As obras aqui publicadas podem não ser inteiramente ficcionais, podendo corresponder ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais será mera coincidência?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Involução da fantasia no carnaval da Bahia

SEMANA DO CARNAVAL DE SALVADOR

Da Mortalha ao Abadá: a Involução da Fantasia.
 Por Pedrinho Rocha



 “Mortalha” surgiu em meio ao louco final dos anos 60. Era uma fantasia prática, barata e irreverente, contrapartida a tantos “caretas” que ainda povoavam um carnaval moldado ao estilo europeu. O careta era o pierrô mascarado; a mortalha era a liberdade descarada. Essa fantasia também tinha um capuz, mas logo o governo militar proibiu as máscaras. As mortalhas trocaram suas cruzes e cores fúnebres pelo colorido psicodélico e frases que expressavam as novas liberdades: sexo, comportamento e drogas. No carnaval era proibido proibir!

 Na metade dos anos 70 a mortalha já era vestimenta predileta dos pequenos blocos que não tinham grana para fantasias mais elaboradas. Alguns desses tornaram-se grandes e viraram ícones da folia, com suas mortalhas desejadas e disputadas que combinavam perfeitamente com o ritmo cadenciado das batucadas. Foi o caso do Jacú, Barão, Top 69… Por volta dos anos 80 surgiu também o “macacão”, fantasia simbolo de blocos como o Traz-os-Montes e Clube do Rato, mas a mais nova safra de grupos como o Camaleão, Saku-Xeio e Pinel elevaram a mortalha à condição de unanimidade para os foliões do carnaval de Salvador. Isso até início dos anos 90, quando surgiu o abadá no bloco Eva. Ano seguinte todos os blocos fizeram o mesmo.

 Ainda acho que a mortalha foi, de todas, a fantasia mais prática e livre. Podia-se tudo… Representou também um período muito importante da festa e de muitas gerações. Mas, com a introdução do trio elétrico nos blocos, por volta de 1980, o som frenético das guitarras já não combinava com aquela enorme túnica hippie e terminou por decretar, 10 anos depois, o fim da mortalha. O fim da fantasia.

 Antes de eu criar o abadá para o Eva, oferecí a idéia para meus tradicionais clientes na época, os blocos Pinel e Beijo, mas nenhum topou a brincadeira. Uns 3 anos depois de criado o abadá, propus, para o mesmo Eva, lançar a idéia de 3 abadás, um para cada dia, mas acharam a operação complicada e não quiseram. Foi a vez do Bloco Cheiro comprar a idéia e proporcionar uma das maiores mudanças de hábito no carnaval: sair um dia em cada bloco, ou melhor, sair um dia com cada banda.

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