Por Marcus Vinícius Teixeira Navarro
Nos últimos 20 anos convivemos e/ou participamos (no Brasil, na Bahia e no CEFET) de diversos movimentos populares, clamando por uma tríade que seria responsável por nossa transformação em uma sociedade mais justa: Democracia-Transparência-Compromisso (com as Instituições Públicas).
Entretanto, esses movimentos populares eram, sem exceção, coordenados e aparelhados por grupos e/ou partidos políticos que, apenas utilizavam os movimentos populares como trampolim. Quando conseguiram chegar ao poder (no Brasil, na Bahia e no CEFET) implantaram práticas antidemocráticas, obscuras/nebulosas e sem compromisso com as instituições públicas, ficando muito claro que os discursos inflamados, os panfletos indignados e as passeatas gigantescas, não passavam da mais pura prática da demagogia com fins eleitorais.
Não podemos mais continuar calados diante das absurdas práticas implantadas no CEFET/IFBA, jamais vistas nos 100 anos de história Institucional. Assim, pretendo escrever 3 textos sobre cada um dos elementos da tríade, iniciando pela democracia.
Quando os atuais gestores conseguiram o poder, no CEFET/IFBA, começamos a ouvir discursos proclamando que a marca registrada da gestão, seria a radicalização da democracia.
Bem, desde então, penso sobre o que seria “radicalizar a democracia”. Inicialmente, fiquei muito animado, imaginando que seria implantado um sistema democrático, tão democrático, mas tão democrático, que talvez fosse até criado um “Prêmio Nobel da Democracia” para premiar o fato mais importante, depois da criação da própria democracia, que seria a “democracia radicalizada” ou a “radicalização da democracia”. Contudo, meu sonho durou poucos minutos e nos primeiros dias já se transformava em pesadelo, pois a decepção venceu a esperança de algo novo e transformador. A “radicalização da democracia”, na verdade, era a terrível demagogia da democracia.
Podemos dizer que esses grupos e/ou partidos políticos, descobriram a caixa de Pandora da demagogia e estão utilizando todo o seu poder, com todas as forças. Mas seu uso foi tão desmedido que, com apenas poucos anos de gestão, os poderosos mandamentos das falácias demagógicas foram revelados para o público, diminuindo seu poder e possibilitando seu fim!
Encontrei, em um pedaço de papel rasgado no chão, os 10 mandamentos para “reinar” com a demagogia da democracia, sendo eles:
1. Critique a falta de eleições nas unidades, mas, quando chegar ao poder, só realize eleições na unidade que tenha a certeza da Vitória. Nas outras unidades, indique um “pro-tempore” interventor, para que possa governar sem repartir o poder;
2. Combata o assédio moral e clame pela formação de uma comissão de ética ampla, autônoma e democrática. Mas, quando chegar ao poder, não cometa o erro de realizar eleição (nem por demagogia) e indique os seus membros. O presidente deve ser um dos que possuem cargo de direção, para garantir obediência e que nenhum dos seus será molestado;
3. Defenda o orçamento participativo. Mas, pelo amor ao poder, não cometa esta tentação! Concentre todo o poder financeiro não mão de uma só pessoa. Assim, com o poder da caneta financeira, manterá os aliados e “conquistará” outros. Para os demais, basta entregá-los os lentos trâmites burocráticos;
4. Reivindique a participação da comunidade nas reformas administrativas. Quando chegar ao poder, se precisar realizar alguma reforma administrativa, crie uma comissão ou uma discussão na internet, só para a comunidade pensar que participa (lembre sempre da máxima dos nossos mestres, não precisa ser democrático, basta parecer) e implante, na canetada, a reforma que você deseja. Melhor será se tudo for feito sem comunicar à comunidade, pois, assim, ninguém saberá quais são os novos órgãos, muito menos para que sirvam, possibilitando uma gestão sem nenhum controle da comunidade;
5. Participe de sindicatos livres e autônomos. Mas, quando chegar ao poder, aparelhe e cale os sindicatos. Estas instituições aparelhadas são de grande valia para se perpetuar no poder;
6. Discurse sobre o valor e os direitos dos recém chegados na Instituição. Faça-os se sentirem devendo um favor pelo cargo público que conseguiram. Caso algum ouse questionar o poder, utilize o instrumento, legal, da avaliação de estágio probatório para transformar os rebeldes em aliados ou em ex-servidores;
7. Denuncie a ausência discente dos conselhos. Mas, quando chegar ao poder cuidado, esses jovens podem causar muitos problemas. Assim, só fomente a eleição e participação se tiver certeza que um dos seus será eleito. Caso contrário, finja-se de morto e não toque neste assunto;
8. Clame por publicações e/ou informativos produzidos pela comunidade, principalmente dos estudantes. Mas, muita calma nessa hora, quando assumir o poder não deixe essa turma escrever o que quer, isso é um perigo!. Indique, democraticamente, um tutor para tais publicações, garantindo que não críticas não serão publicadas, nem críticas construtivas, pois nós gostamos mesmo é de elogios;
9. Afirme, constantemente, que trata todos iguais. Mas, não permita que sua equipe pratique esse erro. Nas reuniões fechadas, lembre sempre que os seus são mais iguais que os outros;
10. Lembre, a cada momento, que a demagogia lhe confere o poder divino. Assim, se algum mortal ousar dirigir alguma crítica à sua gestão, não responda. Os deuses não se comunicam com os mortais e nenhum mortal é digno de criticar o divino. Logo, deve fazer cair sobre o indigno toda a sua ira e de seus aliados, pois assim, só assim, servirá de exemplo para evitar novas blasfêmias.
Prof. Marcus Vinícius Teixeira Navarro
Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia
Núcleo de Tecnologia em Saúde – NTS
Laboratório de Física Radiológica – LAFIR
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