As obras aqui publicadas podem não ser inteiramente ficcionais, podendo corresponder ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais será mera coincidência?

domingo, 29 de abril de 2012

Eu, o Bandido


Eu, o Bandido

de Fabio Barbieri

Depois da reunião de encerramento do semestre, coquetel: tomei um único chopp, com salgadinhos. Depois de meia hora, fui embora de carro. Medo de ser preso como bêbado (crime 1).
Peguei estrada: e se o guarda me parar? Paguei o licenciamento, mas o documento não chegou pelo correio (crime 2).
Medo de o carro ser aprendido, com custos altíssimos da diária, multa e guincho. Para não falar do utilíssimo extintor de incêndio vencido (crime 3).
Deixei colega perto do Shopping, parando por 2 segundos em local amplo e vazio, mas com placa de proibido (crime 4) e dois guardas com o talão em punho, trabalhando a todo vapor.
Peguei família, fui ao McDonald´s comer junk food (crime 5).
Comprei lanche com um brinquedo (crime 6).
Meu filho fez birra e deu um soco na mãe. Dei bronca, anunciei castigo e dei um tapa na bunda dele (crime 7), sob o olhar de desdém das ‘madres terezas’ de plantão, que têm agora a obrigação legal de me delatar.
Cheguei em casa, fui ler o Estadão (ler jornal não chapa-branca: futuro crime 8, se depender dos esforços do PT).
Na minha biblioteca, olhando minha pequena coleção de ficção totalitária (Zamyatin, Orwell, Koestler, ...) e folheando livros liberais que explicam como o paternalismo e falta de apreço por liberdade podem finalmente transformar o ato de ler livros no crime 9, me perguntei: em que ponto deixei de ser um cidadão pacato, trabalhador responsável e pai de família e me transformei em um bandido anti-social, inimigo do povo?
Como a independência não é algo facilmente erradicável, estou condenado a seguir a trilha do crime: alguém conhece algum ‘traficante’ de remédio para garganta sem receita? Ou, como um ato de rebeldia política, talvez eu deva começa a fumar...
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