A vida deixa marcas e feridas na roupa e na gente, escondê-las seria esconder nossa maior riqueza
Vinte anos atrás, fui ao casamento de uma amiga em Saratoga Springs, no norte do Estado de Nova York. Era o fim do inverno; a cidade ainda não recebera a turma das águas termais, que chega na primavera, e ainda menos a turma das corridas de cavalos, que acontecem no verão.
Na noite antes da festa, passeando pela rua principal (que, se não me engano, chama-se Broadway), entrei numa loja para fugir do vento. Num canto, estavam os restos dos restos das liquidações de inverno, descontados até não poder mais: as camisas custavam US$ 5 (R$ 10, mais ou menos). Adquiri duas camisas idênticas de sarja pesada, de um cinza escuro, quase preto. Eram as últimas duas no meu tamanho.
Desde então, com o uso, a sarja se tornou mais macia e a cor desbotou um pouco. Por sorte minha e das camisas, isso aconteceu ao longo de uma época que me parecia valorizar, digamos assim, as marcas da experiência. É dessa forma que sempre entendi a moda do brim desbotado, das bainhas desfeitas e desfiadas ou das calças jeans furadas e rasgadas: a vida deixa marcas e feridas na roupa e na gente, escondê-las (por exemplo, atrás de roupas novas) significaria esconder a maior riqueza que acumulamos, a dos percalços de nossa existência -que eles tenham sido bons ou ruins, tanto faz.
Um dia, 8 anos atrás, a manga de uma dessas camisas brigou com a maçaneta de uma porta, e o tecido foi rasgado, na forma de um sete -de cinco centímetros por oito.
Mandei consertar, sem dissimular o remendo. Afinal, o mundo me parecia maduro para isso: tanto eu quanto minha camisa (que se tornou a preferida das duas) podíamos mostrar sem vergonha as marcas dos anos e das batalhas.
Durante muito tempo, carreguei meu remendo na manga como o distintivo de uma honrada patente militar. Ou como uma declaração à la Neruda, feita por mim e por minha camisa: "confesso que eu vivi".
Como disse, minha confiança no espírito dos tempos era um pouco ingênua, e isso foi revelado nos últimos dias, quando, de repente, um menino de dez anos apontou o dedo para a manga de minha camisa e estranhou: "Mas este é um rasgo?".
Pensei que ele estivesse censurando o que talvez lhe aparecesse como desleixo: por que eu não compraria uma camisa nova e pararia de impor ao mundo a triste visão de um remendo? Mas logo percebi que ele estava usando uma calça jeans rasgada com afinco, de modo que era suficiente ele dobrar levemente as pernas para que seus joelhos estivessem ao ar livre.
Agora, a própria existência de calças rasgadas e desbotadas para crianças invalida meu entendimento de que os nossos tempos valorizariam a experiência. Pois, mesmo vivendo intensamente, uma criança não teria tempo para maltratar sua calça a ponto de lhe imprimir um "look" rasgado radical.
Conclusão: para o menino, meu rasgo e meu remendo eram ruins porque eram verdadeiros. Enquanto os rasgos da calça jeans dele eram bons porque eram de mentira. Ou seja, o que ele aprendera a valorizar não era a experiência real (pressuposto de eventuais acidentes com suas calças), mas os rasgos falsos, ou seja, a pura aparência da experiência.
Entendo que adolescentes e pré-adolescentes tentem aparentar "quilometragem". Alguns, aliás, fazem "besteiras" para acumular logo experiências que lhes permitam se comparar aos adultos. Outros (hoje mais numerosos, talvez?) fazem menos besteiras, porque escolhem um atalho (que os pais, em geral, adoram propor): eles descobrem que arriscar-se a viver é mais difícil e mais cansativo do que acumular e exibir as falsas aparências da experiência. Para eles, os rasgos falsos são propriamente melhores do que os verdadeiros. E brincar é sempre melhor do que viver.
Escrevo esta coluna no dia 31. Estou perto de Times Square. Ao longo da tarde, periodicamente, ouço uma "hola" das pessoas que já esperam para o fim do ano. A "hola" corresponde aos momentos em que as redes de televisão ligam as câmeras. Faz frio e ficar 12 ou 14 horas em Times Square é chato. À meia-noite, você dará um abraço e um beijo nos amigos que estão com você, mas isso você poderia ter feito em casa ou numa festa. A razão de estar em Times Square não é sua experiência, é a aparência de alegria que você talvez possa mostrar ao mundo, na televisão.
Para todos, os votos de um 2013 com rasgos e remendos reais, ou seja, de uma vida que não precise ser confundida com um reality show para convencer aos outros (e à gente) de que ela vale a pena.
ccalligari@uol.com.br
@ccalligaris
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/86777-experiencia-para-2013.shtml
-
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Ladrões de cofres e de instituições - REINALDO AZEVEDO
REVISTA VEJA - segunda-feira, dezembro 24, 2012
Antes uma realidade quase intangível, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi parar na sala de estar dos brasileiros em 2012. No ano em que Carminha e Nina, da novela Avenida Brasil, embaralharam as noções corriqueiras de Bem e de Mal, os ministros se tomaram porta-vozes dos anseios de milhões de brasileiros justamente por terem sabido o que era o Bem e o que era o Mal. Cumpre notar que os juizes do STF não acharam o direito nas ruas, no alarido dos bares ou nos debates das redações. Decidiram segundo a Constituição, as leis e a jurisprudência da Corte. Personagens como José Dirceu, José Ge-noino e João Paulo Cunha se dizem vítimas de um tribunal de exceção e conclamam seus eventuais seguidores a julgar os juizes. Queriam ser tratados como sujeitos excepcionais. A questão é mais ampla do que se percebe à primeira vista.
A luta dos homens por igualdade perante a lei produziu tudo o que sabemos de bom e de útil nas sociedades; já o discurso da igualdade ao arrepio da lei só gerou morte e barbárie. Os atores políticos que tornam o mundo mais justo e tolerante anseiam por um horizonte institucional que universalize direitos para que emerjam as particularidades. Nas democracias, porque são iguais, os homens podem, então, ser diferentes. Nas ditaduras, em nome da igualdade, os poderosos esmagam as individualidades. Nas tiranias, porque são diferentes, os homens são, então, obrigados a ser iguais. Uma possibilidade acena para a pluralidade das sociedades liberais, e a outra, para os regimes de força, que encontraram no comunismo e no fascismo sua face mais definida.
O petismo no poder é fruto do regime democrático, sim, mas o poder no petismo é herdeiro intelectual do ódio à democracia e da crença de que um partido conduz e vigia a sociedade, não o contrário. Na legenda, não são poucos os convictos de que certos homens, em razão de sua ideologia, de seus compromissos ou de seus feitos, se situam acima das leis. Eis o substrato das acusações infundadas de que os ministros do STF desprezaram a jurisprudência da Corte para condená-los. Trata-se de uma mentira influente até mesmo entre aqueles que, de boa-fé, saúdam a “mudança” do tribunal.
Doses de ignorância específica e de má-fé se juntaram em pencas de textos sustentando, por exemplo, que, “sem o ato de ofício”, seria impossível punir um corrupto. Fato! O truque estava no que se entendia por isso. Os atos de ofício designam o conjunto de competências e atribuições de uma autoridade, com ou sem documento assinado. O Artigo 317 do Código Penal — uma lei de 1940 — assim define a corrupção passiva: “Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”. Ora, como poderia assinar um documento quem ainda nem tomou posse? O voto de um congressista é um de seus atos de ofício. Se recebeu vantagens indevidas em razão dele, praticou corrupção passiva. Pouco importa se traiu até o corruptor.
A questão é igualmente vital quando se trata da corrupção ativa, um dos crimes pelos quais foi condenado José Dirceu, definida no Artigo 333 do Código Penal pela mesma lei de 1940: “Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício”. Nos dois casos, se o ato for efetivamente praticado, o que se tem é a elevação da pena.
Dirceu e seus sequazes, no entanto, sustentam que inexistem provas e que ele está sendo condenado com base numa interpretação falaciosa da chamada “Teoria do Domínio do Fato”, que busca responsabilizar criminalmente o mandante, aquele que, embora no domínio do fato criminoso, não deixa rastro. É evidente que não pode ser aplicada sem provas. E não foi. Há não uma, mas muitas delas contra Dirceu. Parlamentares disseram em juízo que os acordos com Delúbio Soares tinham de ser referendados pelo então ministro; ficaram evidentes suas relações com os bancos BMG e Rural, como atestam depoimentos da banqueira Kátia Rabello; foi ele um dos articula-dores da reunião, em Lisboa, entre Marcos Valé-rio, um representante do PTB e dirigentes da Portugal Telecom etc. O Artigo 239 do Código de Processo Penal trata das provas indiciárias: “Considera-se indício a circunstância conhecida e proada que, tendo relação com o fato, autorize, por indução, concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias”.
Não é uma inovação para perseguir Dirceu. A lei é de 1941. Em uma de suas intervenções, o então ministro Ayres Britto esclareceu (no fim deste artigo, o endereço com a íntegra de sua intervenção):
“(...) os fatos referidos pelo Procurador-Geral da República (...) se encontram provados em suas linhas gerais. Eles aconteceram por modo entrelaçado com a maior parte dos réus, conforme atestam depoimentos, inquirições, cheques, laudos, vistorias, inspeções, e-mails, mandados de busca e apreensão, entre outros meios de prova. Prova direta, válida e robustamente produzida em Juízo, sob as garantias do contraditório e da ampla defesa. Prova indireta ou indiciária ou circunstancial, colhida em inquéritos policiais e processos administrativos, porém conectadas com as primeiras em sua materialidade e lógica elementar(...)”.
A última falácia dizia respeito à cassação dos mandatos dos deputados condenados com trânsito em julgado. Corria-se o risco, como se escandalizou o ministro Gilmar Mendes, de o Brasil ter um deputado encarcerado. Da combinação dos Artigos 15 e 55 da Constituição com o Artigo 92 do Código Penal, decidiu o STF que parlamentares condenados em última instância por crimes contra a administração pública estão automaticamente cassados. Inovação? Feitiçaria? Juízo excepcional? Não! Apenas a aplicação dos códigos que regem o país.
A gritaria que se seguiu à decisão chega a ser ridícula. Eis a redação do Artigo 92 do Código Penal, que cassa o mandato dos deputados men-saleiros, segundo autoriza a Constituição:
São também efeitos da condenação
I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;
b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos.
É trecho da Lei n° 9268, de 1996, aprovada pela Câmara e pelo Senado. O Congresso, pois, já decidiu que deputados e senadores condenados em processos criminais, com trânsito em julgado, têm seus respectivos mandatos cassados, nas condições discriminadas acima. Para os crimes de pequeno potencial ofensivo, a palavra final é das duas Casas. O STF harmonizou os dispositivos constitucionais e deu eficácia à lei. Julgamento havido em 1995 tratava de caso muito distinto e, como se nota, se deu antes da lei de 1996.
Coube ao decano, Celso de Mello, o voto de desempate, alinhando-se com o relator e agora presidente da Casa, Joaquim Barbosa, que resistiu a todas as patrulhas e intimidações de 2007 a esta data: “Não se revela possível que, em plena vigência do estado democrático de direito, autoridades qualificadas pela alta posição institucional que ostentam na estrutura de poder dessa República possam descumprir pura e simplesmente uma decisão irrecorrível do STF”. O ministro estava dizendo, por outras palavras, que, nas democracias de direito, é a igualdade perante a lei que permite aos homens exercer as suas particularidades; é só nas tiranias que as particularidades de alguns igualam todos os outros na carência de direitos. Uma fala oportuna, no momento em que certos “intelectuais” de esquerda e deslumbrados do miolo mole resolveram defender uma variante dita “progressista” do “rouba, mas faz”, na suposição de que o desvio ético seria um preço a pagar pelo avanço social. É espantoso. É o “rouba porque faz”. Só há um jeito de isso ser considerado aceitável: além dos cofres, eles precisam ser bem-sucedidos em roubar também as instituições.
Em nome do povo — isto é, das leis —, o Supremo lhes disse “não”.
Antes uma realidade quase intangível, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi parar na sala de estar dos brasileiros em 2012. No ano em que Carminha e Nina, da novela Avenida Brasil, embaralharam as noções corriqueiras de Bem e de Mal, os ministros se tomaram porta-vozes dos anseios de milhões de brasileiros justamente por terem sabido o que era o Bem e o que era o Mal. Cumpre notar que os juizes do STF não acharam o direito nas ruas, no alarido dos bares ou nos debates das redações. Decidiram segundo a Constituição, as leis e a jurisprudência da Corte. Personagens como José Dirceu, José Ge-noino e João Paulo Cunha se dizem vítimas de um tribunal de exceção e conclamam seus eventuais seguidores a julgar os juizes. Queriam ser tratados como sujeitos excepcionais. A questão é mais ampla do que se percebe à primeira vista.
A luta dos homens por igualdade perante a lei produziu tudo o que sabemos de bom e de útil nas sociedades; já o discurso da igualdade ao arrepio da lei só gerou morte e barbárie. Os atores políticos que tornam o mundo mais justo e tolerante anseiam por um horizonte institucional que universalize direitos para que emerjam as particularidades. Nas democracias, porque são iguais, os homens podem, então, ser diferentes. Nas ditaduras, em nome da igualdade, os poderosos esmagam as individualidades. Nas tiranias, porque são diferentes, os homens são, então, obrigados a ser iguais. Uma possibilidade acena para a pluralidade das sociedades liberais, e a outra, para os regimes de força, que encontraram no comunismo e no fascismo sua face mais definida.
O petismo no poder é fruto do regime democrático, sim, mas o poder no petismo é herdeiro intelectual do ódio à democracia e da crença de que um partido conduz e vigia a sociedade, não o contrário. Na legenda, não são poucos os convictos de que certos homens, em razão de sua ideologia, de seus compromissos ou de seus feitos, se situam acima das leis. Eis o substrato das acusações infundadas de que os ministros do STF desprezaram a jurisprudência da Corte para condená-los. Trata-se de uma mentira influente até mesmo entre aqueles que, de boa-fé, saúdam a “mudança” do tribunal.
Doses de ignorância específica e de má-fé se juntaram em pencas de textos sustentando, por exemplo, que, “sem o ato de ofício”, seria impossível punir um corrupto. Fato! O truque estava no que se entendia por isso. Os atos de ofício designam o conjunto de competências e atribuições de uma autoridade, com ou sem documento assinado. O Artigo 317 do Código Penal — uma lei de 1940 — assim define a corrupção passiva: “Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”. Ora, como poderia assinar um documento quem ainda nem tomou posse? O voto de um congressista é um de seus atos de ofício. Se recebeu vantagens indevidas em razão dele, praticou corrupção passiva. Pouco importa se traiu até o corruptor.
A questão é igualmente vital quando se trata da corrupção ativa, um dos crimes pelos quais foi condenado José Dirceu, definida no Artigo 333 do Código Penal pela mesma lei de 1940: “Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício”. Nos dois casos, se o ato for efetivamente praticado, o que se tem é a elevação da pena.
Dirceu e seus sequazes, no entanto, sustentam que inexistem provas e que ele está sendo condenado com base numa interpretação falaciosa da chamada “Teoria do Domínio do Fato”, que busca responsabilizar criminalmente o mandante, aquele que, embora no domínio do fato criminoso, não deixa rastro. É evidente que não pode ser aplicada sem provas. E não foi. Há não uma, mas muitas delas contra Dirceu. Parlamentares disseram em juízo que os acordos com Delúbio Soares tinham de ser referendados pelo então ministro; ficaram evidentes suas relações com os bancos BMG e Rural, como atestam depoimentos da banqueira Kátia Rabello; foi ele um dos articula-dores da reunião, em Lisboa, entre Marcos Valé-rio, um representante do PTB e dirigentes da Portugal Telecom etc. O Artigo 239 do Código de Processo Penal trata das provas indiciárias: “Considera-se indício a circunstância conhecida e proada que, tendo relação com o fato, autorize, por indução, concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias”.
Não é uma inovação para perseguir Dirceu. A lei é de 1941. Em uma de suas intervenções, o então ministro Ayres Britto esclareceu (no fim deste artigo, o endereço com a íntegra de sua intervenção):
“(...) os fatos referidos pelo Procurador-Geral da República (...) se encontram provados em suas linhas gerais. Eles aconteceram por modo entrelaçado com a maior parte dos réus, conforme atestam depoimentos, inquirições, cheques, laudos, vistorias, inspeções, e-mails, mandados de busca e apreensão, entre outros meios de prova. Prova direta, válida e robustamente produzida em Juízo, sob as garantias do contraditório e da ampla defesa. Prova indireta ou indiciária ou circunstancial, colhida em inquéritos policiais e processos administrativos, porém conectadas com as primeiras em sua materialidade e lógica elementar(...)”.
A última falácia dizia respeito à cassação dos mandatos dos deputados condenados com trânsito em julgado. Corria-se o risco, como se escandalizou o ministro Gilmar Mendes, de o Brasil ter um deputado encarcerado. Da combinação dos Artigos 15 e 55 da Constituição com o Artigo 92 do Código Penal, decidiu o STF que parlamentares condenados em última instância por crimes contra a administração pública estão automaticamente cassados. Inovação? Feitiçaria? Juízo excepcional? Não! Apenas a aplicação dos códigos que regem o país.
A gritaria que se seguiu à decisão chega a ser ridícula. Eis a redação do Artigo 92 do Código Penal, que cassa o mandato dos deputados men-saleiros, segundo autoriza a Constituição:
São também efeitos da condenação
I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;
b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos.
É trecho da Lei n° 9268, de 1996, aprovada pela Câmara e pelo Senado. O Congresso, pois, já decidiu que deputados e senadores condenados em processos criminais, com trânsito em julgado, têm seus respectivos mandatos cassados, nas condições discriminadas acima. Para os crimes de pequeno potencial ofensivo, a palavra final é das duas Casas. O STF harmonizou os dispositivos constitucionais e deu eficácia à lei. Julgamento havido em 1995 tratava de caso muito distinto e, como se nota, se deu antes da lei de 1996.
Coube ao decano, Celso de Mello, o voto de desempate, alinhando-se com o relator e agora presidente da Casa, Joaquim Barbosa, que resistiu a todas as patrulhas e intimidações de 2007 a esta data: “Não se revela possível que, em plena vigência do estado democrático de direito, autoridades qualificadas pela alta posição institucional que ostentam na estrutura de poder dessa República possam descumprir pura e simplesmente uma decisão irrecorrível do STF”. O ministro estava dizendo, por outras palavras, que, nas democracias de direito, é a igualdade perante a lei que permite aos homens exercer as suas particularidades; é só nas tiranias que as particularidades de alguns igualam todos os outros na carência de direitos. Uma fala oportuna, no momento em que certos “intelectuais” de esquerda e deslumbrados do miolo mole resolveram defender uma variante dita “progressista” do “rouba, mas faz”, na suposição de que o desvio ético seria um preço a pagar pelo avanço social. É espantoso. É o “rouba porque faz”. Só há um jeito de isso ser considerado aceitável: além dos cofres, eles precisam ser bem-sucedidos em roubar também as instituições.
Em nome do povo — isto é, das leis —, o Supremo lhes disse “não”.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Entrevista para o Lente Azul em dezembro de 2012
O texto “IFBA em espera” que duas alunas, das turmas 1842 e 10811 respectivamente, construíram foi publicado no Jornal “LENTE AZUL” Ano VIII, nº 02 de Dezembro/2012.
Parte do texto consta informações colhidas de nossa entrevista dada na tarde do dia 29 de novembro.
O texto, ainda sem finalizar, nos foi enviada por e-mail para tecer alguns comentários, e assim foi feito visando esclarecer o que foi dito por mim, evitando entendimentos equivocados.
Infelizmente o que saiu no citado jornal foi a primeira versão que contem algumas coisas que precisam de esclarecimento, daí a razão desta publicação.
......................................................................
IFBA em espera.
Segundo o Professor José Lamartine, Coordenador de Manutenção do Instituto, metade da demora para a realização das obras deve-se ao fato que os prédios que abrigam os alunos do IFBa foram projetados para outra realidade. Não se pensava no aumento no contingente de alunos, na acessibilidade, no data-show e no ar-condicionado. Logo, o que se tem é uma dificuldade imensa para o início de todo e qualquer projeto de adaptação. Mas, e quando as obras são iniciadas por que se tornam tão difíceis concluí-las? Culpa-se entãoas licitações, pregões, ordens de serviço, empresas incapacitadas e uma burocracia que é, segundo o Professor, um mecanismo de controle, “um mal necessário” como o mesmo prefere dizer e assim cria-se um ciclo vicioso onde as obras começam e não terminam, onde os materiais são comprados e não chegam, onde subestações elétricas são os maiores obstáculos para a tão sonhada ampliação da Biblioteca.
Acontece que, o sistema licitatório se dá também com prioridades. Quais são então as prioridades da Instituição? Ar- condicionado, cafezinho e lanches no “céu” ou as necessidades básicas dos alunos? Em entrevista a um aluno do Instituto, José William, do 3° ano de Automação, o Lente quis saber se ele estivesse em uma fila de espera no IFBa qual serviço ele estaria esperando e automaticamente o estudante respondeu:”Ampliação do Refeitório Estudantil”. Atenuando assim a existência de mais um problema na infraestrutura do colégio, o refeitório. Mas, além disso, ainda se tem laboratórios em reforma, como o de Mecânica, inviabilizando o processo de aprendizagem dos alunos e a própria didática de alguns professores, como a aluna Marcelle Senna, do 1º ano de Mecânica apontou em resposta ao Lente.
Sabe-se que toda obra que se inicia no Instituto demora para ser concluída, sabe-se que todo material comprado demora para ser instalado, mas não caberia então a Direção descobrir um meio para informar aos alunos sobre como são feitos esses processos? O por que de tanta demora? Enquanto essas medidas não são tomadas, cabe aos alunos esperar, afinal aqui tudo está em espera.
T.P. e A.M.
......................................................................
Pronto, voltei...
Após a leitura do mesmo, confrontado com o conteúdo da gravação (disponível abaixo) trocamos os seguintes emails no domingo, dia 16 de dembro de 2012, com uma das autoras:
“Caras alunas
Em primeiro lugar quero agradecer por ter atendido meu pedido, encaminhando-me antecipadamente seu artigo. Mostra uma preocupação em ser justa ao mesmo tempo que demonstra uma grande qualidade que é a humildade. Meus parabéns.
Então vamos ao que interessa... o conteúdo do texto tem algumas coisas que me trouxeram preocupação e, para isso estarei fazendo algumas comentários.
No que se refere as “salas de desenho arquitetônico do curso de Edificações” foi recentemente ocupado com pranchetas para as respectivas aulas.
Quando vocês dizem que é tão difícil concluir estas obras e nós culpamos as “licitações, pregões, ordens de serviço, empresas incapacitadas”, o contexto destas informações não está adequado. Além do mais existe uma categoria que não faz parte do conjunto inicial que é “empresas incapacitadas”. No contexto que fazei estas são barradas da nossa instituição através de mecanismos oficiais, desenvolvidos pelo governo federal. Neste sentido sim, a burocracia é “um mal necessário” que visa proteger a instituição pública e o erário.
Outro possível equívoco é a menção de que “subestações elétricas são os maiores obstáculos para a tão sonhada ampliação da Biblioteca”. Como pode ser esta afirmação uma verdade se considerarmos que o consumo de energia atual do IFBA-Salvador está em torno de 60% da capacidade instalada nas mesmas?
No tema “prioridades” o que vocês querem dizer com “lanches no “céu” ou as necessidades básicas dos alunos”? Que efeito querem provocar nos leitores?
Peço que fiquem muito atentas com a fidelidade do que conversamos uma vez que a integridade e a honestidade intelectual de um autor é seu maior patrimônio.
Mais uma vez obrigado por ter compartilhado.
---
José Lamartine Neto”
......................................................................
A resposta dada, foi:
“Professor, li os comentários e tentarei fazer algumas modificações para tentar "ser fiel ao que conversamos". Mas, o senhor pode me tirar uma dúvida?
Se o senhor mesmo me disse que algumas empresas selecionadas não são a que o Instituto deseja, como seriam essas estão totalmente qualificadas? Se não entendi a mensagem que o senhor quis passar, peço desculpas antecipadamente.
A. M.”
......................................................................
Continuamos os esclarecimentos...
Querida A.,
A seleção de empresas ocorre através de mecanismos muito rigorosos definidos pela Lei 8.666, conhecida como lei das licitações.
A Lei 8.666 abre a possibilidade de privilegiar pequenas empresas (PE) e medias empresas (ME) quando concorrem com as maiores, chamadas de Sociedades Anônimas (SA) ou Limitadas (Ltda.) e, como resultado, em situações de proximidade de preços a vantagem fica com as PE e ME.
As pequenas e médias empresas, segundo o governo federal, devem ser apoiadas por oferecer empregos a muitos brasileiros e se o governo não as defender, o "mercado" não o fará. Só que as grandes empresas têm saúde financeira para ir até o fim e cumprir o cronograma das obras, oferecendo os serviços por um preço maior já que têm uma maior infraestrutura, mais empregados, máquinas, instalações, escritórios, etc. Aí entram em desvantagem pela seleção de menor preço exigido pela lei.
Como somos obrigados a seguir a lei, ficamos impedidos de fazer de forma diferente.
É isso. Qualquer coisa, pergunte.
Abraço
---
José Lamartine Neto
......................................................................
Por fim a aluna A. conclui com...
“Professor,
Vou encaminhar esse e-mail para T. e ver o que ela acha já que escrevemos juntas. Bom, acho que os pontos que o senhor apontou no texto devem ser mesmo revistos, mas dependendo do que vamos mudar teremos que mudar toda a estrutura do texto e infelizmente não temos tempo pra isso, pretendemos que o jornal saia antes do recesso das festas de final de ano, mas farei o possível com T. para mudarmos o que for preciso. Obrigada pela paciência.”
......................................................................
Aí finalizou nossos e-mails.
A seguir tem a lista com alguns pontos da gravação (abaixo) que gostaria de destacar:
01'30" - histórico dos prédios
03'00" - acessibilidade, licitação,
05'11" - Histórico das instalações
07'14" - Instalações elétricas, subestação,
08'10" - Biblioteca
11'28" - bebedouros
12'30" - Quebra de bebedouros
12'55" - Porque é difícil consertar as coisas
13'30" - Instalação de novos bebedouros
14'21" - Compras para governo federal
15'24" - Vestiário feminino
16'22" - Quebra de matérias novos
17'55" - Educação
19'08" - O trabalho e a equipe de manutenção
20'00" - Gestão de manutenção
21'18" - Codificação dos espaços
22'13" - Parceria interna
23'25" - Laboratório vivo
24'35" - Por que as coisas demoram...
26'55" - Por que a burocracia...
Parte do texto consta informações colhidas de nossa entrevista dada na tarde do dia 29 de novembro.
O texto, ainda sem finalizar, nos foi enviada por e-mail para tecer alguns comentários, e assim foi feito visando esclarecer o que foi dito por mim, evitando entendimentos equivocados.
Infelizmente o que saiu no citado jornal foi a primeira versão que contem algumas coisas que precisam de esclarecimento, daí a razão desta publicação.
......................................................................
IFBA em espera.
Laboratório de Mecânica
Com prédios datados de mais de 60 anos, o Instituto Federal da Bahia – Campus Salvador é formado por um conjunto arquitetônico antigo que, infelizmente, não consegue se adequar as necessidades da Comunidade que se apresenta cada vez mais insatisfeita com a estrutura – ou a falta dela – no colégio. Concomitante a isso, as obras iniciadas no instituto não têm tido prazo de término, a exemplo das salas de desenho arquitetônico do curso de Edificações, obra essa que já dura quase um ano, mas que o prazo de entrega era de apenas seis meses.Segundo o Professor José Lamartine, Coordenador de Manutenção do Instituto, metade da demora para a realização das obras deve-se ao fato que os prédios que abrigam os alunos do IFBa foram projetados para outra realidade. Não se pensava no aumento no contingente de alunos, na acessibilidade, no data-show e no ar-condicionado. Logo, o que se tem é uma dificuldade imensa para o início de todo e qualquer projeto de adaptação. Mas, e quando as obras são iniciadas por que se tornam tão difíceis concluí-las? Culpa-se entãoas licitações, pregões, ordens de serviço, empresas incapacitadas e uma burocracia que é, segundo o Professor, um mecanismo de controle, “um mal necessário” como o mesmo prefere dizer e assim cria-se um ciclo vicioso onde as obras começam e não terminam, onde os materiais são comprados e não chegam, onde subestações elétricas são os maiores obstáculos para a tão sonhada ampliação da Biblioteca.
Acontece que, o sistema licitatório se dá também com prioridades. Quais são então as prioridades da Instituição? Ar- condicionado, cafezinho e lanches no “céu” ou as necessidades básicas dos alunos? Em entrevista a um aluno do Instituto, José William, do 3° ano de Automação, o Lente quis saber se ele estivesse em uma fila de espera no IFBa qual serviço ele estaria esperando e automaticamente o estudante respondeu:”Ampliação do Refeitório Estudantil”. Atenuando assim a existência de mais um problema na infraestrutura do colégio, o refeitório. Mas, além disso, ainda se tem laboratórios em reforma, como o de Mecânica, inviabilizando o processo de aprendizagem dos alunos e a própria didática de alguns professores, como a aluna Marcelle Senna, do 1º ano de Mecânica apontou em resposta ao Lente.
Sabe-se que toda obra que se inicia no Instituto demora para ser concluída, sabe-se que todo material comprado demora para ser instalado, mas não caberia então a Direção descobrir um meio para informar aos alunos sobre como são feitos esses processos? O por que de tanta demora? Enquanto essas medidas não são tomadas, cabe aos alunos esperar, afinal aqui tudo está em espera.
T.P. e A.M.
......................................................................
Pronto, voltei...
Após a leitura do mesmo, confrontado com o conteúdo da gravação (disponível abaixo) trocamos os seguintes emails no domingo, dia 16 de dembro de 2012, com uma das autoras:
“Caras alunas
Em primeiro lugar quero agradecer por ter atendido meu pedido, encaminhando-me antecipadamente seu artigo. Mostra uma preocupação em ser justa ao mesmo tempo que demonstra uma grande qualidade que é a humildade. Meus parabéns.
Então vamos ao que interessa... o conteúdo do texto tem algumas coisas que me trouxeram preocupação e, para isso estarei fazendo algumas comentários.
No que se refere as “salas de desenho arquitetônico do curso de Edificações” foi recentemente ocupado com pranchetas para as respectivas aulas.
Quando vocês dizem que é tão difícil concluir estas obras e nós culpamos as “licitações, pregões, ordens de serviço, empresas incapacitadas”, o contexto destas informações não está adequado. Além do mais existe uma categoria que não faz parte do conjunto inicial que é “empresas incapacitadas”. No contexto que fazei estas são barradas da nossa instituição através de mecanismos oficiais, desenvolvidos pelo governo federal. Neste sentido sim, a burocracia é “um mal necessário” que visa proteger a instituição pública e o erário.
Outro possível equívoco é a menção de que “subestações elétricas são os maiores obstáculos para a tão sonhada ampliação da Biblioteca”. Como pode ser esta afirmação uma verdade se considerarmos que o consumo de energia atual do IFBA-Salvador está em torno de 60% da capacidade instalada nas mesmas?
No tema “prioridades” o que vocês querem dizer com “lanches no “céu” ou as necessidades básicas dos alunos”? Que efeito querem provocar nos leitores?
Peço que fiquem muito atentas com a fidelidade do que conversamos uma vez que a integridade e a honestidade intelectual de um autor é seu maior patrimônio.
Mais uma vez obrigado por ter compartilhado.
---
José Lamartine Neto”
......................................................................
A resposta dada, foi:
“Professor, li os comentários e tentarei fazer algumas modificações para tentar "ser fiel ao que conversamos". Mas, o senhor pode me tirar uma dúvida?
Se o senhor mesmo me disse que algumas empresas selecionadas não são a que o Instituto deseja, como seriam essas estão totalmente qualificadas? Se não entendi a mensagem que o senhor quis passar, peço desculpas antecipadamente.
A. M.”
......................................................................
Continuamos os esclarecimentos...
Querida A.,
A seleção de empresas ocorre através de mecanismos muito rigorosos definidos pela Lei 8.666, conhecida como lei das licitações.
A Lei 8.666 abre a possibilidade de privilegiar pequenas empresas (PE) e medias empresas (ME) quando concorrem com as maiores, chamadas de Sociedades Anônimas (SA) ou Limitadas (Ltda.) e, como resultado, em situações de proximidade de preços a vantagem fica com as PE e ME.
As pequenas e médias empresas, segundo o governo federal, devem ser apoiadas por oferecer empregos a muitos brasileiros e se o governo não as defender, o "mercado" não o fará. Só que as grandes empresas têm saúde financeira para ir até o fim e cumprir o cronograma das obras, oferecendo os serviços por um preço maior já que têm uma maior infraestrutura, mais empregados, máquinas, instalações, escritórios, etc. Aí entram em desvantagem pela seleção de menor preço exigido pela lei.
Como somos obrigados a seguir a lei, ficamos impedidos de fazer de forma diferente.
É isso. Qualquer coisa, pergunte.
Abraço
---
José Lamartine Neto
......................................................................
Por fim a aluna A. conclui com...
“Professor,
Vou encaminhar esse e-mail para T. e ver o que ela acha já que escrevemos juntas. Bom, acho que os pontos que o senhor apontou no texto devem ser mesmo revistos, mas dependendo do que vamos mudar teremos que mudar toda a estrutura do texto e infelizmente não temos tempo pra isso, pretendemos que o jornal saia antes do recesso das festas de final de ano, mas farei o possível com T. para mudarmos o que for preciso. Obrigada pela paciência.”
......................................................................
Aí finalizou nossos e-mails.
A seguir tem a lista com alguns pontos da gravação (abaixo) que gostaria de destacar:
01'30" - histórico dos prédios
03'00" - acessibilidade, licitação,
05'11" - Histórico das instalações
07'14" - Instalações elétricas, subestação,
08'10" - Biblioteca
11'28" - bebedouros
12'30" - Quebra de bebedouros
12'55" - Porque é difícil consertar as coisas
13'30" - Instalação de novos bebedouros
14'21" - Compras para governo federal
15'24" - Vestiário feminino
16'22" - Quebra de matérias novos
17'55" - Educação
19'08" - O trabalho e a equipe de manutenção
20'00" - Gestão de manutenção
21'18" - Codificação dos espaços
22'13" - Parceria interna
23'25" - Laboratório vivo
24'35" - Por que as coisas demoram...
26'55" - Por que a burocracia...
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
A adúltera de Deus - Luiz Felipe Pondé
03/12/2012
O Deus de Israel sempre amou as adúlteras. Jesus também dispensou cuidados especiais para com elas, e para com as prostitutas, os ladrões e os desgraçados de todos os tipos. Deus parece não resistir à sinceridade do pecador, assim como a filosofia parece amar a verdade do melancólico.
Na Bíblia hebraica, Raquel, a segunda esposa de Jacó (depois chamado de Israel), por muitos anos uma mulher estéril e idólatra por raiva de Deus, enterrada fora do "cemitério da família" por ter sido uma vergonha para esta mesma família, será escolhida por Deus como consoladora do povo eleito no sofrimento.
Raquel é a "mater misericordiae" do judaísmo. Quando Israel sofre, é o nome dela que deve ser lembrado. Deus ama as infelizes e as elege como suas conselheiras. Qual o segredo da infelicidade?
Não se trata de brincadeiras teológicas "progressistas" que erram achando que ninguém é pecador. A pastoral de hoje, vide as igrejas que crescem por toda parte (o judaísmo não escapa tampouco desse vício), cada vez mais se assemelha a grandes workshops de autoajuda ou treinamentos motivacionais. Nada menos cristão do que um Jesus consultor de sucesso. Ninguém quer ser pecador, só santo.
Mas aí reside o erro para com a teologia cristã mais sofisticada: nela, o grande pecador é o mais próximo do santo. A beleza da antropologia do cristianismo está neste sofisticado e denso vínculo dramatúrgico: quando o corpo se põe de joelhos, pelo peso do pecado, o espírito se ergue. Não se trata de dolorismo, mas, sim, da mais fina psicologia moral.
A santidade reside mais na alma do pecador do que na autoestima do "santinho".
Aliás, devo dizer que minha crítica à religião é diametralmente oposta àquela de tradição epicurista ou marxista. Esta, grosso modo, critica a religião porque ela faz do homem um alienado covarde, e que se vende a Deus para ser um alienado feliz. Eu me alinho mais ao pensamento do teólogo Karl Barth (século 20), para quem a religião torna tudo um mistério maior e traz à tona um sofrimento maior, mas que, por isso mesmo, amplia a consciência de nossa condição humana. Sofro, por isso penso, e logo, existo.
Recuso as religiões institucionais não porque elas fazem do homem um medroso, alienando-o de sua felicidade e autonomia (como creem Epicuro e Marx), mas sim porque as religiões fazem do homem um feliz, alienando-o de sua própria agonia. Quando a religião vira marketing, é melhor caminhar só pelo vale das sombras.
Revi recentemente o maravilhoso "Fim de Caso" (filme de 1999, dirigido por Neil Jordan), com a deusa Julianne Moore e Ralph Fiennes. O filme é uma adaptação do romance de Graham Greene e narra a "sua conversão". Trata-se de um fino tratado de teologia, melhor do que grande parte dos livros que afirmam sê-lo.
No filme, a compreensão da íntima relação entre pecado e graça é avassaladora. Nada mais forte do que a graça para iluminar a agonia do pecador para si mesmo: o santo não é um santinho.
A personagem de Julianne Moore é uma adúltera, que ao longo do filme apresentará traços claros de santidade, chegando a realizar um milagre. A adúltera, infiel ao seu marido, destruidora da fé no casamento e no amor que organiza a vida e a sociedade, o tipo mais vil de mulher, é aquela que mais fundo toca Deus em sua paixão pela agonia humana. No cristianismo, Deus leva a agonia humana tão a sério que resolveu Ele mesmo passar por ela, na figura da Paixão de Cristo.
Um musical a estrear, baseado na obra de Victor Hugo (século 19), "Os Miseráveis", com Hugh Jackman no papel de Jean Valjean, fugitivo da cadeia, e Russell Crowe no papel de seu perseguidor implacável Jabert, traz uma das maiores cenas da teologia cristã já representada na arte. Jean Valjean, após ter roubado os castiçais da casa de um padre, e ser pego pela polícia, é perdoado pelo padre que confirma para a polícia a mentira contada por Valjean: "Sim, eu dei os castiçais para ele".
Este ato transforma Valjean. O encontro entre a misericórdia e o pecador é uma das maiores afirmações do sentido da vida.
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1194952-a-adultera-de-deus.shtml
O Deus de Israel sempre amou as adúlteras. Jesus também dispensou cuidados especiais para com elas, e para com as prostitutas, os ladrões e os desgraçados de todos os tipos. Deus parece não resistir à sinceridade do pecador, assim como a filosofia parece amar a verdade do melancólico.
Na Bíblia hebraica, Raquel, a segunda esposa de Jacó (depois chamado de Israel), por muitos anos uma mulher estéril e idólatra por raiva de Deus, enterrada fora do "cemitério da família" por ter sido uma vergonha para esta mesma família, será escolhida por Deus como consoladora do povo eleito no sofrimento.
Raquel é a "mater misericordiae" do judaísmo. Quando Israel sofre, é o nome dela que deve ser lembrado. Deus ama as infelizes e as elege como suas conselheiras. Qual o segredo da infelicidade?
Não se trata de brincadeiras teológicas "progressistas" que erram achando que ninguém é pecador. A pastoral de hoje, vide as igrejas que crescem por toda parte (o judaísmo não escapa tampouco desse vício), cada vez mais se assemelha a grandes workshops de autoajuda ou treinamentos motivacionais. Nada menos cristão do que um Jesus consultor de sucesso. Ninguém quer ser pecador, só santo.
Mas aí reside o erro para com a teologia cristã mais sofisticada: nela, o grande pecador é o mais próximo do santo. A beleza da antropologia do cristianismo está neste sofisticado e denso vínculo dramatúrgico: quando o corpo se põe de joelhos, pelo peso do pecado, o espírito se ergue. Não se trata de dolorismo, mas, sim, da mais fina psicologia moral.
A santidade reside mais na alma do pecador do que na autoestima do "santinho".
Aliás, devo dizer que minha crítica à religião é diametralmente oposta àquela de tradição epicurista ou marxista. Esta, grosso modo, critica a religião porque ela faz do homem um alienado covarde, e que se vende a Deus para ser um alienado feliz. Eu me alinho mais ao pensamento do teólogo Karl Barth (século 20), para quem a religião torna tudo um mistério maior e traz à tona um sofrimento maior, mas que, por isso mesmo, amplia a consciência de nossa condição humana. Sofro, por isso penso, e logo, existo.
Recuso as religiões institucionais não porque elas fazem do homem um medroso, alienando-o de sua felicidade e autonomia (como creem Epicuro e Marx), mas sim porque as religiões fazem do homem um feliz, alienando-o de sua própria agonia. Quando a religião vira marketing, é melhor caminhar só pelo vale das sombras.
Revi recentemente o maravilhoso "Fim de Caso" (filme de 1999, dirigido por Neil Jordan), com a deusa Julianne Moore e Ralph Fiennes. O filme é uma adaptação do romance de Graham Greene e narra a "sua conversão". Trata-se de um fino tratado de teologia, melhor do que grande parte dos livros que afirmam sê-lo.
No filme, a compreensão da íntima relação entre pecado e graça é avassaladora. Nada mais forte do que a graça para iluminar a agonia do pecador para si mesmo: o santo não é um santinho.
A personagem de Julianne Moore é uma adúltera, que ao longo do filme apresentará traços claros de santidade, chegando a realizar um milagre. A adúltera, infiel ao seu marido, destruidora da fé no casamento e no amor que organiza a vida e a sociedade, o tipo mais vil de mulher, é aquela que mais fundo toca Deus em sua paixão pela agonia humana. No cristianismo, Deus leva a agonia humana tão a sério que resolveu Ele mesmo passar por ela, na figura da Paixão de Cristo.
Um musical a estrear, baseado na obra de Victor Hugo (século 19), "Os Miseráveis", com Hugh Jackman no papel de Jean Valjean, fugitivo da cadeia, e Russell Crowe no papel de seu perseguidor implacável Jabert, traz uma das maiores cenas da teologia cristã já representada na arte. Jean Valjean, após ter roubado os castiçais da casa de um padre, e ser pego pela polícia, é perdoado pelo padre que confirma para a polícia a mentira contada por Valjean: "Sim, eu dei os castiçais para ele".
Este ato transforma Valjean. O encontro entre a misericórdia e o pecador é uma das maiores afirmações do sentido da vida.
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciênciahttp://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1194952-a-adultera-de-deus.shtml
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos
[Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos: Escravidão Branca no Mediterrâneo, Costa Bárbara e Itália, 1500-1800 - Robert C. Davis]
Novo livro reabre o antigo
debate acerca de incursões escravistas sobre a Europa
Professor dos EUA afirma que
mais de 1 milhão de pessoas foram capturadas por piratas africanos
Rory Carroll, Africa
correspondent
Thursday March 11, 2004
The Guardian
Piratas do Norte da África capturaram e escravizaram mais de 1 milhão de europeus entre 1530 e 1780 numa série de incursões que despovoaram as cidades costeiras da Sicília a Cornwall, de acordo com a nova pesquisa.
Thursday March 11, 2004
The Guardian
Piratas do Norte da África capturaram e escravizaram mais de 1 milhão de europeus entre 1530 e 1780 numa série de incursões que despovoaram as cidades costeiras da Sicília a Cornwall, de acordo com a nova pesquisa.
Milhares de cristãos brancos eram
apreendidos todos os anos para trabalhar em galés, como operários e concubinas
para chefes muçulmanos no que são hoje o Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia,
afirma.
Estudiosos há muito sabem sobre
incursões escravistas sobre a Europa. Mas o historiador estadunidense Robert
Davis calculou que o número total capturado - embora pequena, em comparação com
os 12 milhões de africanos enviados para as Américas nos últimos anos - foi
muito maior do que anteriormente se admitia.
Seu novo livro, Christian Slaves,
Muslim Masters: White Slavery in the Mediterranean, the Barbary Coast, and
Italy, 1500-1800 [Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos: Escravidão Branca no
Mediterrâneo, Costa Bárbara e Itália, 1500-1800], conclui que 1 milhão a 1,25
milhão acabaram na escravidão.
A metodologia não ortodoxa do
professor Davis divide historiadores sobre se suas estimativas eram plausíveis,
mas eles dão boas vindas a qualquer tentativa de preencher uma lacuna na pouco
conhecida história de africanos subjugando europeus.
Ao reunir diferentes fontes de
informação da Europa ao longo de três séculos, o professor da Universidade de
Ohio pintou um retrato de um continente à mercê dos piratas da Costa Bárbara,
conhecidos como corsários.
Vilas e cidades na costa da Itália, Espanha, Portugal e França foram as mais atingidas, mas as incursões também capturaram pessoas na Grã - Bretanha, Irlanda e Islândia. De acordo com um relato eles chegaram a capturar 130 marujos estadunidenses de navios em que eles trabalhavam no Atlântico e no Mediterrâneo entre 1785 e 1793.
Na ausência de registros escritos, como detalhados formulários aduaneiros, o professor Davis decidiu calcular a partir dos melhores registros disponíveis indicando quantos escravos eram de um determinado local em uma única vez e calculando quantos novos escravos eram necessários para substituir aqueles que morreram, escaparam ou foram libertados.
Para manter a população escrava
estável, cerca de um quarto tinha que ser substituída a cada ano, o que para o
período de 1580 a 1680 significou cerca de 8.500 novos escravos por ano, num
total de 850.000.
A mesma metodologia sugere 475.000 foram seqüestrados nos séculos anteriores e seguintes.
"Muito do que foi escrito dá a impressão de que não havia muitos escravos e minimiza o impacto que a escravatura teve sobre a Europa", afirmou o professor Davis numa declaração esta semana.
"A maior parte das contas apenas olha a escravatura em um só lugar, ou apenas durante um curto período de tempo. Mas quando você tem uma visão mais ampla e mais prolongada, o enorme alcance desta escravidão e do seu poderoso impacto tornam-se claros".
A mesma metodologia sugere 475.000 foram seqüestrados nos séculos anteriores e seguintes.
"Muito do que foi escrito dá a impressão de que não havia muitos escravos e minimiza o impacto que a escravatura teve sobre a Europa", afirmou o professor Davis numa declaração esta semana.
"A maior parte das contas apenas olha a escravatura em um só lugar, ou apenas durante um curto período de tempo. Mas quando você tem uma visão mais ampla e mais prolongada, o enorme alcance desta escravidão e do seu poderoso impacto tornam-se claros".
O professor Davis admitiu que sua
metodologia não era ideal, mas Ian Blanchard, professor de história econômica na
Universidade de Edimburgo e uma autoridade sobre o comércio na África, afirmou
ontem que os números pareceram encaixar-se.
"Estamos a falar de estatísticas que não são reais, todos os números são estimativas. Mas não achamos em absoluto que o valor de 1 milhão seja de todo surpreendente. Ele tem sentido".
"Estamos a falar de estatísticas que não são reais, todos os números são estimativas. Mas não achamos em absoluto que o valor de 1 milhão seja de todo surpreendente. Ele tem sentido".
A chegada de ouro das Américas e o transporte de escravos da África Ocidental espremeu o tradicional negócio das frotas mercantis bárbaras que estavam transportando ouro e escravos do sul para norte da África, de modo que eles voltaram o seu olhar para a Europa, disse o professor Blanchard.
Escravidão
Contudo David Earle, autor de The
Corsairs of Malta and Barbary e The Pirate Wars, disse que o professor Davis
pode ter errado ao calcular a partir de 1580-1680, porque esse foi o período de
escravização mais intenso: "Seus valores parecem um bocado inseguros e penso que
ele pode estar exagerando".
Dr. Earle também advertiu que a
imagem era escurecida pelo fato de corsários também terem apreendido brancos
não-cristãos da Europa Oriental e pretos da África Ocidental. "Eu não arriscaria
um palpite sobre o total".
De acordo com uma estimativa, 7.000 ingleses foram raptados entre 1622-1644, muitos deles tripulantes e passageiros de navios. Mas os corsários também desembarcaram em praias, muitas vezes durante a noite, para capturar os incautos.
De acordo com uma estimativa, 7.000 ingleses foram raptados entre 1622-1644, muitos deles tripulantes e passageiros de navios. Mas os corsários também desembarcaram em praias, muitas vezes durante a noite, para capturar os incautos.
Quase todos os habitantes da cidade
de Baltimore, na Irlanda, foram capturados em 1631, e houve outras incursões em
Devon e Cornwall.
O reverendo Devereux Spratt
registrou ter sido capturado por "argelinos" quando estava cruzando o mar da
Irlanda de Cork para a Inglaterra, em abril de 1641, e, em 1661, Samuel Pepys
escreveu sobre dois homens, capitão Mootham e o senhor Dawes, que foram também
capturados.
Ano passado foi anunciado que um
dos mais ricos tesouros encontrados fora da costa de Devon era uma embarcação
bárbara do século XVI que estava indo capturar escravos ingleses.
Embora os africanos pretos
escravizados e enviados à América do Norte e do Sul durante quatro séculos
passem em número as estimativas do professor Davis sobre europeus levados para a
África na proporção de 12 para 1, é provável que eles sofreram as mesmas
condições sinistras.
"Uma das coisas que, tanto o
público como muitos estudiosos têm tendência a tomar como um dado adquirido é
que a escravatura foi sempre racial por natureza - que só pretos foram feitos
escravos. Mas isso não é verdade", disse o autor.
Nos comentários que podem gerar controvérsia, ele disse que a escravidão branca tinha sido minimizada ou ignorada porque os acadêmicos preferem tratar os europeus como malignos colonialistas do que como vítimas.
Nos comentários que podem gerar controvérsia, ele disse que a escravidão branca tinha sido minimizada ou ignorada porque os acadêmicos preferem tratar os europeus como malignos colonialistas do que como vítimas.
Enquanto os escravos africanos
trabalhavam em plantações de algodão, os escravos europeus eram forçados a
trabalhar em pedreiras, construções e em galés, sofrendo desnutrição, doenças e
maus tratos.
Governantes paxás, com o direito a
um oitavo de todos os cristãos capturados, alojavam-nos em banheiros
superlotadas conhecido como baños e os utilizavam em obras públicas, como a
construção de portos e corte de árvores. Eram dados a eles fatias de pão e
água.
As mulheres cativas dos paxás eram
mais susceptíveis de serem consideradas como prisioneiras a serem trocadas por
reféns, mas muitas trabalhavam como assistentes no harém do palácio enquanto
aguardavam por pagamento e liberdade, o que em alguns casos nunca chegaram.
Alguns escravos comprados por particulares eram bem tratados e tornaram-se
acompanhantes, outros eram espancados e realizavam trabalhos
excessivos.
“Os menos sortudos terminavam
empalados ou largados no deserto, em cidades pouco movimentadas como Suez, ou
nas galerias do sultão turco, onde alguns escravos vagavam por décadas sem
sequer por os pés na praia”, diz o professor Davis cujo livro é lançado pela
editora Palgrave Macmillan, dos EUA.
---------------------------------------
Fonte: http://books.guardian.co.uk/news/articl es/0,6109,1166849,00.html
Fonte: http://books.guardian.co.uk/news/articl
Freud é apenas uma lenda - Mikkel Borch-Jacobsen
Mikkel Borch-Jacobsen
"Freud é apenas uma lenda"Filósofo e historiador, o professor da Universidade de Washington diz por que considera o pai da psicanálise uma fraude
por Natália Martino

OMISSÃO
"Muitos pacientes de Freud cometeram suicídio e
ele nunca disse uma palavra sobre isso", afirma o professor
O filósofo e historiador Mikkel Borch-Jacobsen não se esquiva de uma polêmica. A última década da sua carreira, dedicada aos estudos sobre a história da psicanálise e da psiquiatria, foi pródiga em livros e opiniões controversas que lhe renderam inimigos entre terapeutas do mundo inteiro. Começou a receber as primeiras críticas severas em 1996 com o lançamento do livro “Anna O. – Uma Mistificação Centenária”, no qual questionava as avaliações de Freud sobre uma das suas principais pacientes. Foi também um dos autores do “Livro Negro da Psicanálise”, uma das obras mais barulhentas já lançadas sobre o assunto. Agora, escreveu “Os Pacientes de Freud”, lançado recentemente no Brasil (Editora Texto e Grafia), no qual reconstrói a trajetória de 31 pacientes de Freud. Na obra, ele conta os motivos que os levaram até o analista e, principalmente, como viveram durante e depois do tratamento. A partir de documentos, como cartas trocadas entre o terapeuta e seus amigos e entrevistas confidenciais feitas com os pacientes de Freud, o autor desconstrói o mito do criador da psicanálise.

"Os medicamentos foram excluídos das histórias que o psicanalista
contou, mas muitos pacientes eram viciados em morfina"

"Como Anna iria se curar se seu analista era o próprio pai do qual
ela deveria se desligar? Parece óbvio, mas ele não percebeu isso"
Istoé - O que os relatos que o sr. apresenta em seu livro revelam sobre Freud e a psicanálise?
Mikkel Borch-Jacobsen - As histórias dos pacientes de Freud foram a base das suas teorias. Quando percebemos que elas são falsas, como vemos ao analisar a vida dos pacientes que descrevo no livro, toda a teoria da psicanálise é abalada. O caso apresentado por Freud como sendo de Anna O., que hoje sabemos tratar-se de Bertha Pappenheim, por exemplo, é considerado um dos mais fundamentais para o desenvolvimento da psicanálise. A paciente tinha sintomas graves de histeria que, supostamente, Freud curou com o método catártico. Mas isso não é verdade. No fim do tratamento, ela já não suportava mais conviver com o problema e foi internada em uma clínica, onde continuou apresentando o mesmo quadro de histeria. Apenas seis ou oito anos depois, Bertha foi considerada curada. Não se sabe como ela se curou, mas é óbvio que não foi com a psicanálise, ninguém se cura por meio de um tratamento finalizado quase uma década antes.
Istoé - Os resultados terapêuticos eram insuficientes?
Mikkel Borch-Jacobsen - Na maioria dos casos sim. Era comum que as condições dos pacientes piorassem, como no caso de Viktor von Dirsztay, que mais tarde chegou a admitir que a análise o destruiu. Muitos outros dos seus pacientes cometeram suicídio, como Margit Kremzir e Pauline Silberstein. Claro que qualquer terapeuta está sujeito ao risco de suicídio dos seus pacientes, mas a questão é que Freud nunca disse uma palavra sobre isso.
Mikkel Borch-Jacobsen - Na maioria dos casos sim. Era comum que as condições dos pacientes piorassem, como no caso de Viktor von Dirsztay, que mais tarde chegou a admitir que a análise o destruiu. Muitos outros dos seus pacientes cometeram suicídio, como Margit Kremzir e Pauline Silberstein. Claro que qualquer terapeuta está sujeito ao risco de suicídio dos seus pacientes, mas a questão é que Freud nunca disse uma palavra sobre isso.
Istoé - Ele escondia esses fatos?
Mikkel Borch-Jacobsen - Como um bom positivista, Freud sempre afirmou que suas teorias eram baseadas na observação de dados clínicos. Por um longo período, porém, tudo o que sabíamos sobre esses dados se baseava no que ele escolheu nos mostrar. Ao compararmos essas histórias com a realidade, observamos discrepâncias que automaticamente invalidam as conclusões de Freud. Os medicamentos, por exemplo, foram sistematicamente excluídos das histórias que ele contou, mas muitos dos seus pacientes eram viciados em morfina. Hoje é muito claro que a droga teve em alguns casos um papel essencial no tratamento. Freud dizia, por exemplo, que diante dos ataques histéricos de Anna von Lieben, a Cäcilie M. citada em “Estudos sobre a Histeria”, ele conduzia um tratamento hipnótico que a fazia se sentir melhor. O que ele não nos contava é que as crises dela eram causadas por abstinência de drogas e que ela se acalmava quando ele lhe dava uma injeção de morfina. A famosa cura catártica nada mais era do que cura com morfina.
Mikkel Borch-Jacobsen - Como um bom positivista, Freud sempre afirmou que suas teorias eram baseadas na observação de dados clínicos. Por um longo período, porém, tudo o que sabíamos sobre esses dados se baseava no que ele escolheu nos mostrar. Ao compararmos essas histórias com a realidade, observamos discrepâncias que automaticamente invalidam as conclusões de Freud. Os medicamentos, por exemplo, foram sistematicamente excluídos das histórias que ele contou, mas muitos dos seus pacientes eram viciados em morfina. Hoje é muito claro que a droga teve em alguns casos um papel essencial no tratamento. Freud dizia, por exemplo, que diante dos ataques histéricos de Anna von Lieben, a Cäcilie M. citada em “Estudos sobre a Histeria”, ele conduzia um tratamento hipnótico que a fazia se sentir melhor. O que ele não nos contava é que as crises dela eram causadas por abstinência de drogas e que ela se acalmava quando ele lhe dava uma injeção de morfina. A famosa cura catártica nada mais era do que cura com morfina.
Istoé - Os diagnósticos dele são questionáveis?
Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, os diagnósticos que Freud alegava fazer tão cuidadosamente escancaram discrepâncias entre sua prática real e suas descrições. Quando o pai da jovem Ida Bauer, que Freud eternizou como Dora, a levou até Freud devido a um episódio de asma, o analista instantaneamente diagnosticou neurose. Mas como ele poderia saber? Aquela era a primeira vez que ele a via. Há vários exemplos desse tipo e uma vez que definia seu diagnóstico, Freud o mantinha obstinadamente, mesmo que os fatos mostrassem a ele outro caminho. As consequências dessa postura frequentemente eram bem sérias, como quando Freud forçou Horace Frink a se divorciar da esposa para se casar com a milionára Angelika Bijur para combater a homossexualidade que o paciente negava vigorosamente.
Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, os diagnósticos que Freud alegava fazer tão cuidadosamente escancaram discrepâncias entre sua prática real e suas descrições. Quando o pai da jovem Ida Bauer, que Freud eternizou como Dora, a levou até Freud devido a um episódio de asma, o analista instantaneamente diagnosticou neurose. Mas como ele poderia saber? Aquela era a primeira vez que ele a via. Há vários exemplos desse tipo e uma vez que definia seu diagnóstico, Freud o mantinha obstinadamente, mesmo que os fatos mostrassem a ele outro caminho. As consequências dessa postura frequentemente eram bem sérias, como quando Freud forçou Horace Frink a se divorciar da esposa para se casar com a milionára Angelika Bijur para combater a homossexualidade que o paciente negava vigorosamente.
Istoé - Freud chegava a dar conselhos tão diretos aos pacientes?
Mikkel Borch-Jacobsen - Ele intervia diretamente na vida dos seus pacientes e não hesitou em instigar alguns a se casarem e terem filhos, por exemplo. Foi o que aconteceu com Max Graf e Olga Hönig, os pais do “pequeno Hans” – e o casamento foi um completo desastre. Em outros casos, Freud proibia pacientes de se masturbarem, como no caso da sua filha, Anna Freud. Sempre que essas instruções eram dadas, Freud era a voz da autoridade.
Mikkel Borch-Jacobsen - Ele intervia diretamente na vida dos seus pacientes e não hesitou em instigar alguns a se casarem e terem filhos, por exemplo. Foi o que aconteceu com Max Graf e Olga Hönig, os pais do “pequeno Hans” – e o casamento foi um completo desastre. Em outros casos, Freud proibia pacientes de se masturbarem, como no caso da sua filha, Anna Freud. Sempre que essas instruções eram dadas, Freud era a voz da autoridade.
Istoé - Ele acreditava que podia tratar a filha?
Mikkel Borch-Jacobsen - Freud queria muito ajudar a filha a se desligar dele e isso fica claro em várias cartas que ele escreveu a amigos. Mas a única coisa que ele podia oferecer a ela era a psicanálise, o que, obviamente, era a coisa mais estúpida que ele poderia fazer. Como ela conseguiria se curar se sua única ajuda era de um analista que era o próprio pai do qual ela deveria se desligar? Por mais óbvio que pareça, Freud não percebeu isso. Não estou dizendo que ele abusou da filha, de jeito nenhum, ele a amava. Mas estava tão convencido de que sabia como ajudá-la que não permitiu que ela se libertasse dele.
Istoé - Para Freud, a psicanálise sempre funcionava?
Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, claro, ele acreditava que havia descoberto a cura para as doenças mentais. Freud tinha suposições teóricas que o impediam de ver o que estava acontecendo. Ele estava tão convencido de que a terapia funcionava que, quando ela não dava certo, ele simplesmente achava que era necessário ir mais fundo no inconsciente. Só no fim da sua vida, em seus últimos artigos, ele admitiu que os métodos eram inconclusivos em alguns casos.
Istoé - Mas em algum momento ele foi deliberadamente negligente ou desumano com seus pacientes?
Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, a forma como ele sacrificava seus pacientes no altar das suas teorias é vergonhosa. Marie von Ferstel, por exemplo. Ela era uma mulher rica que sofria de fobias e de constipação. Freud disse a ela que, para resolver esses problemas, ela teria que aprender a se desapegar, por exemplo, do dinheiro. O que ela fez? Transferiu para ele o título de uma das suas propriedades, que ele prontamente vendeu. Eu acho isso imperdoável. Freud simplesmente não era uma pessoa admirável.
Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, a forma como ele sacrificava seus pacientes no altar das suas teorias é vergonhosa. Marie von Ferstel, por exemplo. Ela era uma mulher rica que sofria de fobias e de constipação. Freud disse a ela que, para resolver esses problemas, ela teria que aprender a se desapegar, por exemplo, do dinheiro. O que ela fez? Transferiu para ele o título de uma das suas propriedades, que ele prontamente vendeu. Eu acho isso imperdoável. Freud simplesmente não era uma pessoa admirável.
Istoé - De que forma essas revelações atingem a psicanálise hoje?
Mikkel Borch-Jacobsen - Não vejo como salvar a psicanálise diante de tudo isso. Eu sei que muitas pessoas admiram Freud como um pensador independentemente das vicissitudes de sua prática. Também acho que ele era um gênio, tinha ideias realmente incríveis. Mas as suas teorias são contraditórias demais às suas práticas para serem levadas a sério.
Mikkel Borch-Jacobsen - Não vejo como salvar a psicanálise diante de tudo isso. Eu sei que muitas pessoas admiram Freud como um pensador independentemente das vicissitudes de sua prática. Também acho que ele era um gênio, tinha ideias realmente incríveis. Mas as suas teorias são contraditórias demais às suas práticas para serem levadas a sério.
Istoé - O sr. aponta essas contradições em 31 casos e Freud atendeu pelo menos cinco vezes mais pacientes. Não poderia ser coincidência?
Mikkel Borch-Jacobsen - Uma das minhas principais fontes de pesquisa foram as entrevistas com pacientes de Freud conduzidas por Kurt Eissler, que era secretário do Arquivos de Freud. Esse material ficou inacessível até 1999, quando Eissler morreu e, a partir daí, começou a ser colocado em domínio público, processo que só deve acabar em 2057. Eissler tinha enorme interesse em defender a memória do pai da psicanálise e se essas entrevistas fossem positivas não teriam sido tornadas confidenciais. Muita coisa ainda será revelada, possivelmente conseguiremos rastrear outros pacientes, mas não acho que as novas histórias irão contradizer as estatísticas que já temos.
Mikkel Borch-Jacobsen - Uma das minhas principais fontes de pesquisa foram as entrevistas com pacientes de Freud conduzidas por Kurt Eissler, que era secretário do Arquivos de Freud. Esse material ficou inacessível até 1999, quando Eissler morreu e, a partir daí, começou a ser colocado em domínio público, processo que só deve acabar em 2057. Eissler tinha enorme interesse em defender a memória do pai da psicanálise e se essas entrevistas fossem positivas não teriam sido tornadas confidenciais. Muita coisa ainda será revelada, possivelmente conseguiremos rastrear outros pacientes, mas não acho que as novas histórias irão contradizer as estatísticas que já temos.
Istoé - Muitas pessoas afirmam hoje ter encontrado conforto na psicanálise. Não há nenhum valor nisso?
Mikkel Borch-Jacobsen - No meu ponto de vista, neuroses, como histeria e obsessão, não são doenças mentais, são pedidos de socorro. A análise cumpre, nesses casos, o papel que a religião cumpria antes. As pessoas iam até o padre para buscar respostas e as encontravam. Qualquer uma das centenas de tipos de psicoterapias que existem hoje pode cumprir esse papel. Reconheço que, em alguns casos, pessoas com problemas pessoais podem encontrar conforto no divã.
Istoé - Mas seus livros parecem tentar destruir a psicanálise.
Mikkel Borch-Jacobsen - Eu sou um acadêmico e meu único interesse é separar as verdades das lendas. Freud é apenas uma lenda. Ele reescreveu a história de acordo com seus propósitos pessoais.
Mikkel Borch-Jacobsen - Eu sou um acadêmico e meu único interesse é separar as verdades das lendas. Freud é apenas uma lenda. Ele reescreveu a história de acordo com seus propósitos pessoais.
Istoé - Essa sua postura crítica em relação à psicanálise acompanhou toda a sua carreira?
Mikkel Borch-Jacobsen - Não, no início eu era simpático à psicanálise e tinha interesse especial na escola Lacaniana.
Mikkel Borch-Jacobsen - Não, no início eu era simpático à psicanálise e tinha interesse especial na escola Lacaniana.
Istoé - E o que essa mudança significou profissionalmente?
Mikkel Borch-Jacobsen - Eu era constantemente convidado para conferências e para escrever artigos em revistas até que eu publiquei meu primeiro livro mais crítico sobre Freud. A partir desse momento, não fui mais convidado para nada. Não se pode ser crítico à psicanálise sem sofrer as consequências disso.
Istoé - O sr. também estudou a psiquiatria. Acredita que esse é um caminho mais válido para tratar doenças mentais?
Mikkel Borch-Jacobsen - A psiquiatria não é uma teoria única, mas, de forma geral, fez enormes progressos, como se vê, por exemplo, nos diagnósticos de esquizofrenia, depressão e outras doenças. Do ponto de vista da cura, porém, ela não avançou. Temos várias drogas hoje que nos permitem controlar certos sintomas das doenças mentais, mas ainda não há cura para elas e nem mesmo se conhece suas causas. A psiquiatria tenta encontrar soluções, mas ainda não foi bem-sucedida.
Mikkel Borch-Jacobsen - A psiquiatria não é uma teoria única, mas, de forma geral, fez enormes progressos, como se vê, por exemplo, nos diagnósticos de esquizofrenia, depressão e outras doenças. Do ponto de vista da cura, porém, ela não avançou. Temos várias drogas hoje que nos permitem controlar certos sintomas das doenças mentais, mas ainda não há cura para elas e nem mesmo se conhece suas causas. A psiquiatria tenta encontrar soluções, mas ainda não foi bem-sucedida.
Istoé - Qual é o próximo mito que o sr. pretende desbancar?
Mikkel Borch-Jacobsen - Agora estou estudando a indústria farmacêutica. Sou muito crítico com as drogas psiquiátricas e, por isso, estou pesquisando esse universo do ponto de vista histórico.
fonte - http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/248696_FREUD+E+APENAS+UMA+LENDA+
Mikkel Borch-Jacobsen - Agora estou estudando a indústria farmacêutica. Sou muito crítico com as drogas psiquiátricas e, por isso, estou pesquisando esse universo do ponto de vista histórico.
fonte - http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/248696_FREUD+E+APENAS+UMA+LENDA+
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Guarani Kaiowá de boutique - Luiz Felipe Pondé
19/11/2012
As redes sociais são um dos maiores frutos da civilização ocidental. Não se "extrai" Macintosh dos povos da floresta; ao contrário, os povos da floresta querem desconto estatal para comprar Macintosh. E quem paga esses descontos somos nós.
Pintar-se como índios e postar no Face devia ser incluído no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Desejo tudo de bom para nossos compatriotas indígenas. Não acho que devemos nada a eles. A humanidade sempre operou por contágio, contaminação e assimilação entre as culturas. Apenas hoje em dia equivocados de todos os tipos afirmam o contrário como modo de afetação ética.
Desejo que eles arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo.
Recentemente, numa conversa profissional, surgiu a questão do porquê o mundo hoje tenderia à banalidade e ao ridículo. A resposta me parece simples: porque a banalidade e o ridículo foram dados a nós seres humanos em grandes quantidades e, por isso, quando muitos de nós se juntam, a banalidade e o ridículo se impõem como paisagem da alma. O ridículo é uma das caras da democracia.
O poeta russo Joseph Brodsky no seu ensaio "Discurso Inaugural", parte da coletânea "Menos que Um" (Cia. das Letras; esgotado), diz que os maus sentimentos são os mais comuns na humanidade; por isso, quando a humanidade se reúne em bandos, a tendência é a de que os maus sentimentos nos sufoquem. Eu digo a mesma coisa da banalidade e do ridículo. A mediocridade só anda em bando.
Este fenômeno dos "índios de Perdizes" é um atestado dessa banalidade, desse ridículo e dessa mediocridade.
Por isso, apesar de as redes sociais servirem para muita coisa, entre elas coisas boas, na maior parte do tempo elas são o espelho social do ridículo na sua forma mais obscena.
O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu "sobrenome" no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?
Filosoficamente, a causa é descendente dos delírios do Rousseau e seu bom selvagem. O Rousseau e o Marx atrasaram a humanidade em mil anos. Mas, a favor do filósofo da vaidade, Rousseau, o homem que amava a humanidade, mas detestava seus semelhantes (inclusive mulher e filhos que abandonou para se preocupar em salvar o mundo enquanto vivia às custas das marquesas), há o fato de que ele nunca disse que os aborígenes seriam esse bom selvagem. O bom selvagem dele era um "conceito"? Um "mito", sua releitura de Adão e Eva.
Essas pessoas que andam colocando nomes de tribos indígenas no seu "sobrenome" no Face acham que índios são lindos e vítimas sociais. Eles querem se sentir do lado do bem. Melhor se fossem a uma liquidação de algum shopping center brega qualquer comprar alguma máquina para emagrecer, e assim, ocupar o tempo livre que têm.
Elas não entendem que índios são gente como todo mundo. Na Rio+20 ficou claro que alguns continuam pobres e miseráveis enquanto outros conseguiram grandes negócios com europeus que, no fundo, querem meter a mão na Amazônia e perceberam que muitos índios aceitariam facilmente um "passaporte" da comunidade europeia em troca de grana. Quanto mais iPad e Macintosh dentro desses parques temáticos culturais melhor para falar mal da "opressão social".
Minha proposta é a de que todos que estão "assinando" nomes assim no Face doem seus iPhones para os povos da floresta.
ponde.folha@uol.com.br

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".
As redes sociais são mesmo a maior vitrine da humanidade, nelas vemos sua rara inteligência e sua quase hegemônica banalidade. A moda agora é "assinar" sobrenomes indígenas no Facebook.
Qualquer defesa de um modo de vida neolítico no Face é atestado de indigência mental.
As redes sociais são um dos maiores frutos da civilização ocidental. Não se "extrai" Macintosh dos povos da floresta; ao contrário, os povos da floresta querem desconto estatal para comprar Macintosh. E quem paga esses descontos somos nós.
Pintar-se como índios e postar no Face devia ser incluído no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Desejo tudo de bom para nossos compatriotas indígenas. Não acho que devemos nada a eles. A humanidade sempre operou por contágio, contaminação e assimilação entre as culturas. Apenas hoje em dia equivocados de todos os tipos afirmam o contrário como modo de afetação ética.
Desejo que eles arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo.
Recentemente, numa conversa profissional, surgiu a questão do porquê o mundo hoje tenderia à banalidade e ao ridículo. A resposta me parece simples: porque a banalidade e o ridículo foram dados a nós seres humanos em grandes quantidades e, por isso, quando muitos de nós se juntam, a banalidade e o ridículo se impõem como paisagem da alma. O ridículo é uma das caras da democracia.
O poeta russo Joseph Brodsky no seu ensaio "Discurso Inaugural", parte da coletânea "Menos que Um" (Cia. das Letras; esgotado), diz que os maus sentimentos são os mais comuns na humanidade; por isso, quando a humanidade se reúne em bandos, a tendência é a de que os maus sentimentos nos sufoquem. Eu digo a mesma coisa da banalidade e do ridículo. A mediocridade só anda em bando.
Este fenômeno dos "índios de Perdizes" é um atestado dessa banalidade, desse ridículo e dessa mediocridade.
Por isso, apesar de as redes sociais servirem para muita coisa, entre elas coisas boas, na maior parte do tempo elas são o espelho social do ridículo na sua forma mais obscena.
O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu "sobrenome" no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?
Filosoficamente, a causa é descendente dos delírios do Rousseau e seu bom selvagem. O Rousseau e o Marx atrasaram a humanidade em mil anos. Mas, a favor do filósofo da vaidade, Rousseau, o homem que amava a humanidade, mas detestava seus semelhantes (inclusive mulher e filhos que abandonou para se preocupar em salvar o mundo enquanto vivia às custas das marquesas), há o fato de que ele nunca disse que os aborígenes seriam esse bom selvagem. O bom selvagem dele era um "conceito"? Um "mito", sua releitura de Adão e Eva.
Essas pessoas que andam colocando nomes de tribos indígenas no seu "sobrenome" no Face acham que índios são lindos e vítimas sociais. Eles querem se sentir do lado do bem. Melhor se fossem a uma liquidação de algum shopping center brega qualquer comprar alguma máquina para emagrecer, e assim, ocupar o tempo livre que têm.
Elas não entendem que índios são gente como todo mundo. Na Rio+20 ficou claro que alguns continuam pobres e miseráveis enquanto outros conseguiram grandes negócios com europeus que, no fundo, querem meter a mão na Amazônia e perceberam que muitos índios aceitariam facilmente um "passaporte" da comunidade europeia em troca de grana. Quanto mais iPad e Macintosh dentro desses parques temáticos culturais melhor para falar mal da "opressão social".
Minha proposta é a de que todos que estão "assinando" nomes assim no Face doem seus iPhones para os povos da floresta.
ponde.folha@uol.com.br

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".
Assinar:
Postagens (Atom)
O anúncio de Olavo Bilac
O anúncio de Olavo Bilac Autoria desconhecida Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um ...
-
E a Disneylândia? Esta história que Ariano conta ocorreu em um jantar na casa de um amigo rico casada com uma mulher idiota... ...
-
Testemunho do PRÉ-SAL. Carlos Galani Dos Santos Em 1978, eu, Carlos Galani dos Santos, trabalhei em uma plataforma marítima de prospecçã...
-
Navegando pela web encontrei esta espécie de “matriz” que apresenta uma espécie de “árvore genealógica” dos mitos e Religiões que conhecemos...

