorância!”
Curiosamente, quando o ex-presidente Lula subiu ao palco depois da intelectual, conforme mostra discretíssima nota na coluna de Vera Magalhães, ele aliviou o clima:
–Depois de anos que lutei para chegar à classe média, vem essa mulher e esculhamba com a classe média…
De fato, como duvidou o mestre Albert Jay Nock, não é possível ter certeza de que uma pessoa culta pensa mais ou melhor do que uma pessoa inculta.
inventemos os apelidos.
Fonte - http://www.implicante.org/artigos/marilena-chaui-e-o-grito-primordial-eu-odeio-a-classe-media/
PS: OS COMENTÁRIOS OFENSIVOS, SEJA CONTRA QUEM FOR, INCLUSIVE O AUTOR DO TEXTO, SOMENTE SERÃO PUBLICADOS NO CASO DE IDENTIFICAÇÃO DO AUTOR DO COMENTÁRIO.
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