As obras aqui publicadas podem não ser inteiramente ficcionais, podendo corresponder ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais será mera coincidência?

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Despeito

Bom dia meus amigos e colegas,

Achei esta pérola e gostaria de compartilhar com voces.
Espero que gostem e meditem pois, alguns acham que pensar doi. E eu concordo. Correr o risco de destruir os castelos de areia que se demora tanto a edificar...

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Torso arcaico de Apolo

Rainer Maria Rilke / Tradução de Manuel Bandeira

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.

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...no soneto de Rilke, o autor além de ultrapassar a questão estética afinal, nos convida a mudar, aperfeiçoar. É comum pessoas se sentirem humilhadas ante a perfeição de Apolo, brotando uma reação natural - o despeito.

Despeito é a negação do melhor, é quando desqualificamos, camuflamos ou distorcemos e, de alguma forma evitamos o contato ou confronto direto. Isso produz a sensação de tranquilidade e alívio, pelo menos por alguns instantes, em nosso orgulho machucado.
Quando se faz isso encurtamos os limites humanos de uma forma miserável, só pra satisfazer nossa auto-imagem diminuída.

É muito fácil nos depararmos com nossos monstros internos: orgulho, o medo, a raiva, etc. Mais fácil do que com nossos heróis. Quando nos comparamos, os monstros parecem ser piores do que nós próprios.

E por falar em Apolo, lembrei que apologia não é só fazer "propaganda" de um determinado assunto. Ao invés de ser leal, considerando o lado positivo e negativo, constrói-se um discurso somente do lado que convém, e como fica obvio, carece de verdade. Aliás, tem uma verdade: a verdade conveniente.

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