As obras aqui publicadas podem não ser inteiramente ficcionais, podendo corresponder ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais será mera coincidência?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Caverna de Platão - Prisões Psíquicas

A idéia de prisão psíquica foi explorada pela primeira vez na República de Platão, através da alegoria de uma caverna na qual Sócrates estabelece as relações entre aparência, realidade e conhecimento.

Os moradores da caverna, prisioneiros, tomam as sombras por realidade atribuindo-lhes nomes, conversando com elas e até mesmo ligando sons fora da caverna com os movimentos que observam na parede. Porem, caso fosse autorizado a qualquer um dos habitantes deixar a caverna, ele iria perceber que as sombras nada mais são que reflexos obscuros de uma realidade mais complexa e que o conhecimento e as percepções dos seus antigos companheiros da caverna são imperfeitos e distorcidos.

A caverna simboliza o mundo das aparências, enquanto a viagem ao exterior, a conquista do conhecimento. As pessoas no dia-a-dia podem ser enganadas por ilusões (aparências) uma vez que o modo pelo qual compreendem a realidade é limitado e até imperfeito. Entretanto, conforme sugere a alegoria platônica, muitos resistem ou então ridicularizam os esforços de esclarecimento, preferindo permanecer na escuridão, do que enfrentar os riscos de exposição a um novo mundo que ameaça as antigas crenças.

Organizações podem cair em armadilhas e ficar presas em formas de raciocínios inconscientes que as levam para caminhos não pensados. São armadilhas cognitivas, pressupostos falsos, crenças estabelecidas, regras operacionais sem questionamento e inúmeras outras premissas e práticas, que podem combinar-se para formar pontos de vista muito estreitos do mundo.

Muitas empresas desenvolvem culturas organizacionais que não permite lidar com seu ambiente de modo eficaz, uma vez que as metáforas usadas para modelar e compreender a organização são parciais e incompletas. Logo, a medida que as organizações e os seus membros caem em armadilhas de metáforas favoritas, há sempre uma tendência para ficarem delas prisioneiros. Muitas delas, são formas assumidas de raciocínio. E são inconscientes.

Dentro desta visão, uma completa compreensão do significado daquilo que é feito e dito diariamente precisa sempre levar em consideração a estrutura oculta e a dinâmica do psiquismo humano.

Finalizando, a metáfora sinaliza que a liberdade residia na busca do conhecimento. E isso fala por si só.


José Lamartine Neto



11 comentários:

Anônimo disse...

Boa noite, Lamartine.

Estava pensando exatamenet sobre isso, ontem. E cheguei à humilde
conclusaão de que, independente de nosso grau de conhecimento, vivemos
sempre como os ocupantes da caverna platônica.

Não sou um filósofo, nem um pensador gabaritado, mas vejamos. Todas as informações que acessamos, seja qual for o meio, passa por crivo de orgãos
governamentais e privados, todos com interesses em liberar umas e barrar outras, por mais democrata que seja o país. Inclusive, não posso me furtar a dizer que democracia é quando eu mando, ditadura é quando devo obedecer.

Assim, estamos mais perto ou mais distante da entrada da caverna e vemos com mais ou menos nitidez as sombras que passam de acordo com nossa capacidade de filtragem, crítica e de fazer ligações com os conhecimentos que já dispomos.

Estou aberto a críticas e comentários para eu poder aprender mais um pouco e chegar mais perto da saída da caverna.

Tudo de bom,

Ronaldo P.

José Lamartine de A. L. Neto disse...

Oi Ronaldo,

Nosso entendimento deste mito é muito coincidente. Como também não sou um filósofo, e na maior parte das vezes nem menos um pensador (muitos vão rir concordando), acredito que você foi muito feliz em me lembrar isso.

Mas as vezes penso que, quem ta no fundo da caverna usa uma verdade que lhe é conveniente fruto do mundo das aparências (parece que é isso que Sócrates quis dizer, segundo Platão). É como se fosse, para nós baianos, aquela história de caranguejo na lata: não sobe e não deixa os outros escaparem.

Outro problema é que andando no limite da "boca da caverna", mais cedo ou mais tarde alguém vai chamá-lo de "maluco", uma vez que o novo discurso, falando de coisas novas que o contato com a "realidade" permite, causará estranheza e, como tal, foge do que é a normalidade.
O escárnio público, o isolamento, a discriminação, o estigma, etc., funcionam um pouco como a Cicuta para Sócrates. Lá ele morreu de fato, no real. Por aqui, quando não se mata "no real", se mata a aparência, a reputação. É um matar pelo silêncio e pelo espírito, para que as coisas continuem como eram para alguns.

Mais outra coisa é, mesmo tendo visto a "luz" e a claridade do dia, não se tem a coragem, pelo menos por enquanto, de fazer as mudanças necessárias, já que dá trabalho e nem todos querem empreender isso. Logo para alguns, vão fingir que nada viram e continuarão tocando suas vidas normalmente dentro da "caverna".
É possível que no fundo de seus corações fique o desejo de que as coisas fossem de outra forma, além da dúvida se deveria ou não ter tentado fazer diferente.
Quem sabe se a aparência não é a objetividade e a racionalização (que se usa na vida), e o real são as coisas que os motivaram?

Abraço

--
José Lamartine Neto
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"Todos nós nascemos originais e morremos cópias." (Carl Gustav Jung)

Anônimo disse...

Boa tarde, Lamartine e colegas.

Vou fazer uma "mea culpa". Devo admitir que fico no fundo da caverna de vez em quando. É mais confortável e menos arriscado. Mas lá é muito escuro, cheira a mofo e fede, não aguento por muito tempo e busco ar puro.

Grande mestre e prezados colegas, a humanidade já passou e ainda vai
passar muitas vezes por essa questão de não admitir pensamentos hereges, em não conformidade com o padrão. Houve a Inquisição, houve as caças Às bruxas nos EUA e muitos outros exemplos que não cabe aqui relacionar. Em nossas casas não aceitamos que nossos filhos tenham certas idéias que não
gostamos, sequer discutimos sobre isso com eles - estou tentando melhorar isso.

Mas como ser humano, extremamente falho tenho duas frases que me tocaram quando as ouvi. A primeira é:

"A mente é como um pára-quedas, só funciona aberta."

A outra é:

"Abra seu coração, senão um cardiologista o fará por você." No que complemento: e a sua mente, senão um neurologista a abrirá. Ou psicólogo, etc.

Não podemos ousar em bloquear os pensamentos inovadores, mesmo que não sejam os nossos. Temos filhos, alunos, pessoas que queiram ou não nos têm como referências e se mantivermos uma postura refratária a melhorias que exemplos estamos dando?

Não é certo dar "cicuta" a todo "Sócrates" que aparece, mesmo porque o pensamento não se mata com veneno.

Chega, que essa discussão é interessante e não tem fim.

Aguardo respostas.

Tudo de bom,

Ronaldo P.

Aláfia.

Anônimo disse...

"A distância, que é o principal obstáculo para o progresso da humanidade, será superada em palavra e ação. A humanidade estará unida, as guerras serão impossíveis e a paz reinará em todo o Planeta."

Nikola Tesla

Prezados, este sim vivia completamente fora da caverna, fora das trevas, na luz!

Abraços e sds. cordiais a todos!

Prof. José M.
Campus de Salvador - DTEE

Anônimo disse...

Caros amigos

De fato o tema é muito interessante e não me contive a ser conivente em meio à ressonância dos sons que ecoam do âmago desta caverna de Platão.

Talvez seja um jeito troglodita de ser, pela ojeriza às injustiças e formas distorcidas da realidade que desafinam em meus ouvidos, por me sentir infeliz porque não encontro no mundo lá fora a verdade pura de meu primitivismo selvagem e criador, há muito tempo já atrofiado.

Mas em todos nós existe um Platão, e aos homens de boa vontade e coração aberto, ele nos ensinou como nos defender da ética dos sofistas, "um impostor... mais verosímeis do que verdadeiros, mais sedutores do que plausíveis, uma perversão voluntária do raciocínio demonstrativo para fins geralmente imorais."

O sofista é, neste sentido, menos o filósofo como amigo ou amante do saber do que o «sábio» na acepção não pedagógica de uma descoberta da verdade, mas segundo o modelo da transmissão de um ensinamento e, por conseguinte, segundo a forma tradicional de uma didática.

Para o paradigmático entendimento que Platão faz dos sofistas, tal transmissão dos ensinamentos reduz-se a comércio interesseiro de saberes mnemotécnicos, retóricos e sempre relativos.

Atualmente, no uso freqüente e do senso comum, sofisma é qualquer raciocínio caviloso ou falso, mas que se apresenta com coerência e que tem por objetivo induzir outros indivíduos ao erro mediante ações de má-fé.

E mesmo assim, até hoje a inquisição se mostra profundamente desenvolvida em nossos arquétipos, mesmo que extinta historicamente em nossa psiquê cultural. Quando é que nos deparamos com as exigências dos outros em demonstrar nossas idéias baseado em algo já publicado? Ou quando pedimos desculpas por sermos sinceros? Estas são formas inquisidoras inconscientes em nossa sociedade que herdamos sem a percepção da vontade.

Finalmente a psicologia encontrou, hoje em dia, duas formas de inteligências: racional e emocional. Ou seja, no meu entendimento, podemos pensar, falar e ser tudo o que queremos, sem necessariamente precisarmos nos expor às falácias sofistas.

Arquiteto K. S.

Anônimo disse...

Prezado Lamartine,

Muito bom o texto, enfim, uma leitura que mude o nosso comportamento.

Abraços.
Edith L.
Assistente em Administração

Anônimo disse...

Boa noite, K.S. e colegas.

Como você mesmo me fez entender, o jogo de palavras se tornou mais
importante do que a verdade.

É impressionante a quantidade de exemplos de "sofismas", tais como "A crise é do senado, não minha". A crise não é do senado, nem da câmara dos deputados. A crise é nacional, quiçá mundial.

Quando vemos o mandatário do país ser destituído do cargo por conduta
desonrosa e voltar nos braços dos eleitores com sorrisos e abraços
daqueles que o destituiram a crise é de todos.

Quando organizações financeiras fazem as bobagens econômicas, fazem a desgraça na vida de milhões de famílias e os governos correm em ajudá-los como se a culpa não fosse deles enquanto que uma grande parcela da humanidade não tem sequer direito a uma refeição minimamente decente a
crise é de todos.

Quando um bandido dá aulas de gestão, de política social, de política pública e os nossos dirigentes fazem caras e bocas pedindo mais uma copa do mundo e uma chance de sediar olimpíadas, como se todos os problemas do
país estivessem resolvidos, e não passássemos vergonha pública mundial porque nossos estudantes não conseguem entender o enunciado de problemas numa avaliação de desempenho escolar, a crise é nossa.

Então, sejamos realistas, como você mesmo falou, trogloditamente
verdadeiros. Temos um sério, talvez insolúvel problema nas mãos.

O pior de tudo, voltando ao tema da caverna, é que quem toma conta da entrada não tem nenhuma intenção de deixar os outros verem a luz.

Tudo de bom,

Ronaldo P.

Anônimo disse...

Bom dia, colegas...

Sou professor de filosofia do campus barbalho, recém aprovado no concurso.
Curioso que trabalhei o Livro VII da República de Platão com meus alunos, agora na primeira unidade. M.A., o outro professor de filosofia do barbalho, está preparando, junto com o professor Heitor (Artes), uma peça sobre o Mito da Caverna. Trata-se de um texto de referência para todos nós, principalmente por estarmos no serviço público. As reflexões de
Platão sobre aqueles que ocupam cargos por pura vaidade, especialmente os eletivos, são impressionantes. Neste aspecto, me parece que Atenas não era tão diferente do Brasil.

No mundo “fora da caverna” (inteligível) a luz do sol representa a idéia do Bem que deve orientar a vida das pessoas dentro da caverna (mundo sensível). Somos obrigados a viver na caverna, mas apenas alguns poucos conseguem sair dela e contemplar aquele Bem absoluto a partir do qual a
“verdadeira Justiça” poderia existir. A idéia de Platão é a de que aqueles que conseguem contemplar o Bem, o Belo, a Verdade (os filósofos) são quem
devem governar a cidade, pois seriam os únicos capazes de fazer valer, de fato, a justiça, mas apenas se tiverem o poder para isso.

Todo o conjunto de livros da República trata essencialmente do problema da justiça. Platão procura construir, a partir de um sistema baseado numa idéia de Bem absoluto, situado numa realidade transcendente (mundo inteligível), o conceito de uma justiça perfeita que deveria orientar a vida das pessoas no mundo sensível (a caverna). O grande problema, meus
caros, está no fato de que “no momento da ação (política), para nosso desconforto, revela-se, primeiro que o 'absoluto' , aquilo que está 'acima' dos sentidos – o verdadeiro, o belo, o bom –, não é apreensível, porque ninguém sabe concretamente o que ele é. Não há dúvida de que todo mundo tem dele uma concepção, mas cada um o imagina inteiramente diferente” (Hannah Arendt, A promessa da política). Neste sentido, Stalim,
Hitler, Mao Tse-Tung, e outros tantos (latino-americanos) que poderíamos citar, têm a sua própria idéia de um Bem absoluto que acaba resultando SEMPRE num mundo sem justiça para a maioria das pessoas. Cada um deles impõe sua própria idéia de justiça.

A justiça, para Platão, não é deste mundo. Pertence ao mundo das idéias perfeitas, o mundo inteligível. Se ele existe, ou não, é uma questão de fé e não de razão. Mas é no mundo imperfeito, habitado por seres humanos imperfeitos, que somos obrigados a viver.

Não há como fugir da Caverna, meus caros. No entanto, acredito ser
possível torná-la um lugar melhor. Para isso, o verdadeiro Sócrates – não aquele inventado como um personagem literário por Platão – seria um pouco mais interessante. Para Sócrates, o grande problema está na incoerência das pessoas que encenam o tempo todo, ao invés de falar a verdade. São os homens deste mundo que o transformam em uma verdadeira caverna, pois estão
sempre dissimulando ao invés de revelar o que realmente são. Aí estava a principal razão de seu desacordo com os sofistas, pois estes estavam mais preocupados com a retórica, com o convencimento. Para Sócrates, “é melhor estar em desacordo com o mundo todo do que, sendo um, estar em desacordo comigo mesmo”. Dizia ainda, “seja conforme gostaria de ser visto pelos outros”, o que significa que a minha identidade interior deve ser coerente com aquilo que revelo aos meus pares. Óbvio, “nem tudo o que pensamos é digno de vir a público” (Hannah Arendt), mas aquilo que revelamos deveria ser exatamente aquilo que pensamos. Isso realmente é uma coisa difícil de se fazer, sobre tudo no serviço público onde muitos preferem ficar na sombra do poder ao invés trazerem à luz as idéias (as boas idéias) de sua própria consciência.

Um grande abraço a todos e todas...

Wanderley J.D.

Anônimo disse...

Prezado Ronaldo,

Não há palavra no dicionário para descrever o que senti quando vi o
documentário...
(http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte),
inclusive fiz questao de baixa-lo e assim que tiver oportunidade exibirei-o aqui no campus.
Me lembrou o documentário ilha das flores, do Jorge Furtado, mas muito
mais contundente, incisivo, corrosivo.
Está em perfeita Sintonia com a discussão sobre o mito da caverna de platão aqui neste espaço. com o perdao do trocadilho Nietzcheniano, o Homem está demasiado(des)umano.

Ats,

Leonardo
Campus Santo Amaro.

Anônimo disse...

Boa noite, Wanderlei e colegas.

Obrigado pela aula,. Estou aprendendo com esta discussão.

Poucos iluminados conseguiram sair da caverna e ver a luz. Nós, pobres mortais, comuns, com necessidades comuns no máximo conseguimos chegar mais perto da entrada e ver mais nitidamente as sombras que passam.

Acho que é desejo de todos ver a verdade completa e absoluta, mesmo que escondamos isso sob capas de ganância, de vaidades e outros sentimentos menores que dificultam a nossa ascensão a um plano de existência melhor. O próprio Cristo falou que se quiséssemos faríamos tudo o que Ele faz e seríamos como Ele é. Em Sua concepção temos potencial divino, pois somos filhos de Deus. Então,precisamos nos desatar de algumas amarras para vermos e sermos luz. É difícil, exige disciplina e desapego e não fomos
educados assim. Fomos educados para o conflito, para a competição. Isso é importante, mas não é só isso.

Quanto a noção de justiça, peço que acessem o site a seguir, com um ponto de vista alternativo do que seja justiça:

http://ifatola.com/index.php?option=com_content&task=view&id=20&Itemid=71

É aceito que cada um veja o mundo ao seu modo e "puxando a brasa para a sua sardinha" (inclusive, pode-se mentir, melhor, faltar com a verdade numa comissão do Congresso e no Senado), mas há coisas que não podem ser relativizadas e a JUSTIÇA é uma delas.

Tudo de bom,

Ronaldo P.

vera melo disse...

a caverna pra min significa o que o Cazuza chamava de piscina cheia de ratos,afirmando que a corrupção é verdadeirtamente as sombras da sociedade baseada na decadência vivenciadas pelos individos por vários motivoa como,a renúncia, o abandono,a falta de fé,desistem de acretitar,lutar,e ter esperança.de um mundo melhor,fustrando assim a visão de platão.