segunda-feira, 22 de agosto de 2022

O susto da garotinha

O susto da garotinha

11 de fevereiro de 2022

Estava na estrada estes dias indo visitar minha mãe quando vi na cidade de Iaçu-Ba uma chaminé bem alta soltado uma fumaça branca. Imediatamente me lembrei de uma história da garotinha Alice, filha de Ângelo, um amigo luso-brasileiro e professor de química da UFRJ.
Estavam em Arembepe, litoral norte da Bahia, trecho cheio de grandes lagoas de água salobra de um lado, e do outro, o oceano atlântico.
Era fim de tarde, estavam sentados em frente a uma destas lagoas. O sol estava se pondo já bem perto do horizonte, um pouco a esquerda de onde estavam, bem na direção de uma indústria, a Tibras que produzia óxido de titânio.
Foi neste momento que Alice percebeu as chaminés soltando uma fumaça branca para o alto. Arregalou os olhos, abriu a boca como se tivesse levado um susto, ou fizera uma imensa descoberta que salvaria o mundo.
O pai perguntou "o que foi, filha?"
Alice respondeu prontamente: já sei de onde vem as nuvens. Vem dali (apontando para a chaminé), da fábrica de nuvens.

Cidade de Iaçu-Ba. Foto: José Lamartine de AL Neto


Achei esta história tão encantadora, tão fantástica, unindo a realidade e fantasia. Mas onde quero chegar com isso?
Acredito que certas capacidade que temos com o tempo vão sendo adormecidas.
A capacidade de ter a mente aberta para perceber coisas novas, se encantar com as possibilidades que a vida oferece para aprender e crescer.
Por falar em crescer, Alice hoje é uma mulher feita, adulta e sabe o que sai da chaminé. Aprendeu estequiometria. Ela sabe que além de vapor saem outras coisas também. Se tornou mais madura. A maturidade deve aperfeiçoar nosso entendimento da vida. Aquilo que víamos de um jeito, hoje é de outro.
Dos dados e fatos da realidade pode-se tirar, com método, informação. O uso adequado da informação pode-se chegar ao conhecimento, mas somente fazendo o uso do conhecimento, com acertos ou erros, se chega a sabedoria. Não é possível ter sabedoria como um castelo nas nuvens e esperar que ele sobreviva, exceto no terreno da fantasia da Alice criança. Em vez disso constrói-se em alicerce firme dos fatos e da realidade como as bases das chaminés, mesmo que sejam inspiradas em contos de fadas, ou fábrica de nuvens.

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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Ferreira Gullar, grande poeta e crítico

22/12/2012 às 17:00 \ Política & Cia 

Ferreira Gullar, grande poeta e crítico, ex-militante do Partido Comunista: “Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário”

 


Ferreira Gullar: "O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas" (Foto: Ernani D'Almeida)
Publicado originalmente em 27 de setembro de 2012
 
Entrevista a Pedro Dias Leite, publicado em edição impressa de VEJA


UMA VISÃO CRÍTICA DAS COISAS

 
O poeta diz que o socialismo não faz mais sentido, recusa o rótulo de direitista e ataca: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”

Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 82 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina.
Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo “invencível”.
É autor de versos clássicos — “À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa / e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta”.
Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio”.
 
O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica.
A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.
 
Por que o capitalismo venceu?

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade.
A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.
A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.
O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.
A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.
 
 

"O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola" (Foto: ViagensImagens)
 
O senhor se considera um direitista?

Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.
 
E Cuba?

Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.
 
Como o senhor define sua visão política?

Não acho que o capitalismo seja justo.
O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.
 
Qual a sua visão do governo Dilma Rousseff?

Dilma é uma mulher honesta, não rouba, não tem a característica da demagogia. Mas ela foi posta no poder pelo Lula. Assim, não tem autoridade moral para dizer não a ele. Nesse aspecto, é prisioneira dele.
 
Como o senhor avalia a perspectiva de condenação dos réus do mensalão?

O julgamento não vai alterar o curso da história brasileira de uma hora para a outra. Mas o que o Supremo está fazendo é muito importante. É uma coisa altamente positiva para a sociedade. Punir corruptos, pessoas que se aproveitaram de posições dentro do governo, é uma chama de esperança.
 
 

 
"Há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum" (Foto: AFP)
 
O senhor se identifica com algum partido político atual?

Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. Quando fui preso, em 1968, fui classificado como prisioneiro de guerra. O argumento dos militares era, e é, irrespondível: quem pega em armas quer matar, então deve estar preparado para morrer.
 
O senhor condena quem pegou em armas para lutar contra o regime militar?

Quem aderiu à luta armada foram pessoas generosas, íntegras, tanto que algumas sacrificaram sua vida. Mas por um equívoco. Você tem de ter uma visão critica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.
 
Como se justifica sua defesa da internação o tratamento da esquizofrenia?

As pessoas usam a palavra manicômio para desmoralizar os hospitais psiquiátricos. Internei meu filho em hospitais que têm piscina, salão de jogos, biblioteca. Mesmo os públicos não têm mais a camisa de força ou sala com grades. Tive dois filhos esquizofrênicos. Um morreu, o outro está vivo, mas não tem mais o problema no mesmo grau. Controlou com remédio, e a idade também ajuda. A esquizofrenia surge na adolescência e se junta à impetuosidade. Com o tempo, a pessoa vai amadurecendo. Doença é doença, não é a gente. Se estou gripado, a gripe não sou eu. A esquizofrenia é uma doença, mas eu não sou a esquizofrenia. Posso evoluir, me tornar uma pessoa mais madura, debaixo de toda aquela confusão. O esquizofrênico com 50 anos não é o mesmo de quando tinha 17.
 
Qual o pior momento na sua convivência com filhos esquizofrênicos?

Quando a pessoa entra em surto, ela pode se jogar pela janela. Meu filho, o Paulo, se jogou. Hoje ele anda mancando porque sofreu uma lesão na coluna. Ele conversava comigo, via televisão, brincava, lia meus poemas. Em surto, não tinha controle. Queria estrangular a empregada. Nessas horas, a única maneira é internar e medicar. Nesse estado, sem nenhum socorro, o esquizofrênico pode fazer qualquer coisa.
 
A família pobre faz o quê, se não tem mais onde internar?

Se mantiver a pessoa em casa, ela poderá tocar fogo em tudo, pegar uma faca e tentar assassinar o pai. Poderá fugir para a rua, desvairada. Essa política contra os hospitais psiquiátricos tem como resultado prático uma tragédia em que os ricos internam seus filhos em clínicas particulares e os pobres morrem na rua.
Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer.
Os hospitais psiquiátricos continuam a existir porque os médicos sabem que não há outra saída. Não se interna um doente para que ele fique vinte anos lá dentro, mas sim três dias, três meses. Meus filhos nunca ficaram internados além do tempo necessário. Eles voltavam para casa normais. Era uma alegria. Nenhuma família quer ter seu filho preso.
 
Como foi a primeira vez que se defrontou com a doença?

O primeiro surto do Paulo foi no exílio, em Buenos Aires. Um dia, no apartamento, a gente estava brincando, a bola desceu pela escada, ele saiu para pegá-la e não voltou. Desci, ele tinha sumido. Em que direção eu ando? Voltei para casa e fiquei chorando, não sabia o que fazer. Paulo ficou meses sumido. Isso foi em 1974, logo que cheguei a Buenos Aires. Terminei encontrando-o preso. No desvario, ele tentou roubar um carro — não sabia nem dirigir — e foi preso. Fez greve de fome. Estava esquelético.
O policial disse que era preciso uma ordem para soltá-lo, porque era menor. Mas deixou que eu levasse meu filho, porque sabia que ele estava doente. Levei o Paulo para casa. Ele entrou e começou a arrebentar a janela. Morávamos no quinto andar. Ele foi internado. Até o dia em que, esperto como é, sumiu do hospital, para sempre. Foi encontrado em São Paulo. Saiu de Buenos Aires sem um tostão, com a roupa do corpo. Esses episódios não têm fim.
 
 

"Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais" (Foto: Frâncio de Holanda)

Como é seu método para fazer poesia?

Já fiquei doze anos sem publicar um livro. Meu último saiu há onze anos. Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e que não sabia. Só escrevo assim. Estou na praia, lembro do meu filho que morreu. Ele via aquele mar, aquela paisagem. Hoje estou vendo por ele. Aí começo um poema… Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos. Não dá para escrever um poema sobre qualquer coisa.
O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.
 
A idade é uma aliada ou uma inimiga do poeta?

Com o avanço da idade, diminuem a vontade e a inspiração. A gente passa a se espantar menos. Tem poeta que não se espanta mais, mas insiste em continuar escrevendo, não quer se dar por vencido. Então ele começa a escrever bobagens ou coisas sem a mesma qualidade das que produzia antes. Saber fazer ele sabe, mas é só técnica, falta alguma coisa. Não se faz poesia a frio. Isso não vai acontecer comigo. Sem o espanto, eu não faço.
Escrever só para fazer de conta, não faço. Eu vou morrer. O poeta que tem dentro de mim também. Tudo acaba um dia. Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais. Não vou forçar a barra. Isso não vai acontecer. Toda vez que publico um livro, a sensação que tenho é de que aquele é o definitivo. Escrever um poema para mim é uma grande felicidade. Se não acontecer, não aconteceu.



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domingo, 3 de maio de 2020

Algumas curiosidades que a COVID-19 desafia a discutir

Algumas curiosidades que o COVID-19 desafia a discutir.

Tenho ficado muito instigado com as coisas que estão ocorrendo no mundo por causa da pandemia do COVID-19. Depois de focar por semanas na busca de informações úteis, acabei saturado de notícias macabras fornecidas pelas redes televisivas. Mudei o foco, fui ver melhor o que os dados sobre a pandemia estavam dizendo. Então estudei tabelas, gráficos, fórmulas e outros dados, afinal com a quarentena tenho mais horas livres do que de costume. Existem muitas coisas importantes e aqui seguem algumas delas:
1 - Este fenômeno de contágio global por vírus, como vários outros fenômenos físicos ou sociais, pode ser explicado por gráficos e equações.

Este gráfico representa o modelo SIR (Suscetíveis,  Infectados e Recuperados) para contágio ao longo do tempo. Começa com uma sociedade totalmente suscetível já que não existem imunizados. À medida que o vírus se instala, verifica-se o início do contágio. Algumas poucas pessoas vão manifestar os sintomas mais graves. Uma quantidade muito maior, cerca de dez vezes mais já que poucos são testados, que também foram expostos ao vírus apresentam sintomas brandos ou mesmo não os apresentam e se curam sozinhos tornando-se imunizados. O que se percebe é que quanto mais pessoas contraem a doença mais rápido vai sendo o crescimento até que a quantidade de pessoas suscetíveis vai decaindo, a de recuperados vai aumentando e, não tendo mais pessoas disponíveis para o vírus atuar já que a maioria está recuperada, acaba a fase de contágio.
2 - O trabalho dos governos é suavizar a inclinação destas curvas para que o pico dos casos de doentes não ultrapasse a capacidade de atendimento do sistema de saúde. Diversos fatores influem para que as curvas de contágio não sejam exatamente iguais em todos os lugares. Em uns lugares são mais aceleradas, em outros mais suaves e tudo tem a ver com o fato de como as pessoas interagem entre si (usam máscaras? Mantem distanciamento social?), a quantidade de vezes com que se dão as interações, a densidade populacional, a temperatura regional, o perfil da população (idosos, doenças pré-existentes etc.).
3 - A testagem é crucial para se perceber o fenômeno com mais precisão, o que não está acontecendo, poucos são testados. O próprio Ministério da Saúde estima que a subnotificação dos casos de Covid-19 fique entre 90-94%.

Isso quer dizer que os 64 casos confirmados aqui em Jequié (02 de maio) representa cerca de 7% da realidade existindo provavelmente um total de 840 pessoas portadoras do vírus, e dentre estes 20% são assintomáticos (168 pessoas) que são os verdadeiros propagadores do vírus, pois estão indo ao mercado, farmácia, padaria, clínicas e ninguém sabe que estão disseminando o vírus, nem eles próprios. Acredito que o comportamento da disseminação da infecção em Jequié ainda avance muito. Especialistas dizem que não adianta mais fechar o comércio, ou manter o isolamento. Isso seria importante para não deixar o vírus entrar, mas uma vez instalado, a epidemia segue seu curso de contágio. Ações individuais e do estado vão retardar isso, mas não podem mais impedir. Outra coisa: o vírus é muito contagioso, mas tem baixa letalidade.
4 - O exemplo de outros países que não decretaram quarentena restritiva (Suécia, Alemanha, Japão, Austrália) mostra que os problemas não são resolvidos só por leis e decretos, ainda mais se não tiverem a adesão dos cidadãos. Lá, com esclarecimento e educação os cidadãos se sentem responsáveis por suas ações e as consequências decorrentes, os problemas são resolvidos mais facilmente. Não esperam que o estado resolva tudo.
5 - O foco de atenção da rede hospitalar para tratar casos de COVID-19 fez aumentar os óbitos por outras enfermidades. Em New York aumentou oito vezes as mortes por problemas cardíacos comparada ao mesmo período do ano passado. Os pacientes evitavam sair de casa mesmo se sentindo mal para não correr o risco de pegar a doença nos hospitais, acrescente o medo difundido pelos noticiários e a grande ansiedade contribuindo para suas mortes.
6 – E por falar em “comparar”, só percebemos a gravidade de uma situação quando a relacionamos com outra equivalente.
Se tomarmos as mortes decorrentes pelo COVID-19 de forma absoluta os números são assustadores e nos levam a decisões difíceis, as vezes equivocadas. Além disso fica difícil a comparação de casos. Tente fazer isso para países que têm populações diferentes, não dá. Então toma-se como referência uma base populacional comum para fazer a análise, por exemplo “x” casos por milhão de habitantes.

O comportamento da curva de mortes por COVID-19 no Brasil ainda está subindo, porém de forma mais suave e com números muito menores que os de países como EUA, Suécia, Espanha, Inglaterra, França, Itália, Canadá etc. Isso não é um passaporte para relaxarmos nas medidas de proteção já que as coisas sempre podem piorar, depende do que fizermos.
Dados da OMS (02 de maio) indicam que existe no mundo três milhões de casos confirmados de COVID-19 com pouco mais de duzentas mil mortes; o Brasil é um dos países com transmissão comunitária (o vírus já está entre as pessoas nas cidades) e confirmou 85.380 casos e 5.901 mortes pela doença até a tarde do dia 30 de abril de 2020.
7 – A boa notícia para o Brasil é que os especialistas já vêm uma luz no fim do túnel. Chegaram a marcar uma data fim da epidemia entre outubro e novembro de 2020. Por hora, o que vamos testemunhar é um aumento mais rápido do número de casos até chegar ao pico do contágio em meados de maio quando começa a desaceleração mais rápida até julho de 2020. Só nos resta verificar se os especialistas acertarão sua previsão.

8 - A saúde psicológica de muitas pessoas está sendo seriamente afetada e os efeitos provavelmente durarão pelo medo exagerando alterando o comportamento social e em “doses” cada vez maiores. O que sentimos sobre as pessoas ao nosso redor e a quem amamos, mas também sobre estranhos, não há dúvida de que está sendo afetado por essa pandemia. A restrição de deslocamento, a necessidade de proximidade física nas famílias, está revelando muitas qualidades como diálogos, jogos, brincadeiras, estudos, interações sociais virtuais, entre outras, mas em outros casos têm acirrado “defeitos de caráter” refletido no aumento dos casos de violência doméstica, abuso infantil e alcoolismo. O estabelecimento de rotinas produtivas é de fundamental importância para saúde mental.
Existem muitos temas a serem estudados. Isso não é um atributo dos especialistas, mas qualquer um, com alguma base, um bom método e disciplina, pode chegar a conclusões interessantes. Temas como saúde pública, segurança, impactos econômicos e sociais (no planeta, nos países, no estado, cidade, na nossa família), política e politização, eleições... são desafios. A verdade é que a pandemia mudou a maneira como trabalhamos, estudamos, nos divertimos, praticamos esportes etc., afetando uns grupos sociais bem mais do que outros. Não sabemos se todas essas mudanças, tão drásticas, vão durar ou se dissipar com o tempo. Espero que aprendamos alguma coisa com isso.

José LAMARTINE de Andrade Lima Neto
Doutorado em Análise Cognitiva, Psicólogo



Algumas fontes de informação






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sábado, 28 de março de 2020

O MOVIMENTO ANTIMANICOMIAL E AS VOZES DISSONANTES



José Lamartine de Andrade LIMA NETO
Bacharel em Psicologia. Especialidade em Saúde Mental e Dependência Química.
Doutorado em Difusão do Conhecimento (DMMDC/UFBA).
joselamartineneto@gmail.com
Docente do IFBA
Luana Machado ANDRADE
Bacharel em Enfermagem. Especialista e Mestre em Enfermagem e Saúde/Saúde Pública (PPGES-UESB).
luanamachado87@hotmail.com
Docente de enfermagem (UNEB/Departamento de Educação-Campus XII).

RESUMO
Nas últimas décadas, o problema representado pelos transtornos mentais tem ocupado cada vez mais a agenda das políticas de saúde. No Brasil no final dos anos 1980, a luta pelos direitos humanos levou à construção da “Reforma Psiquiátrica”. O artigo apresenta uma visão crítica sobre a implantação da Reforma Psiquiátrica em nosso país com base na metodologia da pesquisa bibliográfica e documental. Conclui-se que existe uma carência nas bases de dados científicas sobre críticas à Reforma Psiquiátrica e o Movimento Antimanicomial, bem como que a sua implantação se deu por fomento político da Organização Mundial da Saúde como forma de quebrar uma hegemonia do pensamento médico.

Palavras-Chave: História da Psicologia, Reforma Psiquiátrica, Ideologia


Trabalho completo disponível em -
https://www.researchgate.net/publication/360963333_AS_VOZES_IGNORADAS_NO_MOVIMENTO_ANTIMANICOMIAL


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Três cenários do isolamento social em epidemias




Gráfico mostra as curvas de contágio em três cenários dependendo da forma de tratamento de uma epidemia. 

O cenário (1) seriam as consequências quando nada é feito e nenhuma mudança de comportamento ocorre. A disseminação é rápida e intensa. Colapso dos sistemas de saúde.

No cenário (2) ocorre o isolamento parcial com achatamento da curva diminuindo o risco de sobrecarregar os serviços de saúde. Muitas pessoas pegarão a doença, desenvolverão imunidade e trará menos impactos econômico-sociais. 

No caso do cenário (3) ocorre o isolamento total (lock-down) dará tempo dos sistemas de saúde se prepararem. Trás como agravante forte impacto na economia e na vida das pessoas. Inicialmente poucos serão expostos ao vírus e com isso não terão a imunidade necessária para quando a quarentena for cancelada. Surgirá o efeito rebote?



























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Isolamento vertical ou horizontal

A maior parte das informações são um texto de André Biernath*

Quarentena. Supressão. Mitigação. Isolamento (vertical ou horizontal). Finalidade é achatar a curva.

Diante da ameaça do novo coronavírus, boa parte do mundo adotou estratégias de restrição de contato social entre os seus cidadãos.

Esse ponto é fácil de explicar: se um sujeito está infectado e fica em casa, sem interagir com outros, ele não passa o vírus da Covid-19. Por outro lado, quem está saudável e permanece fechado em seu lar, não corre o risco de pegar a doença.

Mas é justamente aí que a coisa começa a complicar: se as pessoas não trabalham, como fica a economia? E as empresas, como vão obter o dinheiro para pagar seus funcionários? É legítimo o medo das consequências de uma recessão global: afinal, desemprego e aumento da pobreza também produzem sérios impactos na saúde.

Pensando nisso, alguns governantes e cientistas passaram a sugerir um caminho alternativo: o isolamento vertical. Nas perguntas abaixo, você vai entender direitinho o que é essa estratégia e porque ela tem tudo para ser ainda mais desastrosa.




O que é isolamento vertical?

A ideia é simples: em vez de mandar todo mundo para casa, fechar escolas e empresas, por que não só isolar as pessoas mais vulneráveis ao novo coronavírus? Pelo que se sabe até agora, a taxa de complicações e mortes é bem maior em alguns grupos: indivíduos acima de 60 anos, portadores de diabetes, hipertensão e doenças cardíacas ou pulmonares.

Ao menos em tese, isso permitiria que os mais jovens voltassem aos estudos e ao trabalho, fazendo girar a roda da economia. Seguindo ainda essa linha de raciocínio, as companhias manteriam seu ritmo de trabalho e as pessoas continuariam a consumir com certa normalidade.

Há outro argumento por aqui: com os indivíduos de 20, 30, 40 e 50 e poucos anos saindo de casa, invariavelmente elas se infectariam com o coronavírus. Como não fazem parte de grupos de risco, não teriam grandes consequências à saúde e ficariam protegidos. Em longo prazo, isso criaria uma “imunidade de rebanho” e evitaria novos surtos ou epidemias provocadas por esse agente infeccioso.

O isolamento vertical foi testado em algum lugar?

Até certo ponto, sim. Nas primeiras semanas de março, os governos de Reino Unido e Holanda tomaram poucas ações para combater o coronavírus. De acordo com reportagem da revista Science, o primeiro-ministro holandês Mark Rutte rejeitou “fechar o país completamente” e optou por um “contágio controlado” de sua população.

A mesma diretriz aconteceu nas terras da rainha Elizabeth II (cujo filho, o príncipe Charles, testou positivo para a Covid-19): deixar que os mais jovens se infectem e proteger somente a parcela mais vulnerável de nossa população.

O que fez esses países voltarem atrás?

Um time do Imperial College London, na Inglaterra, publicou uma ampla pesquisa mostrando qual o impacto das medidas não-farmacológicas para reduzir  a mortalidade pelo Covid-19.

O trabalho avaliou diferentes cenários e as consequências que eles teriam tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. Vamos explicar as duas estratégias principais que foram avaliadas:

Mitigação: foca em frear, porém não necessariamente parar a circulação do vírus. Protege aqueles que estão sob maior risco. É o isolamento vertical que os próprios ingleses vinham apostando.
Supressão: tenta reverter o crescimento do número de casos, reduzindo o máximo possível o contato social de todos os habitantes. É o isolamento geral praticado em partes da China e em vários outros países pelo mundo.
E o que os resultados mostraram? Mesmo num cenário com o pico de casos reduzido, seria necessário o dobro de leitos de UTI para suprir a demanda de pacientes em estado crítico no Reino Unido. Seriam milhares de mortes nesses dois países, que estão entre os mais ricos e poderosos do globo.

Quais seriam os principais problemas do isolamento vertical?

Em primeiro lugar, é difícil isolar apenas algumas pessoas. Pense na realidade dos idosos que moram com os filhos ou os netos. Se os mais jovens voltarem à escola ou ao trabalho e tiverem contato com o coronavírus, vão trazer a doença para dentro de casa. É complicado pensar num isolamento social completo diante da realidade de nossa sociedade.

E olha que o buraco é bem mais embaixo… De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, 14 milhões de brasileiros são  diabéticos e metade deles nunca fez o diagnóstico. O Ministério da Saúde calcula que uma a cada quatro pessoas que moram em nosso país têm hipertensão arterial. Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que até 20% de nossos conterrâneos sofrem com asma e 10% convivem com a doença pulmonar obstrutiva crônica, a DPOC.

Traduzindo: são milhões e milhões de indivíduos que fazem parte do grupo de risco da Covid-19, muitos abaixo da faixa etária dos 60 anos. E, mais assustador ainda, vários deles sequer foram diagnosticados e vivem com a doença nas sombras. Como fica a saúde deles? Como vão se isolar com a exigência de voltar aos postos de trabalho?

Os defensores do isolamento vertical também se baseiam nos números da Coreia do Sul, país que obteve ótimos resultados no combate ao novo coronavírus (no dia 26 de março, eram 9 241 casos confirmados e 131 mortes por lá). O argumento é que a mortalidade da doença nesse país asiático ficou em torno de 1%, o que justificaria medidas mais suaves.

Mas a questão é que a Coreia do Sul adotou outra ação muito eficaz: fazer testes em massa na população. Desse modo, eles conseguiram detectar até os casos mais leves e isolar essas pessoas, para que elas não passassem a doença para os outros.

O drama é que o mundo não tem capacidade de realizar tantos exames assim. Não existe nem material, nem dinheiro para disponibilizar esse serviço em larga escala. O Brasil mesmo só realiza testes nos pacientes mais graves, que estão internados.

E o que isso significa na prática? Em resumo, não conhecemos o número real de infectados pelo novo coronavírus. Se a taxa de mortalidade foi 1% na Coreia do Sul, ela subiu para 2% na China. E saltou para quase 10% na Itália.

Uma simples conta de padaria dá a dimensão do problema. Vamos levar em consideração as projeções de que 70% da população mundial vai se infectar com coronavírus. Isso significa que 4,9 bilhões de pessoas terão a Covid-19 (a maioria com sintomas leves ou até imperceptíveis).

Se a taxa de mortalidade for de 1%, como visto na Coreia do Sul, estamos falando de 49 milhões de mortos no planeta, número que se aproxima ao da gripe espanhola de 1918.


Informações extraídas de:

*O que é isolamento vertical (e por que essa não é uma boa ideia)?
Estratégia de resguardar apenas os mais suscetíveis ao coronavírus pode ter efeitos catastróficos na saúde e na economia

Por André Biernath
Publicado em 27 mar 2020, 10h25
https://saude.abril.com.br/medicina/o-que-e-isolamento-vertical/


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Carta de um pai que não internou seu filho

Por Fabiane Leite

Estadão
09 de novembro de 2010 | 18h59

André e Geraldo em São Vicente (SP), em foto de Ernesto Rodrigues

Conheci a história de Geraldo e André Peixoto há seis anos, durante reportagem de balanço da reforma psiquiátrica. André teve o primeiro surto, sinalizador da esquizofrenia, na passagem para a idade adulta. O pai, Geraldo, horrorizado com os grandes hospitais psiquiátricos por onde André passou, o retirou de lá, mudou a vida, trocou a carreira de executivo pela de professor de natação para ficar ao lado do filho. Nesses anos, tornou-se um militante do direito dos pacientes de não serem trancafiados em hospitais e clínicas, mas acolhidos por serviços ambulatoriais e pela comunidade.

Na primeira entrevista, Geraldo me surpreendeu por não esconder as agruras de viver com uma pessoa com uma doença psiquiátrica. Não dourava a pílula. Mas defendia com carinho sua escolha, com espaço para a leveza _como a história de um amigo da família, também portador de esquizofrenia, que insistia ser uma águia. Geraldo o acolhia como um pássaro. Naquela época, André não estava bem, os médicos não acertavam o remédio. Tentamos fazer uma foto de ambos, mas André não quis.

Coincidentemente, meses depois, encontrei Geraldo durante uma “blitz” dos conselhos de psicologia e do Ministério Público em grandes unidades psiquiátricas que ainda persistem em diversas partes do País. Em uma das instituições, lá estavam pacientes amarrados, sem roupa. Um deles perguntou a Geraldo se era “papai noel” (por causa da barba branca) e pediu: “alta”!

Depois de o poeta Ferreira Gullar chamar a lei da reforma psiquiátrica de “idiota” e de defender a internação dos filhos, quis ouvir novamente a opinião de Geraldo. Seguiam vivendo juntos. Sugeri novamente a foto de ambos. André estava cada vez melhor, disse o professor. Cuidava do pai. Estava cada vez mais companheiro, relatou Geraldo. E a foto deu certo.

Há cerca de uma semana, André, que tinha 47 anos, morreu vítima de um infarto do miocárdio fulminante, em casa, ao lado do pai. Compartilho com vocês, com autorização do autor, trechos da carta que Geraldo enviou a centenas de amigos e apoiadores:

Há exatamente sete dias, nesta mesma hora, André, meu filho querido, morreu. Tudo começou e terminou comigo. Muitos, sequer o conheciam. Outros, o conheceram, e outros, até o acampanharam e cuidaram dele. Estas pessoas ficaram, indelevelmente, imarcadas em nossa memória.

André nasceu duas vezes, uma, de Wilma, sua mãe, e a outra, de mim, quando o assumi, depois de retirá-lo de um hospital psiquiátrico. Portanto, sinto-me fiador de todo esse querer bem, que vocês todos têm demonstrado por ele.

Tive um privilégio, uma graça por viver junto dele essa experiência, absolutamente fantástica, nestes vinte e cinco anos, desde o dia em que o retirei de um hospital psiquiátrico, até aquele momento, em que o vi, estendido no sofá da minha sala. Ele foi o meu grande mestre, mostrou-me o caminho, o caminho que ele percorreu e que, apesar da violência das crises e, das crises de violência, foi paradoxalmente, delicado e extraordinário. A experiência foi “humana, demasiadamente humana”. Fui atirado à correnteza da vida e da psicose, deixando-me levar sem resistência, aceitando e usando-a a meu favor, sabendo, como bom nadador, que se não o fizesse, iria , apenas, me exaurir. A correnteza, agora queridos amigos, se diluiu, se desfez, deixando-me nadar livremente. A vida foi maravilhosa comigo, por ter-me permitido esse encontro.

Valeu a pena, garoto! Valeu muito a pena!
André vive! Ontem, André era o meu objetivo – hoje, deixou de ser, pois eu o carrego comigo…
Obrigado, obrigado, obrigado…

Geraldo

Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de temas de interesse da saúde pública e dos planos privados de saúde. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.




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