As obras aqui publicadas podem não ser inteiramente ficcionais, podendo corresponder ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais será mera coincidência?

domingo, 4 de outubro de 2009

Envenenando as almas das crianças

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Por Miguel Nagib
No capítulo 3º do livro didático “Português Linguagens - 5º ano”, de autoria de William Roberto Cereja e Thereza Cochar (Editora Atual, pertencente ao grupo Saraiva - clique aqui para ver), os estudantes encontram, logo abaixo do título – “O gosto amargo da desigualdade” –, o seguinte parágrafo:
Você alguma vez já se sentiu injustiçado? Seu amigo com duas bicicletas, uma delas novinha, e você nem bicicleta tem... Sua amiga com uma coleção inteirinha da Barbie, e você que não ganha um brinquedo novo há muito tempo... Se vai reclamar com a mãe, lá vem ela dizendo: ‘Não reclama de barriga cheia, tem gente pior do que você!’. Será que há justiça no mundo em que vivemos?
A resposta negativa é apresentada sob a forma de um texto, em estilo pretensamente literário, seguido de uma bateria de perguntas destinadas a atiçar o “pensamento crítico” dos alunos (supondo-se, é claro, que crianças de 10 anos possuam conhecimento e maturidade para pensar criticamente).
O texto consiste, resumidamente, no seguinte: (...) a professora começou a distribuir os doces entre os alunos, dando a uns mais que a outros. Os primeiros da lista de chamada ganharam apenas um doce; da letra G até a M, dois doces; de N a T, três; Vanessa e Vítor ganharam seis, e Zilda, finalmente, ganhou a metade da caixa, 24 doces. A satisfação inicial dos primeiros se transformava em revolta à medida que percebiam a melhor sorte dos últimos.
Seguem os questionamentos:
– A distribuição dos doces promovida pela professora serviu para ilustrar como é feita a distribuição de riquezas no Brasil. Associe os elementos da aula ao que eles correspondem no país:
• [os doces] • os patrões, os empresários, o governo, etc.
• os alunos • o povo
• a professora • a riqueza

– Na opinião da maioria dos alunos, como a professora deveria ter distribuído os doces?
– A distribuição de doces feita pela professora ilustra a situação de distribuição de renda entre os brasileiros. De acordo com o exemplo:
a) Quem fica com a metade da riqueza produzida no país?
b) Para quem fica a outra metade?
c) Na sua opinião, a minoria privilegiada reclama da situação?
d) E os outros, deveriam reclamar? Por quê?
– Os alunos que ganharam menos doces sentiram-se revoltados com a divisão feita pela professora.
a) Na vida real, como você acha que se sentem as pessoas que têm uma renda muito baixa? Por quê?
b) Que consequências a baixa renda traz para a vida das pessoas? Dê exemplos.
c) Na sua opinião, as pessoas são culpadas por terem uma renda baixa?
– Muitas pessoas acham que uma das causas da violência social (roubos, furtos e sequestros, por exemplo) é a má distribuição de renda. O que você acha disso? Você concorda com essa opinião.
Vejam vocês a que nível chegou a educação no Brasil.
Decididos a “despertar a consciência crítica” dos seus pequenos leitores – missão suprema de todo professor/escritor amestrado na bigorna freireana (ademais, se o livro não for “crítico”, a editora não quer, porque o MEC não aprova, os professores não adotam e o governo não compra) –, mas cientes, ao mesmo tempo, da incapacidade das crianças para compreender minimamente, em termos científicos, o tema da desigualdade social, os autores optaram por uma abordagem emocional do problema. Afinal, devem ter ponderado, embora os alunos não tenham idade para entender o que é e o que produz a desigualdade na distribuição das riquezas, nada os impede de odiar desde logo essa coisa, o que quer que ela seja.
A dupla de escritores assumiu, desse modo, o seguinte desafio (como eles gostam de dizer) “político-pedagógico”: criar uma empatia entre os alunos e as “vítimas da injustiça social”; induzi-los a acreditar que toda desigualdade é injusta, de sorte que para acabar com a injustiça é preciso acabar com a desigualdade; e predispô-los, enfim, a aceitar ou apoiar a bandeira do igualitarismo socialista.
Como na cabeça da dupla de escritores a vida de pobre consiste em sentir inveja de rico, era necessário lembrar às crianças como é triste não ter uma bicicleta, quando o amigo tem duas, ou não ter uma boneca, quando a amiga tem várias. Mas, em vez de chamar essa tristeza pelo nome que ela tem desde os tempos de Caim, o livro a ela se refere como “sentimento de injustiça”.
Trata-se, em essência, de uma paródia satânica da parábola dos trabalhadores da vinha, onde Cristo nos ensina, entre tantas outras coisas, que não existe correlação necessária entre desigualdade e injustiça e que é Ele próprio – o justo por excelência – a maior, senão a única, fonte de desigualdades do universo. “Amigo, não fui injusto contigo. Não combinaste um denário? Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a este último o mesmo que a ti. Não tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu?”
Que a palavra satânica não se compreenda como insulto ou força de expressão. É termo técnico, para designar precisamente o de que se trata. Qualquer estudioso de místicas e religiões comparadas sabe que as práticas de dessensibilização moral são o componente mais típico das chamadas ‘iniciações satânicas’. Enquanto o noviço cristão ou budista aprende a arcar primeiro com o peso do próprio mal, depois com o dos pecados alheios e por fim com o mal do mundo, o asceta satânico tanto mais se exalta no orgulho de uma sobre-humanidade ilusória quanto mais se torna incapaz de sentir o mal que faz.
Vem daí o sentimento de superioridade moral da militância esquerdista que há mais de trinta anos deposita seus ovos nas cabeças dos estudantes brasileiros, parasitando, como solitárias ideológicas, o nosso sistema de ensino.
“Hoje em dia – escreve Eduardo Chaves, Professor Titular de Filosofia da Educação da Universidade Estadual de Campinas (http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm) –,
“o sentimento pelo qual a inveja pretende passar, a maior parte do tempo, é o de justiça – não a justiça no sentido clássico, que significa dar a cada um o que lhe é devido, mas a justiça em um sentido novo e deturpado, qualificado de ‘social’, que significa dar a cada um parcela igual da produção de todos – ou seja, igualitarismo. (...)
Um postulado fundamental da ‘justiça social’ é que uma sociedade é tanto mais justa quanto mais igualitária (não só em termos de oportunidades, mas também em termos materiais, ou de fato). ‘Justiça social’ é, portanto, o conceito político chave para o invejoso, pois lhe permite mascarar de justiça (algo nobre, ao qual ninguém se opõe) seu desejo de que os outros percam aquilo que têm e que ele deseja para si, mas não tem competência ou élan para obter. (...)
A luta pelo igualitarismo se tornou verdadeira cruzada a se alimentar do sentimento de inveja. Várias ideologias procuram lhe dar suporte. A marxista é, hoje, a principal delas. A desigualdade é apontada como arbitrária e mesmo ilegal, como decorrente de exploração de muitos por poucos. Assim, o que é apenas desigualdade passa a ser visto como iniqüidade. (...)
O igualitarismo tornou-se o ópio dos invejosos.”
O que vemos nesse livro de Português – incluído pelos especialistas do MEC no Guia do Livro Didático de 2008 – é a preparação do terreno; é a fumigação que pretende exterminar ou debilitar as defesas morais instintivas das crianças contra o ataque da militância socialista que as aguarda nas séries subsequentes.
Mas, por favor, que ninguém desconfie da bondade desses educadores. Afinal, eles não querem nada para si; são apenas “trabalhadores do ensino” (como eles também gostam de dizer), tentando contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.
Assim postas as coisas, só nos resta pedir a Deus que proteja as crianças brasileiras da bondade militante dos seus professores.

4 comentários:

Anônimo disse...

Caro Lamartine

Tenho notado-o um fervoroso denfensor da direita(?)? um desiludido com a esquerda(?)?
Ontem seu "embate" foi interessante principalmente no que diz respeito a politização e partidarização (creio que esteja correto, senão desculpe-me).

Anônimo disse...

Lama,

Apenas agora leio o primeiro e-mail. Não sei, acho que esta minha mania de ler de cima para baixo, da esquerda para direita ainda vai me causar algumas situações de embaraço, mais é o resultado de uma educação antiquada e fora de moda.

Realmente não sei o que vem a ser "idiotas uteis ou sabem malvadamente e apoiam", só entendo que este é um juizo de valor e como tal permeado de todas os possíveis e indefectíveis valores, virtudes, paradigmas, crenças, etc.

Estou lendo um livro interessante - A História de B (leitura alternativa e obrigatória) - onde alguns destes elementos - até onde li - são discutidos. Acho que ele "constrói" uma "visão" interessante sobre estas categorias.

Se quizer tenho em forma digital - inclusive estou lendo no computador - e se posso disponibiliza-lo - vai pen drive, pois é muito grande para mandar por e-mail, são mais de 400 páginas.

C.R.

José Lamartine Neto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Lamartine Neto disse...

Caro amigo,

Nei sei para onde vou, só sei que não vou por aí, como diz José Régio. O que não quero é alguém ou algum grupo de "iluminados" me apontando a solução desta forma cega e embevecida por aqueles que estão no poder. Vejam que até uma autoridade da nossa autarquia declarou em evento, ao fazer uso de microfone, que votava em Lula. Que se Lula fosse para um terceiro ou quarto mandato, apoiaria. O que é isso? Que "coisa" é essa??

Ora bolas, depois de 46 anos, centenas de defeitos de caráter e um esforço titânico para me melhorar em alguns poucos itens, poucos mesmo, tipo 2 ou 3, vem um sujeito (ou grupo) cheio de razão (estando todo errado), fazendo o que bem quer, manipulando mentes já enfraquecidas e direcionadas por dezenas de anos de mentiras e subversões.

Ora porra, é "foda" olhar pra dentro de mim mesmo e admitir que não sou perfeito nem sou santo. Esta "coisa" não é fácil.

Colega, eu preciso lembrar todo dia o que fiz no meu passado, não mais com o olhar da culpa e do arrependimento. Vivo para reparar para os meus e para a sociedade aquilo que sinto que devo. É meu sentimento.

Mas depois de tantas atrocidades temos entranhado em todas as esferas da sociedade pessoas que não querem ver ou não acreditam no que aconteceu. E os comunistas de plantão são tão psicóticos que não estão nem aí para a sociedade. É tudo cordeiro para o enriquecimento. Já imaginou este país como se fosse uma grande Cuba?? Não é pelas soluções, é pelas mortes e pelas dores que, 50 anos depois ainda acontecem.

Mas o milagre da multiplicação volta a acontecer. O Brasil teve 3 mil presos políticos, 400 guerrilheiros/terroristas/militantes mortos assim como cerca de 300 militares também mortos em emboscadas e confrontos.

Pois bem, já foi distribuída uma série de indenizações para estes que alegam serem injustiçados pelo Estado (por terem pegado em armas e serem sufocados na tentativa de golpe). Sabe quantas indenizações já foram distribuídas? Não? São 64 mil, sessenta e quatro mil indenizações milionárias para terroristas. Por outro lado, sabe quantos já foram indenizados por aqueles que sofreram ações terroristas? Militares e civis que passavam na hora do tiroteio ou da explosão das bombas??? É bom descobrir, mas tenho certeza que ficará decepcionado com a quantidade pífia.

Bom, deixo-o com trechos do poema citado acima, que reflete um pouco meus sentimentos sobre o tema.



Cântico negro
José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

(...)

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


--
José Lamartine Neto