As obras aqui publicadas podem não ser inteiramente ficcionais, podendo corresponder ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais será mera coincidência?

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Hobbes x Rousseau: as multidões autoritárias

Hobbes x Rousseau: as multidões autoritárias

09/06/2014
 às 9:36 \ CulturaLei e ordem
Dividir as pessoas em dois grupos é simplificar demais, sempre sujeito a limitações grosseiras. Mas nesse caso acho que podemos arriscar sem sacrificar tanto a mensagem: de um lado, temos aqueles céticos, desconfiados da própria natureza humana, e que portanto rejeitam soluções mágicas para a complexa vida em sociedade; do outro, temos a turma romântica, idealista, que enxerga o mundo por lentes utópicas e crê na perfectibilidade humana (sem se olhar no espelho).
O filósofo Luiz Felipe Pondé tem sido um dos maiores críticos deste segundo grupo, cujo principal ícone ainda é Rousseau. Já um dos representantes do primeiro grupo seria Hobbes. Comparar Hobbes a Rousseau, então, é comparar duas visões bem distintas de mundo, que acabam produzindo receitas diametralmente opostas para lidar com nossos males. Em sua coluna de hoje, Pondé resume bem as duas vertentes:
Hobbes é o cara que viveu uma vida honesta e responsável e dizia que sem ordem degeneramos em violência porque a vida é precária, perigosa, breve e dolorosa. Rousseau é o carinha que mandou os filhos pro asilo, enlouqueceu sua mulher, mas dizia que somos anjinhos e que a propriedade privada e a ganância é que fazem sermos maus e que em multidões revolucionárias “curamos” o mundo.
Prática de um lado, discurso do outro. Realismo de um lado, retórica do outro. Reconhecer limitações individuais de um lado, abraçar algum coletivismo “purificador” do outro. Pondé usa as “manifestações” violentas que pretendem impedir o acesso dos brasileiros aos jogos da Copa para ilustrar o tipo de mentalidade autoritária do segundo grupo. São os herdeiros dos jacobinos, que acreditam na violência “revolucionária” como instrumento de justiça.
Neste fim de semana mesmo, um artigo de Bruno Torturra, aquele do “Mídia Ninja”, sustentava que era absolutamente legítimo tomar as ruas e praças públicas como propriedade particular em nome da revolta, para construir um “mundo melhor”. Eis a forma de pensar do sujeito:
Em uma democracia obtusa, pouco permeável à participação direta, como a nossa, ocupar ruas e expressar desejos e ideais coletivos em vias públicas é, arrisco dizer, o mínimo que se espera de uma população politicamente ativa. Mesmo os cidadãos não engajados, fatalmente a maioria, deveriam compreender isso e não simplesmente “tolerar”, mas acolher manifestações. Mesmo as que, eventualmente, lhe causem transtornos.
Dane-se o direito básico de ir e vir! O “ninja” determinou que tem o direito de parar o trânsito todo para manifestar contra nossa democracia, e ponto final. São mentes autoritárias, jacobinas, dispostas a uma revolução para “salvar o planeta”. São filhotes da Revolução Francesa, particularmente de seu Terror, da guilhotina degolando milhares de inocentes, em julgamentos sumários nas ruas, ou espalhando as partes íntimas da rainha por Paris. Volto a Pondé:
A Revolução Francesa é um fetiche de professores que erotizam a política da violência “criadora”. A França, como a Inglaterra, teria se modernizado sem a maldita revolução. A maioria dos movimentos políticos marcados por uma metafísica revolucionária (jacobinos, Rússia, Cuba, China, Vietnã, Leste Europeu até a queda do muro de Berlim e outros) não serviu para nada a não ser para matar seus inimigos com desculpas metafísicas ou enriquecer seus líderes corruptos com o passar do tempo.
É fato surpreendente que o mesmo tipo de gente que se diz contra guerras goza com a ideia de revoluções. Acho que muita dessa gente goza mais gritando frases de efeito na rua do que transando. Mas muito psicanalista (e similares) por aí acha mesmo que a “verdadeira” clínica é a política. Toda teoria política com metafísica é totalitária em algum momento.
Toda essa digressão do filósofo foi para chegar a uma cena que ele testemunhou em São Paulo, quando um grupo de ciclistas noturnos ignorou um farol (ou sinal, para os cariocas) fechado e avançou como se os motoristas não tivessem direitos. Um deles ainda parou em frente aos carros e gritou palavras de ordem com sua “bike” na mão. Autoritários, fascistas do bem, acima das leis, pois querem um “mundo melhor” e não são “sujos” como aqueles que poluem o planeta com seus automóveis.
Respeitar as regras e leis igualmente válidas para todos? Isso é um valor republicano e liberal demais para o gosto dessa gente. Os filhos de Rousseau são “puros”, são moralmente superiores (como o próprio Rousseau se considerava, mesmo tendo abandonado todos os filhos e acumulado inimizade com inúmeras pessoas). Podem, portanto, tomar conta de tudo no grito, pois falam em nome do povo, da multidão. São a multidão! E como sabemos desde a Bíblia, o demônio tem nome, e seu nome é Legião…
Rodrigo Constantino


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